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Morador de rua monta barraco na avenida Paulista

Homem declarou que "não queria ser importunado" e disse ser de esquerda 

São Paulo|Do R7

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A avenida Paulista tem 3.138 empresas, 46 agências bancárias, 14 bancas de jornal. E um barraco. Apesar do contraste, são poucos os que parecem notar sua existência. Recostado no muro de um prédio de quase 20 andares, no número 750, o abrigo não mede mais do que meia dúzia de palmos e acomoda só uma pessoa.

Segundo comerciantes, o barraco está ali há cerca de um ano. A habitação tem rodas e, em dias de sol, o morador a arrasta como uma carroça da avenida Brigadeiro Luís Antônio até a praça da Sé, na região central, à procura de recicláveis. Às 16h, costuma estar de volta. Quando chove, aproveita para dormir, encolhido sob a lona e papelão que servem de telhado, com o rádio de pilha transmitindo notícias. A Voz do Brasil é sagrada.


Na Paulista, ele gosta de sentar em uma cadeira de ferro e ler jornais, segundo conta a vendedora de uma banca, onde o homem compra cigarro, fósforo e pilha

— Ele fica de pé, folheando. Depois, devolve.


Usa sempre um chapéu tipo pescador e, invariavelmente, está de banho tomado. Outro costume é fazer café em um fogão de duas bocas. O manobrista Pedro Mariano comenta o hábito. 

— Dá para sentir o cheiro daqui.


Há poucas certezas sobre o homem. Uma delas é que detesta ser incomodado, segundo a vendedora da banca.

— Ele fica mais na dele, mas não rouba nem machuca ninguém.


Marinha

Pelos frequentadores da região, é chamado de "velho", "barbudo" ou "tiozinho da naval", porque, supostamente, seria um fuzileiro reformado da Marinha. O nome mesmo ninguém se deu ao trabalho de perguntar. A idade, tampouco. Os palpites vão de 60 a 80 anos.

Há burburinho de que teria passado dez anos na Casa de Detenção do Carandiru, segundo o segurança João Carlos Pereira, um dos poucos em quem o homem confia.

— Ele já me falou isso, mas fico procurando tatuagem, um sinal de que ele tenha passado por lá, mas nada.

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O comportamento introspectivo o ajudou a ser aceito na região pelos comerciantes.

— No começo, a gente ficava com receio. Depois, vimos que ele não fazia mal. 

Há até quem nunca tenha percebido sua presença, mesmo trabalhando há anos em lojas da avenida.

Segundo relatos, o homem não é visto com outros moradores de rua. Também não entra em um estabelecimento se estiver lotado. Perto do barraco, há pouco lixo. Certa vez, teria cozinhado arroz demais e resolveu alimentar os pombos com as sobras; foi quando levou dura de um policial, por causa da sujeira. Fez questão de limpar.

De acordo com Pereira, o problema é quando tentam interferir em seu espaço.

— Outro dia, ele queria pegar um moleque que chutou o balde dele.

Procurado pela reportagem, o homem enfatizou que "não queria ser importunado". Disse ser de esquerda e citou Karl Marx e Hegel. Ele correu por três quadras atrás do fotógrafo que havia feito uma imagem dele.

Assistência

Segundo o pesquisador Eulálio Figueira, da PUC (Pontifícia Universidade Católica) de São Paulo, não há motivo para tirar o homem da região.

— Se ele não está fazendo escândalo nem atentando contra a moral, a prefeitura não tem de retirá-lo de lá.

Já para o promotor de Habitação e Urbanismo Maurício Ribeiro Lopes, a rua não pode ser apropriada por um morador.

A SMADS (Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social) afirmou, em nota, que aborda e encaminha moradores de rua para centros de acolhida. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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