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Fundador da Virada Cultural critica mudança para Autódromo de Interlagos: “Não é mais a Virada”

Além do ex-secretário Calil, urbanista repudia anúncio de Doria de retirar shows do centro 

São Paulo|Dinalva Fernandes, do R7

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A Virada Cultural ocorre, hoje em dia, em diversos pontos da região central da cidade simultaneamente, durante 24 horas
A Virada Cultural ocorre, hoje em dia, em diversos pontos da região central da cidade simultaneamente, durante 24 horas

O prefeito eleito de São Paulo, João Doria (PSDB), anunciou que a Virada Cultural sairá do centro e será realizada no Autódromo de Interlagos, na zona sul da capital. O tucano ainda afirmou que o evento continuará gratuito, mesmo após a privatização do espaço. Para especialistas ouvidos pelo R7, a proposta de Doria fere o propósito do evento, que é ocupar os espaços da cidade.

De acordo com o cineasta, ensaísta e professor de cinema da ECA-USP (Universidade de São Paulo), Carlos Augusto Calil, o propósito da Virada Cultural é levar a população para o centro, que está abandonado. O evento foi implementado na cidade durante a gestão de Calil como secretário de cultura da Prefeitura de São Paulo, em 2005, quando o prefeito era o também tucano José Serra.


— A Virada Cultural é um evento no centro de São Paulo, que é uma área nobre da cidade que está deteriorada. A ideia é conscientizar as pessoas sobre um patrimônio em comum. Todo mundo tem seu bairro, mas o centro pertence a todos, não só a quem mora ou trabalha na região. Pode ser muito bom em outro lugar, mas é não mais a Virada.

Para a arquiteta, urbanista e pesquisadora do Instituto Polis, Natasha Menegon, a partir do momento em que se resolve isolar o evento em um espaço cercado, mesmo com entrada gratuita, é bastante prejudicial.


— Não vejo vantagem na proposta de tirar a Virada Cultural da rua e colocar num lugar cercado. O pior de tudo isso é impedir as pessoas de vivenciarem os espaços da cidade, como as praças, e poder andar pelas ruas do centro. A Virada que foi tão acolhida pela população vai ter seu propósito destruído.

A jornalista Vivian Stychnicki, de 29 anos, é moradora do centro há alguns anos e frequentadora da Virada Cultural. Na opinião dela, o evento tem grande importância no processo de revitalização do local, além de oferecer aos paulistanos a oportunidade de conhecer diversos tipos de arte gratuitamente.


— Segundo Doria, a mudança visa mais segurança e terá transporte e conforto, sem os "transtornos" que acontecem atualmente na Virada Cultural. Mudar o local só mostra o quanto o novo prefeito não conhece a nossa cidade e não quer encarar, nem buscar soluções para os problemas sociais que estão nas ruas do centro todos os dias e não apenas durante a realização do evento.

A jovem garante que não participará mais do evento, mas irá à "Virada Cultural Clandestina", que está sendo organizada no Facebook. Às 19h de terça-feira (6), o evento contava com mais de 32 mil de confirmações.


Atualmente, a Virada Cultural ocorre em diversos pontos da região central da cidade simultaneamente, durante 24 horas. Doria afirmou que a programação vai ser mantida, mas sem os "pontos ruins" da Virada, em toda a sua gestão. A arquiteta lembra que houve ajustes para evitar os problemas apontados no centro e a montagem de eventos menores em outras regiões, mas sempre com a ideia de ocupar o espaço público.

— [Com a mudança], a Virada se torna um evento nos mesmos moldes de shows privados, que também apresentam diversos problemas, como furtos. Restringir as pessoas num lugar cercado não é a solução para atividades culturais.

Para Calil, a Virada Cultural nunca foi um problema de segurança pública.

— A questão de segurança é da polícia. Nas primeiras edições, não houve problema nenhum. Só havia milhões de pessoas nas ruas. As ocorrências não eram maiores do que nos demais fins de semana. Em 2006, quando houve ameaça do PCC (Primeiro Comando da Capital), a população ocupou o centro para dizer que não tolerava a chantagem. As pessoas não foram lá porque o governo queria, mas sim pela necessidade de se encontrar num espaço público.

Em meio à repercussão do anúncio, o cineasta e futuro secretário de cultura da gestão Doria, André Sturm, voltou atrás sobre alguns pontos da proposta de mudança. Durante entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, ele afirmou que parte da Virada continuará no centro e que o evento não ficará confinado ao Autódromo de Interlagos.

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