Especialista aponta falhas de segurança no Morumbi: “Base da PM em Paraisópolis vai chegar tarde”
Para coronel José Vicente, patrulhar as esquinas dos crimes tem efeito limitado
São Paulo|Do R7

Aposta da SSP (Secretaria de Segurança Pública) para reduzir a criminalidade no Morumbi, a construção de uma base da Polícia Militar em Paraisópolis já se arrasta há um ano e meio. O governo estadual promete desapropriar o terreno neste mês, mas sem previsão ainda para o início das obras e o funcionamento da unidade. Para o coronel reformado José Vicente da Silva Filho, especialista em segurança pública, a base terá um efeito positivo porque “atinge o coração do problema de segurança na região”. Mas, segundo ele, a medida está chegando tarde demais.
Há dois anos, o Morumbi, bairro nobre da zona sul de São Paulo, registra cerca de dez assaltos todos os dias.
Entre o fim de outubro e o começo de novembro, a região teve ao menos quatro arrastões. Os bandidos usam sempre a mesma tática: abordam motoristas parados em cruzamentos e semáforos, fazem a limpa nos carros e fogem com os comparsas em motos.
A SSP aumentou o efetivo na região nesse período, com patrulha dos pontos críticos. Mas, para Vicente Filho, “não adianta ter [policiais] numa esquina onde tem muito assalto, porque, como se sabe, o bandido se move de lá”.
— [A base fixa da PM] pode ter mais repercussão do que simplesmente colocando policiais nos locais onde fizeram arrastão e que não vão fazer mais, obviamente. Então começa a se mexer no coração do problema.
Leia, a seguir, a entrevista completa:
R7 — A base da PM dentro de Paraisópolis vai ajudar a combater a criminalidade na região?
José Vicente da Silva Filho — Ajuda bastante sim. Essas bases fixas são indicadas para locais onde têm problemas criminais crônicos. Não adianta ter numa esquina onde tem muito assalto porque, como se sabe, o bandido se move de lá. Mas infelizmente, para os próprios moradores dessas favelas, tem muitos bandidos que se escondem lá e usam com uma base praticamente, então é bom a polícia ter uma base também.
Paraisópolis, onde tem pelo menos 50 mil habitantes, precisa ter um tratamento como uma cidade de 50 mil habitantes, com uma delegacia, um destacamento da Polícia Militar. Eu imaginava que já tivesse há muito tempo essa base. Então devia ter há muito tempo sim.
Como funcionaria?
Em Paraisópolis, a polícia pode se concentrar nas entradas e saídas mais usadas, alternadamente, controlar o acesso, abordar motocicletas suspeitas que estiverem chegando. As motocicletas usadas por bandidos, de 80% a 90% são furtadas ou roubadas. Esse tipo de trabalho pode criar um ambiente de mais tranquilidade e segurança para os moradores.
Ter um controle de acesso não é ostensivo para a comunidade?
Pode ser, mas a vantagem de ter uma base é que começa a interagir com a comunidade e mostra para os moradores a conveniência de alguns procedimentos de segurança. A ideia inclusive é começar a fazer reuniões com moradores, com familiares, pais, e começar a ajudar na segurança de entidades sociais e da própria comunidade, da prefeitura e do governo que estejam trabalhando por ali.
Isso pode ter mais repercussão do que simplesmente colocando policiais nos locais onde fizeram arrastão e que não vão fazer mais obviamente. Então começa a se mexer no coração do problema.
Como deve ser a colaboração da comunidade?
Em 1991, eu fui visitar a base comunitária do Jardim Ângela, que estava no começo, na companhia de um chefe da polícia de Nova York. Ele perguntou a um oficial se a comunidade ajudava na captura de bandidos. O policial abriu uma gaveta e mostrou papéis, fotos: “Está cheio de informação que a comunidade me passa”.
Se você tem um problema, você tem que verificar todas as hipóteses para resolver, e uma das boas apostas é justamente essa base. Eu diria que o pessoal que atormenta o Morumbi... vou exagerar, mas devem ser 30 pessoas que atormentam a vida de 500 mil habitantes.
Mas são da comunidade?
Não só, mas tem gente que se aproveita da comunidade só para se esconder, que não tem relação com Paraisópolis, que faz chantagem, que faz bullying com as meninas da comunidade, e isso vai dar repercussão dois quilômetros dali, onde os bandidos estão assaltando.
Como deve ser o comportamento do PM para trabalhar nessa unidade?
Esse PM tem que entender que a função dele não é pura e simplesmente sair pegando bandido, ou ver a comunidade como problemática. Mas eles vão abertamente procurar contatos nas reuniões com a comunidade, nas escolas, com os pais, líderes, entidades que estão ali, ganhar a confiança da população. Até porque a quase totalidade da comunidade é de pessoas honestas, e é preciso vê-los como parceiros, e não como ameaça. Quem tem que se sentir ameaçado é o bandidinho.
Além da base da PM, o que mais se pode fazer na região?
O que nós percebemos no Jardim Ângela, quando aumentou substancialmente o efetivo, depois de pacificada a área, é que se criou oportunidade para dar maior desenvoltura para as entidades comunitárias, que cuidam de crianças, idosos, etc. Começa a haver possibilidade de expansão à medida que a autoridade do Estado se instala ali.
O que mais representa o Estado, visivelmente na rua, é a polícia. Quando a polícia está permanentemente, falam: “o Estado chegou para cuidar da gente aqui”.
Ao mesmo tempo que isso traz uma certa tranquilidade para a comunidade, traz intranquilidade para os bandidinhos. É uma pena que chegou tarde, mas em segurança pública tem uma frase que diz: “Nunca é cedo demais, mas também nunca é tarde demais para tomar uma boa medida que ajuda a segurança”.
Qual a semelhança dessa base com as UPPs do Rio de Janeiro?
A UPP tem uma outra configuração, porque normalmente são comunidades dominadas pelo crime organizado, o que não é o caso de Paraisópolis.
Então lá nessas favelas a viatura policial nem conseguia entrar. Só entravam 40 policiais com fuzil na mão. Não é o caso de Paraisópolis. Ali tem uma desordem urbana, típica de favelas. O Estado descuidou de estar presente há mais tempo, inclusive com o destacamento da PM.













