Logo R7.com
RecordPlus

Ladrões ciclistas fazem da Paulista campeã de furtos de celular em SP

Grandes eventos também contribuem para alta. Polícia deteve mil pessoas

São Paulo|Gustavo Basso, do R7

  • Google News
Avenida Paulista e locais próximos concentram furto a celulares
Avenida Paulista e locais próximos concentram furto a celulares

Ladrões ciclistas, que se aproveitam de momentos de desatenção de quem está no telefone, fazem da avenida Paulista, na região central de São Paulo, e suas imediações as regiões campeãs de furtos a celulares na capital (veja gráfico abaixo).

De 1º de janeiro a 31 de agosto, 2.124 aparelhos foram furtados na avenida, segundo levantamento do R7, com base em dados da Secretaria de Estado da Segurança Pública.


Além da Paulista, campeã de registros, as ruas Augusta (1.569 furtos) e Consolação (1.215 furtos) aparecem, respectivamente, no segundo e no quarto lugar do ranking de vias mais perigosas (a terceira na lista é a avenida Brigadeiro Faria Lima, com 1.405 casos).

Juntas, Paulista, Augusta e Consolação concentram 8,5% dos 57.682 furtos de celular registrados pela Polícia Civil no período.


O captador de recursos Amauri Sousa, que trabalha na Paulista, afirma ter visto quatro furtos de bicicleta desde o início de agosto na avenida. "Um passa, ronda, observa, e aí faz sinal com as mãos para outro cara, que vem e leva", afirma.

Ananias Rodrigues, funcionário de uma assistência técnica a celulares, que também trabalha na avenida, afirma que a Polícia Militar costuma abordar ciclistas na região. "Quem passa de bicicleta pela calçada, logo é enquadrado. Na ciclovia, vejo menos abordagens", diz. Ele fala ainda sobre a oferta de celulares, que suspeita serem roubados. "Apenas uma vez passou um 'cara' vendendo um celular por R$ 10."


A estilista Ana Luiza Domicent foi uma das vítimas furtadas por ciclistas da região. Ela teclava ao celular, na alameda Franca, a quatro quadras da avenida Paulista, quando um rapaz de bicicleta passou rápido, tomou o aparelho das mãos dela. "Ele desapareceu pela Haddock Lobo", diz ela.

"Ele devia ter muita prática, porque levou sem nem encostar na minha mão", afirma. "Meia hora depois, conferi a localização dele pelo aplicativo de rastreamento, e já estava na região da Santa Ifigênia, a 200 metros de uma delegacia, mas não foi recuperado. No 190 disseram que estavam registrando, e não iriam lá naquele momento. Queria ir eu mesma, mas tive medo."


Dentro do cabeleireiro

Não são apenas ladrões ciclistas, porém, que atuam na área. A cabeleireira Márcia Magalhães trabalha há sete anos na rua Augusta e foi furtada duas vezes por "pedestres". Na última, dois homens entraram no salão, um deles pedindo para ser atendido. E forçaram o descuido para levar o aparelho.

"Depois de pedir um corte, mudar de ideia, pedir então uma escova progressiva e desistir de novo, o rapaz que era atendido disse que queria apenas agendar", conta Márcia. "Quando fomos ao balcão, um pouco longe da minha cadeira, o segundo se sentou e tirou o celular de dentro da minha gaveta."

Logo em seguida, diz ela, o rapaz saiu correndo. E o que era atendido também. "Na mesma hora fui conferir minha gaveta e vi o que tinham feito, mas não os alcancei", afirma.

Grandes eventos

Os grandes eventos também contribuem para que a região da Paulista seja campeã de furtos.

Apenas em 18 de kunho, dia da Parada do orgulho LGBT, foram 1.306 ocorrências registradas em toda a capital. Destes, 990, ou três a cada quatro, foram realizadas em uma das três vias. O evento se concentra principalmente entre a avenida Paulista e a rua da Consolação. Em 1º de janeiro, quando ocorre a festa de Réveillon, Paulista, Augusta e Consolação tiveram 58 furtos de celular (considerando apenas os casos ocorridos após a virada do ano), o que equivale a quase 40% do total de 147 furtos registrados na cidade no dia.

Durante os quatros dias do Carnaval, o número de aparelhos levados por criminosos também foi alto na região. Dos 2.506 aparelhos furtados na cidade toda, 380 casos ocorreram nas nas três vias (que fircaram atrás, na ocasião, da avenida Faria Lima, ponto tradicional da folia, que sozinha registrou 335 ocorrências). 

Mudança de hábito

A região da Paulista e suas imediações está dentro da jurisdição de duas delegacias diferentes, o 78º DP (Jardins) e o 4º DP (Consolação). Ambas são as que registram os maiores números de casos, em primeiro e segundo lugar, respectivamente.

O delegado Júlio César Geraldo, titular do 4º DP, fala sobre a mudança de hábito, principalmente dos jovens na região. "Nós estamos bastante atentos a esta situação", afirma. "Nos últimos anos, tanto a Augusta como o uso do celular mudaram muito. A rua se tornou um lugar de reunião de jovens, de boêmia, e os jovens costumam usar mais o celular, seja para tirar ‘selfie’, para aplicativo de transporte, etc. Não digo que as pessoas devam deixar de fazer isso, mas o uso mais intensivo dos celulares acaba atraindo ladrões."

Ele afirma ainda que o foco da Polícia Civil é a busca de receptadores de celulares furtados. "Os agentes estão orientados a abordarem lojas clandestinas de reparos, camelôs que vendem aparelho", prossegue o delegado. "Este ano mesmo descobrimos um lugar que recebia celulares roubados e dezenas foram recuperados." 

"O que não podemos é agir com preconceito", continua Geraldo. "Tem gente que cobra: 'Por que vocês não pegam essa pessoa, está na cara que é ladrão', mas não podemos julgar pela aparência."

A reportagem do R7 tentou, sem sucesso, conversar com representantes do 78º DP (Jardins), com o comando do da 3ª Companhia do 11º Batalhão da PM, responsável pelo policiamento da avenida Paulista, e com o 7º Batalhão, responsável pelas ruas Augusta e Consolação no lado do ‘Baixo Augusta’.

962 presos

Questionada, a SSP (Secretaria de Estado da Segurança Pública) afirmou, em nota, que "a 1ª Delegacia Seccional (Centro) prendeu mais de 962 pessoas neste ano por receptação, furto e roubo de celulares e apreendeu mais de 88 aparelhos em toda a região central."

"No último dia 14 de setembro, uma operação da Polícia Civil para reprimir a negociação de celulares prendeu três pessoas em flagrante por receptação e apreendeu 37 celulares", disse a pasta. "Cerca de cem pessoas foram abordadas durante a ação."

"Vale ressaltar que, desde fevereiro de 2016, foi disponibilizado o serviço de consulta dos IMEIs para os policiais nos Terminais Móveis de Dados das viaturas", prosseguiu o texto. "Com isso foi possível a apreensão de cerca de 8.000 aparelhos em ocorrências de receptação naquele ano, um aumento de 243% sobre 2015. No primeiro semestre de 2017, foram apreendidos cerca de 5.000 aparelhos, aumento de 46% sobre as apreensões em relação a 2016. Nas imediações da avenida Paulista, policiais militares fizeram 2.305 consultas de IMEIs nos últimos três meses".

O R7 questionou ainda se há abordagens a ciclistas na região e qual o critério para as abordagens, mas isso não foi respondido.

Sobre o caso de Ana Luiza Domicent, a SSP (Secretaria de Segurança Pública) afirmou que "as vítimas de furto de celular sempre são orientadas a registrar a ocorrência na delegacia mais próxima ou pela Delegacia Digital para que o Imei possa ser bloqueado e o caso investigado, e que o deslocamento das viaturas respeita a prioridade da gravidade da ocorrência e necessita de dados a respeito do possível local e acompanhamento da vítima para identificação do aparelho".

Leia mais notícias de São Paulo

Últimas


Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com oAviso de Privacidade.