Grupo lança petição online para transformar Virada Cultural em patrimônio de São Paulo
Objetivo da Minha Sampa é levar documento ao Conpresp para que evento permaneça nas ruas
São Paulo|Do R7*

O anúncio feito pelo prefeito eleito de São Paulo, João Doria (PSDB), de que a Virada Cultural passaria a acontecer no Autódromo de Interlagos a partir do ano que vem causou incômodo em diversos setores da sociedade. Para protestar contra a mudança, a Rede Minha Sampa lançou, nesta terça-feira (6), uma petição online para que a Virada Cultural se torne um patrimônio cultural imaterial da cidade. O documento assinado pela população será enviado para o Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo).
Dados apresentados pela Minha Sampa mostram que, em 2015, a Virada recebeu mais de 3 milhões de pessoas, enquanto o autódromo tem capacidade para 80 mil. Além disso, o coordenador de mobilização do grupo, Guilherme Coelho, pontua que o objetivo central do evento é ocupar as ruas, já que foi inspirado em um movimento semelhante que acontecia na França.
— O fato é que não devem existir muros.
Coelho afirma que, para evitar a perda do significado original do evento, a saída seria tornar a Virada Cultural em um patrimônio cultural imaterial, ou seja, que possui um valor, mesmo que não seja possível mensurá-lo. O coordenador da rede afirma que há uma convenção da Unesco que determina quais os pré-requisitos para o tombamento de um bem imaterial e que o evento possui vários deles.
— Um deles é que a Virada é uma manifestação cultural feita de um modo específico. Em todos os anos há a repetição de uma mesma prática enquanto coletivo, enquanto cidade.
Coelho diz que a iniciativa de Doria representaria a retirada de direitos do cidadão. Por isso, defende que a petição da rede é como um ato de resistência.
— Durante 12 anos de Virada houve uma política pública de acesso à cultura com qualidade. Você acaba construindo uma conquista dos próprios cidadãos. Foi uma decisão precipitada e de improviso. Eles não perceberam problemas básicos, como o espaço para comportar todos.
Criada em 17 de outubro de 2003, em Paris, a “Convenção para Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial da Unesco” tem como objetivo fazer com que os patrimônios produzidos por diferentes comunidades, grupos e indivíduos sejam respeitados e reconhecidos. A rede Minha Sampa buscou se inspirar nos artigos na Convenção para pontuar os motivos que possibilitam a transformação da Virada em um patrimônio imaterial.
Segundo o texto da Unesco, alguns dos patrimônios imateriais são práticas sociais, rituais e atos festivos, além de expressões artísticas e tradições e expressões orais. O texto reforça a característica geracional de um patrimônio cultural imaterial.
Veja um trecho do documento: “Este patrimônio cultural imaterial, que se transmite de geração em geração, é constantemente recriado pelas comunidades e grupos em função de seu ambiente, de sua interação com a natureza e de sua história, gerando um sentimento de identidade e continuidade e contribuindo assim para promover o respeito à diversidade cultural e à criatividade humana”.
Coelho explica que, com base no entendimento do texto da Convenção, a Virada está na agenda da cidade e, por isso, configura-se como mais um ponto que legitima o tombamento.
— Quando você tem algo com continuidade no tempo, você tem o direito de reivindicar como patrimônio.
Para o coordenador da Minha Sampa, a atitude do prefeito eleito é um desrespeito com a sociedade. Ele diz que a transferência da Virada para o autódromo seria a finalização de uma política pública que representa a identidade paulistana.
— João Doria precisa se retratar. O Secretário de Cultura [André Sturm] precisou colocar panos quentes nas declarações do prefeito eleito, mas acho que não é suficiente, porque gerou insegurança. Cada um fala uma coisa, vira um programa de televisão. Não dá para falar qualquer coisa de improviso e voltar a atrás.
O coordenador complementa que a forma como a Virada acontece tem um apelo para se tornar patrimônio, sendo algo marcante para a cidade, assim como o Carnaval.
— A atividade cultural já gerou novas formas de agir, de produzir cultura, das pessoas se encontrarem, de ocuparem o espaço.
* Colaborou Giuliana Saringer, estagiária do R7.













