“Fiquei pedindo pra Deus salvar todo mundo”, diz sobrevivente de desabamento em SP
Eletricista quebrou o pé e ficou cinco horas à espera de resgate
São Paulo|Amanda Mont'Alvão Veloso, do R7

Casado, pai de dois filhos, o eletricista Rubens Antonio de Oliveira, 44 anos, pensou que a terça-feira (27) fosse seu último dia de vida. Ele é um dos sobreviventes do desabamento do prédio no qual trabalhava, em São Mateus, na zona leste de São Paulo.
— Não ouvi nada. Caiu tudo de uma vez, a laje ficou “macetando” a gente no chão. Na hora, pensei que fosse morrer.
As cinco horas seguintes foram de angústia. O celular ajudou a iluminar o vão entre ele e o andaime no qual trabalhava, e revelou um pé quebrado. A primeira impressão foi de que apenas a laje de Oliveira tinha caído.
— Pensei que o pessoal estava vivo. Achei que só eu e meu colega estávamos debaixo da laje; não sabia que o prédio inteiro tinha caído.
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O telefone não tinha sinal para as chamadas. O eletricista, então, começou a gritar para que o localizassem. A espera, com dor, era acompanhada de vozes de bombeiros e outras pessoas. Para aguentar o tempo do resgate, Oliveira começou a rezar.
— Fiquei preocupado com meus colegas. Fiquei pedindo pra Deus salvar todo mundo.
Um companheiro da obra foi resgatado. Porém, o medo de que novas estruturas caíssem fez com que os bombeiros saíssem de perto de Oliveira, que começou a bater um ferro no andaime para chamar a atenção. Foi assim que ele foi localizado por um bombeiro, que abriu um buraco no fundo da laje e o resgatou.
— Quando vi que estava salvo, chorei um pouco.
Dez colegas de Oliveira morreram, e outros 24, além de um motoqueiro que passava pela região, ficaram feridos. A mulher, a filha de 14 anos e o filho, de 20, não sabiam que o eletricista era um dos 35 operários que atuavam no prédio desmoronado. Isso porque Oliveira combinou com um colega de só avisarem a família depois que o eletricista estivesse fora de perigo. A mulher só acreditou depois de ouvir a voz de Oliveira.
Ele não imaginou que o prédio fosse desabar algum dia, mas já tinha comentado sobre a fragilidade da estrutura com colegas, já que as colunas de sustentação eram muito finas — e em pouca quantidade, apenas seis — para uma laje tão pesada.
— Comentei com meus colegas, em tom de brincadeira: “essa coluna é mais fina que as colunas da minha casa”.
O pé quebrado rendeu uma cirurgia com alguns pinos. Oliveira vai precisar de seis meses a um ano para se recuperar. Como única fonte de renda na família e sem dinheiro guardado, ele espera contar com o salário a ser pago e com o auxílio pago pelo acidente. A rotina, de agora em diante, será de repouso e de fisioterapia.
— O médico falou que vou ficar normal. Talvez não vá conseguir jogar bola, correr, mas o resto, sim.
Eletricista desde os 17 anos, quando já morava em São Paulo — Oliveira nasceu em Uberaba (MG) —, ele ainda não sabe o que vai fazer quando melhorar. A ideia é trabalhar, não importa a oportunidade.
O ofício era algo que sempre lhe deu orgulho. Seja em um andaime a 20 metro de altura ou em um prédio de 20 andares.
— Nunca tinha vivido algo assim. Gostava de falar que nunca tinha quebrado nem um dedo.













