Massacre do Carandiru: defesa tenta mostrar lado “fraternal” de ex-comandante da Rota
Advogada deu espaço para Salvador Madia se defender de acusações
São Paulo|Thiago de Araújo, do R7

A advogada Ieda Ribeiro de Souza, que defende policiais militares acusados da morte de 73 presos no Carandiru, procurou falar mais do lado cidadão de Salvador Madia. Durante suas perguntas, no interrogatório do ex-comandante da Rota, Ieda deu espaço para o tenente-coronel se defender de muitas concepções “equivocadas”.
Madia falou sobre como foi convidado a comandar a Rota e das “inúmeras operações” contra o crime organizado realizadas por ele e seus comandados. Contudo, segundo ele, só foi noticiado o aumento do índice de letalidade no período.
Ainda de acordo com o tenente-coronel, alguns casos emblemáticos também minaram a sua permanência no comando da Rota. Ele falou ainda sobre ditados direcionados à companhia reconhecida por conter a “elite da PM”, como um que diz que “Deus cria e a Rota mata”. Por fim, negou a fama de a Rota dar preferência aos pobres e negros quanto às perseguições.
— A Rota antes de matar, ajuda a dar segurança, prende bandido. É que ninguém teve orgulho de vestir [essa farda]. O combate sempre foi na área periférica, na área onde o Estado chega menos, é onde eles mais necessitam. O marginal entra aí. A população tem uma dificuldade muito grande. A gente não tem braço para cobrir todas as áreas, o povo sabe quem é bandido. Se ficar dois minutos com ele, vão dizer que adoram a gente (...). Não é perfil da Rota prender um bandido do mercado financeiro na avenida Paulista. Não é contra “preto” e pobre.
“Eles atiravam em nós no pátio”, diz ex-comandante da Rota sobre massacre
Nos minutos finais do interrogatório, Madia ainda explicou que “o panorama hoje é diferente de 1992”, época do massacre do Carandiru, já que as armas não letais da atualidade não estavam disponíveis aos policiais da época. Ele criticou o sistema carcerário (“é um lixo”) e garantiu que só não acontecem mais rebeliões porque os presos respeitam a Tropa de Choque da PM (“quando ela chega, eles sabem o que acontece”).
Dirigindo-se aos jurados, o tenente-coronel destacou que o que aconteceu no Carandiru não pode ser esquecido, mas que só no ano passado, segundo ele, mataram o dobro de PMs nas ruas e “nada foi noticiado pela imprensa”.
— Não dá pra sair tranquilo de uma coisa dessas. Quando publicam foto de jornal, tenho pai, tenho mãe, a gente tem responsabilidade, temos filhos. Sabia que alguns lembrariam de um desvio de conduta da Polícia Militar, mas se ele tivesse ocorrido, teria ocorrido punições exemplares. Posso garantir.
Primeiro dia
O primeiro dia de julgamento foi marcado pela dispensa de sete das oito testemunhas da acusação. Apenas o perito criminal Osvaldo Negrini foi interrogado. Ele disse ter visto um “mar de cadáveres” e presenciado um “rio de sangue” ao chegar à Casa de Detenção no dia 2 de outubro de 1992. O depoimento de Negrini começou por volta das 14h10 e terminou pouco depois das 16h30.
Segundo dia
No segundo dia do júri, foram ouvidos no plenário o ex-secretário de Segurança Pedro Franco de Campos e o ex-governador Luiz Antônio Fleury Filho. Além deles, mais duas testemunhas protegidas prestaram depoimento.
A defesa ainda exibiu dois vídeos com depoimentos dos desembargadores Luiz San Juan França e Ivo de Almeida. França era juiz da Vara das Execuções Criminais da Capital em 1992. Já Almeida era corregedor dos Presídios da Capital na época.
Terceiro dia
O terceiro dia do júri começou com atraso, por volta das 11h50 da quarta-feira (31) — estava previsto para começar às 9h — e terminou às 2h30 da madrugada desta quinta-feira, depois de 15 horas de julgamento. Para este dia, foi programado o interrogatório dos 26 réus. Em uma estratégia da defesa, a maioria optou pelo direito de ficar em silêncio.
Apenas quatro oficiais responderam às perguntas. O último a ser ouvido, de madrugada, foi o tenente Edson Pereira Campos, que era soldado na ocasião dos fatos.
Relembre o caso
O massacre do Carandiru começou após uma discussão entre dois presos dar início a uma rebelião no Pavilhão 9. Com a confusão, a Tropa de Choque da Polícia Militar, comandada pelo coronel Ubiratan Guimarães, foi chamada para conter a revolta.
Ao todo, 286 policiais militares entraram no complexo penitenciário do Carandiru para conter a rebelião em 1992, desses 84 foram acusados de homicídio.
Em abril de 2013, 26 policiais militares foram levados ao banco dos réus pela morte de 15 detentos no segundo pavimento do pavilhão nove no massacre do Carandiru. Após sete dias de julgamento, a maioria foi condenada por homicídio qualificado — com uso de recurso que dificultou a defesa da vítima. Naquela ocasião, seis homens e uma mulher formaram o Conselho de Sentença.
Dos 26 policiais, 23 foram condenados a 156 anos de prisão, inicialmente, em regime fechado. Os réus receberam a pena mínima de 12 anos por cada uma das mortes dos 13 detentos. Os condenados poderão recorrer em liberdade. Outros três PMs foram absolvidos pelo júri, que acatou o pedido feito pela acusação.
Antes deles, Ubiratan Guimarães chegou a ser condenado a 632 anos de prisão, porém, um recurso absolveu o réu e ele não chegou a passar um dia na cadeia. Em setembro de 2006, Guimarães foi encontrado morto com um tiro na barriga em seu apartamento nos Jardins. A ex-namorada dele, a advogada Carla Cepollina, foi a julgamento em novembro do ano passado pelo crime e absolvida.













