São Paulo Heróis desempregados: SP descarta profissionais da saúde, diz sindicato

Heróis desempregados: SP descarta profissionais da saúde, diz sindicato

Enfermeiros, fisioterapeutas e jovens médicos falam ao R7 sobre o desligamento do trabalho após o período crítico da pandemia

  • São Paulo | Isabelle Amaral,* do R7

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Reprodução/Redes sociais/Biomedicina 1966 - 26.10.2021

Com a diminuição no número de casos e mortes por Covid-19 no estado de São Paulo, os profissionais da saúde que foram contratados emergencialmente durante o momento mais crítico da pandemia vêm sendo demitidos gradativamente. “Foram heróis por dois anos, com todo mundo aplaudindo, e na hora que a pandemia deixa de ser foco tudo começa a voltar ao normal, que é o tratar mal, retirar direitos e demissão dos trabalhadores”, relata Célia Regina Costa, que atua na secretaria geral do SindSaúde-SP (Sindicato dos Trabalhadores Públicos no Estado de São Paulo).

Entre os trabalhadores demitidos estão os auxiliares de enfermagem, enfermeiros, fisioterapeutas e jovens médicos que foram chamados para trabalhar de imediato em hospitais de campanha e UTIs-Covid (Unidades de Terapia Intensiva) instaladas para tratar pacientes com o vírus. Célia, que também atua na parte administrativa do Hospital do Servidor Público Estadual, na zona sul de São Paulo, conta que vem sendo notificada sobre essas demissões constantemente.

“Eles foram dispensados como se não fossem ninguém. Tiveram o maior cuidado com a vida humana, sofreram ali junto com o paciente, se arriscaram, para hoje serem descartados”, finaliza.

Um auxiliar de enfermagem, que preferiu não ser identificado, relata o mesmo sentimento. Ele conta que em junho deste ano foi chamado para trabalhar de imediato na UTI Covid do Hospital Geral de Taipas, na zona norte da capital paulista e, três meses depois, o setor inteiro foi desfeito.

De acordo com ele, após anunciarem o fechamento da UTI Covid “sem mais, nem menos”, houve cerca de 90 demissões. “Eu fiquei muito chateado, porque nós todos estávamos ali nos expondo, correndo risco, dando o nosso melhor, e agora estamos sem emprego”. 

Contudo, o Governo do Estado de São Paulo informou, no último dia 20 de setembro, que vai contratar 1.070 profissionais de saúde para atender ao aumento da demanda de outros serviços, além dos casos de Covid-19. Segundo o secretário estadual da Saúde, Jean Gorinchteyn, houve um investimento de R$ 1,2 bilhão em Santas Casas e hospitais filantrópicos do estado. 

“Mas quando essas vagas vão aparecer?”, questiona Raynara Nunes, que trabalhou por um ano e dois meses em um hospital estadual de Piracicaba, no interior de São Paulo. A fisioterapeuta conta ao R7 que envia currículo desde que foi demitida, há dois meses, e até o momento conseguiu fazer apenas uma entrevista.

“Eu trabalhei por anos em uma clínica que fechou no começo da pandemia, aí surgiu a oportunidade de trabalhar nesse hospital. Eu aprendi muito lá, me adaptei às regras, vi tanta gente morrer durante a fase vermelha e não foi nada fácil. Depois simplesmente disseram que precisariam desligar algumas pessoas, e eu estava entre elas”, finaliza.

Contratação emergencial

Em abril de 2020, no começo da pandemia causada pela Covid-19, o governo de São Paulo anunciou a primeira contratação emergencial de profissionais de saúde para auxiliar nos hospitais do estado. Inicialmente seriam 1.185 trabalhadores, mas esses números foram aumentando conforme o avanço da pandemia. 

Essas contratações emergenciais foram feitas por meio de concursos públicos e até processos seletivos simplificados, para que ocorressem o mais rápido possível. Com o tempo, esses concursos públicos foram praticamente extintos e o governo passou a pagar empresas terceirizadas para que elas pudessem contratar a mão de obra, explica Célia, que trabalha no SindSaúde-SP.

“O governo tem trabalhado em uma lógica de negócios. Então, ele paga ‘x’ para uma empresa e essa empresa contrata uma mão de obra que é distribuída aos hospitais”, relata.

O auxiliar de enfermagem que o R7 entrevistou também tinha seu contrato assinado por meio de uma empresa terceirizada. Ele conta que ninguém foi avisado previamente sobre as demissões e que houve uma certa desorganização na hora de encerrar os contratos. “Eles ainda não assinaram meu desligamento na carteira de trabalho, recebi minha rescisão atrasada e demoraram para depositar os vales alimentação e refeição”, desabafa.

Apesar disso, os profissionais contam com a promessa do governo de realizar mais contratações, “até porque a Covid ainda não acabou e há outras doenças e comorbidades que nós somos treinados para tratar. Nós precisamos de trabalho”, finaliza Raynara Nunes.

O que diz o governo do estado

Procurado pelo R7 para um posicionamento sobre o caso, o Governo do Estado de São Paulo informou que os relatos de demissão em massa não procedem e que os profissionais que estão sendo desligados por causa do fechamento de hospitais de campanha e alas de UTI-Covid tinham contratos provisórios. 

A assessoria do governo citou, ainda, a contratação de mais profissionais da saúde para atender a outros tipos de demanda. "A previsão é que as contratações ocorram até o mês de dezembro, e os profissionais serão alocados em serviços com maior demanda e necessidade de reforço do corpo clínico", informa. 

*Estagiária sob supervisão de Ingrid Alfaya

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