“Foi uma grande emboscada”, diz amiga de jovens mortos na zona leste
Mulheres deram seus depoimentos durante ocupação da Secretaria de Segurança Pública
São Paulo|Giorgia Cavicchioli, do R7

“A gente sabe que isso foi uma grande emboscada”. Foi com convicção que uma amiga dos cinco jovens mortos na zona leste de São Paulo deu seu depoimento durante a ocupação da Secretaria de SSP (Segurança Pública do Estado) nesta quinta-feira (10).
Ela e outra amiga das vítimas da chacina fizeram parte do protesto que começou no Largo São Francisco e acabou depois de tomar o saguão da sede da SSP ontem.
De acordo com a mulher, que não quis se identificar, ela e a outra amiga foram até a casa de uma das mães dos jovens na última quarta-feira (9) e que ela ainda “não teve o direito de enterrar o seu filho”.
Emocionada, ela disse que “a polícia não vai para a periferia por políticas públicas. Ela vai tirar nossa dignidade”.
— A gente cresceu com eles, a gente conhece a história deles e a gente sabe que isso só acontece pela ausência de direitos.
A outra amiga presente no ato disse que acredita que “foi a polícia que matou eles”. Além disso, ela afirmou também que os jovens “não são os últimos a morrer”. Em sua fala, ela mandou um recado da mãe de um dos meninos mortos e disse que ela agradeceu o carinho dos manifestantes.
— Ela pediu para agradecer todos vocês que estão aqui hoje. Ela só não está aqui porque o filho dela não foi reconhecido ainda. Mas ela está aqui de coração.
O ato de ontem começou por volta das 19h. Inicialmente, o protesto seria uma vigília pelas mortes de Robson Fernandes Donato de Paula, de 16 anos, Caíque Henrique Machado Silva, Jonathan Moreira Ferreira, ambos de 18, Cesar Augusto Gomes da Silva, de 19 anos, e Jonas Ferreira Januário, de 30. Várias entidades estavam presentes e se organizaram em falas, pedindo o "fim do genocídio da população negra" e o "fim da Polícia Militar".
Depois dos pronunciamentos, o grupo seguiu em caminhada até a Secretaria da Segurança, que fica na rua Libero Badaró. Policiais ainda tentaram impedir a entrada dos manifestantes na sede da pasta, mas não conseguiram. A Tropa de Choque chegou a ser acionada, mas não interveio.
De acordo com Beatriz Lourenço, integrante da Frente Alternativa Negra, que convocou o ato, a convocação aconteceu “porque a gente entendeu a necessidade que mais um caso desse não passe impune”.
— O que a gente tem no Brasil é uma abolição inacabada, que resulta nesse tipo de coisa, que não vai deixar de acontecer.
Segundo ela, “não faz sentido a gente ter uma polícia militar em um período democrático”. Beatriz também diz que é preciso pensar outro projeto de segurança pública para o País, “um projeto que não seja combativo”.
Segundo Marcelo Pablito, da secretaria de negros e negras do sindicato dos trabalhadores da USP (Universidade de São Paulo), a polícia é “herdeira da ditadura militar” e que é preciso punir os responsáveis pelas mortes.

O caso
Robson, Caíque, Jonathan, Cesar Augusto e Jonas desapareceram em 21 de outubro, quando iam da zona leste de São Paulo para uma suposta festa em Ribeirão Pires.
Eles foram encontrados no domingo (6) em uma cova rasa na zona rural de Mogi. Os corpos tinham marcas de balas — e um deles foi decapitado. No local foram achados cartuchos de calibre .40 de dois lotes comprados pela PM. A Polícia Civil apura o caso.















