Estudante que perdeu visão em protesto passará por cirurgia nesta segunda-feira
Vitor Araújo, de 19 anos, teria sido atingido por artefato lançado por policiais militares
São Paulo|Thiago de Araújo, do R7

O estudante Vitor Araújo, de 19 anos, passará por uma cirurgia nesta segunda-feira (9) no Hospital das Clínicas, onde está internado desde sábado (7), quando foi ferido durante os protestos realizados no centro de São Paulo. Ele acabou perdendo a visão do olho direito em razão da gravidade do ferimento.
Em entrevista ao R7, o advogado André Zanardo, que acompanha o caso e integra o grupo Advogados Ativistas, disse que Vitor Araújo contou ter sido atingido pelo pedaço de uma bomba de efeito moral, atirada por policiais da Tropa de Choque durante o confronto nas imediações da Câmara Municipal.
— Abuso da polícia existiu, porque o próprio Vitor disse que a bomba foi direcionada a ele. Vamos aguardar os laudos médicos para avaliar de quem foi a responsabilidade, ele (Vitor) já disse que quer acionar o Estado e buscar reparação dos danos.
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A assessoria de imprensa do Hospital das Clínicas confirmou que a cirurgia será para a “remoção do material ocular e reconstrução da pálpebra do olho direito”. Vitor Araújo passou por outros exames e seu estado de saúde é considerado bom. Não há previsão de alta para o estudante.
Em vídeo postado na página do Gapp (Grupo de Apoio ao Protesto Popular), o jovem disse não pertencer aos Black Blocs, grupo que foi o principal alvo da repressão por parte da Polícia Militar durante as manifestações do Dia da Independência na capital paulista. Ele disse que estava com o rosto coberto, mas para se proteger do gás lacrimogêneo. O estudante disse ainda não se arrepender de ter participado do protesto, apesar da perda da visão.
A reportagem do R7 procurou a assessoria de imprensa da PM, em busca de um posicionamento oficial da corporação sobre o assunto, mas até o momento não obteve retorno.
As manifestações do último sábado deixaram um saldo de pelo menos 40 pessoas presas e outras 13 feridas, de acordo com dados da PM e do Gapp. No fim da manhã desta segunda-feira, quatro pessoas seguiam detidas – duas delas seriam encaminhadas para um CDP (Centro de Detenção Provisória), segundo a SSP (Secretaria de Segurança Pública de São Paulo).
O protesto
Cerca de 1.500 pessoas, boa parte delas associada ao movimento dos Black Blocs, tomaram as ruas da capital paulista no sábado. O ato se iniciou no vão livre do Masp, na avenida Paulista.
Várias causas foram levadas ao protesto, mas o governador Geraldo Alckmin (PSDB) foi o principal alvo, em razão da suspeita de cartéis milionários em obras do Metrô e da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) ao longo das gestões tucanas no governo do Estado. Pichações contra ele foram feitas no percurso da marcha.
Os manifestantes percorreram também a região central e neste trajeto iniciaram atos de vandalismo. No viaduto Jacareí, na avenida Liberdade e na avenida Brigadeiro Luís Antônio os vândalos queimaram lixeiras.
Em frente ao prédio da Câmara Municipal, no viaduto Jacareí, no centro, policiais militares e manifestantes mascarados entraram em confronto. Após um grupo arremessar algumas pedras em sua direção, PMs revidaram com dezenas de bombas de gás lacrimogêneo, apesar de haver crianças e idosos no viaduto.
Houve depredações de agências bancárias e de uma universidade na avenida Brigadeiro Luís Antônio. Na avenida Paulista, os manifestantes quebraram vidraças e picharam fachadas de comércio. Na rua Haddock Lobo, vidraças de pelo menos cinco lojas foram destruídas pelos manifestantes.
Atropelamentos
Após uma dispersão, os mascarados seguiram para a praça da Sé, onde três pessoas foram atropeladas. Duas delas, na rua lateral à Catedral Metropolitana. A primeira, um homem de 30 anos, foi atingida por um Corsa em alta velocidade — o motorista supostamente fugia do protesto. A vítima quebrou o pé direito e ficou com ferimentos nas pernas, sangrando.
A outra vítima, um homem de 28 anos, caiu de uma viatura da PM, que disparou após ser cercada por um grupo de manifestantes que pediam socorro para o primeiro atropelado. No momento em que a viatura arrancou, o homem continuou sobre o capô do carro da polícia protestando por ajuda. Mesmo assim, a viatura não parou. Na hora em que o carro dobrou para a praça João Mendes, o manifestante caiu no asfalto, ferindo-se.
Essas duas pessoas ficaram por mais de meia hora deitadas no asfalto, sem nenhum tipo de auxílio da PM. Outras viaturas e motos da PM tentaram ser paradas pelos manifestantes, mas os pedidos não foram atendidos.
Assista ao vídeo:













