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Não é porrada nem bomba, é tiroterapia

Clube oferece forma inusitada de descontar a tensão do dia a dia: "descarregando o pente"

São Paulo|Caroline Apple, do R7

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Tiroterapia é opção para aliviar a tensão
Tiroterapia é opção para aliviar a tensão

Coração acelerado, nervosismo, tensão, arma na mão, dedo no gatilho e pow! Um tiro surdo numa sala acinzentada, abafado pelos protetores de ouvido, mas que ainda retumba no peito. Nas mãos, uma The Judge (O Juíz, em tradução livre) — um nome emblemático —, calibre 36. Prateada, potente, brilhava e exigia respeito. Um tambor remetia à imagem das armas clássicas vistas pela televisão. Primeiro tiro da vida. No alvo, um rombo na altura da orelha de pelo menos 10 cm. Sorriso de canto de boca, mãos tremulas: “Acertei”.

Essa é a descrição da experiência da reportagem do R7 em uma sessão de tiroterapia, no Clube de Tiro ADC, no Jabaquara, na zona sul de São Paulo. Uma pequena porta “esconde” um mundo restrito àqueles que amam armas ou que desconstruíram a imagem de violência do equipamento em busca de alívio para o estresse. É descendo bala em alvos móveis e fixos que mais de 300 associados descarregam a tensão e frustração ou praticam o tiro como esporte.


A entrevista continua no estande de tiro. Cada disparo uma piscada forte. Um dia deve acostumar. Quente e frio não é brincadeira de criança no local e não acatar os comandos pode custar uma vida. Quando não há ninguém na pista (área de alvos), vozes ecoam: “pista quente”, e começam a pipocar disparos. Se alguém vai trocar o alvo ou realizar alguma outra tarefa que exija entrar na linha de tiro, todos gritam: “pista fria”. Todos respeitam, nenhum titubeia.

A segurança do local é reforçada. Lembra os portões das penitenciárias. Grossos, eletrônicos, com ar de segurança reforçada. E não seria para menos. É no clube também que muitos atiradores guardam seus arsenais, uma vez que não possuem porte de arma.


Não é todo mundo que pode se associar. A indicação é o primeiro passo. Após o preenchimento de um questionário por e-mail, o interessado tem sua vida passada a limpo. A “capivara” tem que estar em dia. A visita ao clube é a próxima etapa. Aceito, o associado paga uma mensalidade de R$ 100 e, ao menos, R$ 1,60 por bala usada. As armas são emprestadas. Tem de tudo, mas a queridinha é a Glock, de fabricação austríaca. A belezinha pode chegar a custar R$ 21 mil, mas, quem gosta e tem dinheiro, paga.

Quem tem cacife também pode passar o dia atirando. Tem associado que deixa R$ 2.000 em bala no local. Não é incomum usarem fotos de desafetos como alvos, o que pode parecer sádico, mas sadismo não é crime, seguimos.


Apesar da mensalidade “justa”, a maioria dos frequentadores tem alto poder aquisitivo. São médicos, políticos, policiais civis do alto escalão. Ao menos 20% são mulheres, que buscam armas como forma de defesa e nem tanto como terapia.

Preconceito


Maluf procurou a tiroterapia depois que terminou um namoro
Maluf procurou a tiroterapia depois que terminou um namoro

A maior dificuldade narrada pelos frequentadores é o preconceito. A desconstrução da figura da arma, que, para boa parte da população, remete automaticamente à violência, é um desafio.

Num País em que não existe a cultura armamentista, o assunto é um tabu. Mas não é para menos. O Mapa da Violência feito pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais aponta que ao menos 45 mil pessoas morreram por arma de fogo em 2014 no Brasil.

Mas o perfil das vítimas (homens, jovens e negros) está longe de ser o dos frequentadores de clubes de tiros. É outra questão, mas o aumento contínuo do número de mortes pode explicar o ranço de parte dos brasileiros. Entretanto, em 2005, a população votou num referendo sobre a legalização da venda de armas. As maioria votou pela liberação do comércio, mas o porte segue proibido por lei.

As pessoas com quem a reportagem conversou são a favor do direito de qualquer cidadão sem antecedentes poder ter uma arma. Mas há quem deixe de lado a vontade de ter um “ferro”, mesmo sendo apaixonado por atirar.

O empresário Luiz Maluf, de 27 anos, entoa o coro contra o desarmamento, mas pondera caso pudesse ter legalmente uma arma.

— Ela [arma] perde a conotação de terapia e ganha outro sentido. Mesmo com porte, eu não sei se teria uma. Eu não vejo necessidade.

Maluf foi parar na tiroterapia após uma desilusão amorosa há quatro anos. Tirou seus dedos dos copos de bebida e os colocou em armas. E foi dando tiro que descontou sua tristeza em cada alvo colocado à sua frente.

Assim como ajuda a curar corações despedaçados, a tiroterapia também une casais. O médico L.R.A., de 33 anos, se tornou aficionado por armas há um ano e vai até o estande de tiro com a namorada.

— Quando você coloca algo letal entre o casal o respeito cresce. Além disso, conversamos muito sobre o assunto. Vira um hobby.

Mas a paixão pela namorada parece ser dividida com sua arma preferida, que não sai do colo durante a entrevista e a qual ele faz questão de emprestar à reportagem.

L. quer que o brasileiro tenha o direito de escolher se quer ou não ter uma arma, mas nem sempre foi assim. O médico era a favor do desarmamento e votou contra a legalização da venda das armas no referendo.

— Comecei a ver que a questão não é o objeto, e sim a conduta da pessoa. Se a pessoa quiser cometer um crime e ela não tiver uma arma ela vai arrumar qualquer outra coisa. É melhor focar em educação do que só cercear a liberdade

Quanto a eficiência da tiroterapia, a reportagem acredita que é melhor ir mais de uma vez ao estande de tiro para ver se a tensão fica por lá. Ver uma arma é diferente de pegá-la e apertar seu gatilho, por isso, fatores que tencionam, como o excesso de armas e o barulho dos tiros em sequência, pode deixar o “paciente” mais agitado do que quando entrou.

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