Em SP, abril registra mês com mais mortes por PMs desde maio de 2006

Foi a 2ª vez desde início da série histórica em que número de mortes passou de 100 em um mês. Números são "absolutamente inaceitáveis", diz professor

Foram, ao todo, 116 mortes por policiais em serviço ou durante folga

Foram, ao todo, 116 mortes por policiais em serviço ou durante folga

Divulgação/PMESP

O último mês de abril registrou o maior número de pessoas mortas por policiais militares em um mesmo mês desde maio de 2006, segundo dados da SSP (Secretaria de Segurança Pública de São Paulo). Foram, ao todo, 116 óbitos.

Dessas mortes, 102 foram por PMs em serviço e os outras 14 pelos agentes durante suas folgas.

Os dados de abril deste ano foram significativamente maiores que os de meses anteriores: em janeiro, 84 mortos; em fevereiro, 96; e, em março, 75. No total, já são 371 mortos por PMs em 2020.

Para Rafael Alcadipani, professor da FGV (Fundação Getúlio Vargas) e membro da Fórum Brasileiro de Segurança Pública, os números são “absolutamente inaceitáveis em qualquer país democrático, em qualquer país minimamente decente do mundo”.

O professor se utiliza do caso de George Floyd, homem negro morto pela polícia estadunidense sem oferecer resistência, e argumenta que faltam ações mais combativas à letalidade policial em São Paulo e em todo o Brasil. “Nos Estados Unidos o policial rapidamente foi preso, apesar dos protestos, evidentemente, que levaram a isso. Tem um controle externo das atividades policiais maior do que a gente tem no Brasil”, afirma Alcadipani.

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No Brasil, prossegue o professor, esses números de letalidade policial são muito mais expressivos e as autoridades parecem não tomar atitudes corretas. “Por exemplo, São Paulo não tem uma política de segurança pública que coloque o combate à letalidade como uma coisa central. Vemos que a letalidade persiste como um problema, assumindo números históricos. E infelizmente não vemos um compromisso da polícia, do Ministério Público, do Governo e da sociedade para resolver esse problema”, diz.

Para ele, com o menor movimento nas ruas, a pandemia do novo coronavírus pode ter sido fator de influência na alta, pois o deslocamento policial fica mais rápido e fácil, portanto a possibilidade de confronto seria mais acirrada.

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Em maio de 2006, durante conflitos entre a facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) e agentes do Estado, mais de 500 pessoas morreram. Naquele mês, foram 137 mortos por PMs em serviço e dois durante folgas.

Em toda a série histórica de dados de letalidade policial, que se iniciou em 2001, apenas maio de 2006 e abril de 2020 tiveram mais de 100 mortos por policiais militares.

A reportagem pediu à SSP um posicionamento sobre o número recorde em 166 meses.

Em nota, a corporação afirmou que tem estado com maior frequência em áreas com incidência criminal e que, muitas vezes, chega ao local do crime com a ocorrência em andamento. O comunicado indica, ainda, que o período de pandemia também influenciou na alta dos números: "com uma menor circulação de pessoas e um maior número de policiais nas ruas, esse tempo de ação é ainda mais rápido".