Moradores de bairro onde Lucas sumiu relatam ameaças da PM

Polícia teria ameaçado vizinho de sequestro e familiares de serem enrolados e queimados em colchões: "os dias têm sido muito tensos", diz amigo

Lucas está desaparecido desde a noite de terça (12)

Lucas está desaparecido desde a noite de terça (12)

Reprodução/Facebook

Durante os protestos, nas redes sociais e nas ruas da favela do Amor, em Santo André (Grande São Paulo), os relatos são de ameaças por parte de policiais militares contra os moradores que pedem por respostas para o sumiço do estudante Lucas Eduardo Martins dos Santos, 14 anos.

O menino está desaparecido desde a noite da última terça-feira (12). De acordo com a madrasta, Lucas indicou para um PM onde morava e, em seguida, foi levado em uma viatura. Depois disso, não foi mais visto.

De acordo com uma familiar do jovem, policiais que acompanham os protestos realizados por moradores ameaçam os participantes. "Ficam apontando o cassetete e dizendo que vão voltar depois para conversar melhor", afirma.

Além disso, ainda segundo a mulher, depois de o desaparecimento de Lucas, são frequentes as mensagens no WhatsApp e em outras redes sociais dizendo que moradores provocam a polícia e determinando o encerramento das manifestações.

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Em um dos casos mais contundentes, um vizinho que estava indo buscar o filho na manifestação teria sido abordado por dois policiais militares da Rocam (Ronda Ostensiva com apoio de Motocicletas) e ameaçado. 

Conforme relato, os policiais perguntaram se o vizinho também estava participando dos protestos. O morador disse que não, mas estava acompanhando a população pedindo resposta para o desaparecimento do menino e que a PM não estava fazendo nada.

Os policiais militares, então, teriam dito que era para o vizinho ficar quieto caso não quisesse ser sequestrado também. Depois disso, o morador ficou com medo e não saiu mais da residência.

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Um familiar de Lucas relata que também foi ameaçado por três policiais da Rocam (Ronda Ostensiva com Apoio de Motocicletas) na tarde da quinta-feira (14) após voltarem de um dos protestos pelo desaparecimento do garoto.

"Estava vindo de casa e passamos por três motos e eles falaram que iam enrolar a gente num colchão e colocar fogo. Depois disso, saíram com a moto", disse um amigo de Lucas, de 22 anos, que preferiu não se identificar. Ele estava acompanhado do primo do menino, de 24 anos.

"No primeiro e no segundo dia (após o desaparecimento de Lucas) era para a gente ficar quieto, jogaram bomba de gás. Os últimos dias tem sido bem tensos, estamos sendo oprimidos", disse o jovem. Ele disse ainda que teme sofrer ataques da Polícia Militar quando os protestos se encerrarem. “Eles pegaram o celular no protesto e filmaram a gente”, relata.

Outro lado

Procurada pela reportagem, a SSP-SP (Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo) disse que "todas as circunstâncias relativas ao fato são apuradas por meio de inquérito instaurado pela Polícia Civil".

A secretaria afirmou ainda que equipes policiais seguem em busca pela localização do adolescente e a PM instaurou um procedimento para apurar a participação de policiais no crime e as possíveis ameaças a moradores.

Segundo a SSP-SP, dois policiais militares apontados por testemunhas como envolvidos no desaparecimento do estudante foram afastados preventivamente das atividades operacionais. 

A pasta, no entanto, não respondeu se o número de policiais atuando na área aumentou após o desaparecimento do menino e não informou quantas pessoas foram abordadas na região desde terça-feira. Esses números, de acordo com a assessoria de imprensa da SSP-SP, não é possível ser informados nesta sexta-feira devido ao feriado.