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“Fiquei no banheiro, chorando de desespero”, diz pai de Arthur

Hospitais podem responder por crime de omissão de socorro

São Paulo|Fabíola Perez, do R7

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Arthur, 5 anos, esperou seis horas para ser atendido na rede pública de saúde
Arthur, 5 anos, esperou seis horas para ser atendido na rede pública de saúde

Uma semana após o menino Arthur Aparecido Bencid Silva, de cinco anos, ter sido atingido e morto por uma bala perdida, o pai do garoto, David Santos, afirma ao R7 que durante a madrugada do dia 1º viveu momentos profundos de angústia ao tentar fazer a transferência do filho até um hospital com Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica.

“Tinha hora que eu não estava em lugar nenhum, só ficava no banheiro chorando de desespero”, diz. “É muito dolorido tudo isso. A única coisa que tenho certeza é que ele morreu na minha frente."


Atingido por um projétil enquanto brincava no quintal de casa, na região de Campo Limpo, zona sul de São Paulo, o garoto teve de esperar seis horas para conseguir uma vaga no Hospital Geral de Pirajussara. “Queremos esclarecer tudo e colocar os fatos na sequência correta, mas cada vez que lembramos revivemos a angústia", diz Santos.

Falhas no atendimento


Na sexta-feira (5), o Conselho Estadual dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe) enviou à Ouvidoria Geral do Estado de São Paulo um pedido de apuração e providências sobre falhas e irregularidades no atendimento de saúde do menino Arthur.

O Conselho também pediu a investigação do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) pela falta de médicos para acompanhar a transferência. A Ouvidoria respondeu ao órgão que em 20 dias dará uma resposta sobre os procedimentos.


O advogado e membro do Condepe, Ariel de Castro Alves, afirma que em casos envolvendo crianças que precisam de atendimento imediato, hospitais não podem se negar a atender. “Deixar de prestar atenção a um jovem ferido configura crime de omissão de socorro”, diz. “A pena é de seis meses de detenção e, em casos, de lesão corporal grave ou morte, a condenação pode dobrar e triplicar, respectivamente.”

Imbróglio e falta de vaga


Ao perceberem que o garoto tinha sangue na nuca, a família o levou para o hospital da rede privada Family. Como o centro hospitalar não possui UTI pediátrica, após passar por exames, o hospital entrou em contato com 12 instituições diferentes em busca de vaga. “Desde a entrada do Arthur no pronto socorro, a equipe médica que o atendeu prestou todos os atendimentos necessários, já que ele sofreu um trauma na região cefálica com lesão neurológica gravíssima”, afirmou o hospital por meio de nota.

As 12 instituições afirmaram que não havia vaga para a internação em UTI pediátrica. “O ideal seria que logo depois da meia noite ele tivesse sido atendido. Crianças e adolescentes têm prioridade absoluta e preferência em qualquer forma de proteção e socorro no serviço público”, afirma Alves. “Isso não foi visto.”

O grande imbróglio é que, de acordo com a Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, o protocolo correto para transferir um paciente para outras instituições é por meio da Central de Regulação de Oferta de Serviço de Saúde (Cross). Nesse serviço, o hospital insere detalhes do estado de saúde do paciente e ele é encaminhado à instituição de saúde mais próxima.

A assessoria de imprensa da Secretaria informou que não houve cadastro nesse sistema no dia 1º. Não foi informado pelo órgão, porém, se esse procedimento é obrigatório. O Hospital Family declarou que não utilizou o sistema, mas realizou os contatos por telefone.

No momento em que a equipe do Family conseguiu a vaga no Pirajussara, a primeira ambulância do SAMU chegou ao local, mas sem condições técnicas de transferir Arthur.

Na segunda tentativa, a ambulância chegou sem médicos. A equipe do Family liberou, então, dois profissionais para acompanhá-lo até o centro de saúde de destino. “Em nenhum momento, o menino Arthur ficou sem a devida assistência médica”, declarou a equipe do Family por meio de nota.

Ao longo dessas seis horas, contudo, enquanto o sistema de saúde decidia onde atenderia Arthur, as esperanças dos familiares se esgotaram junto com a vida do garoto. 

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