Oásis de verde e excelência em SP, Paineiras do Morumby exercita democracia em eleição movimentada
Sócios do Clube com orçamento maior que alguns municípios vão escolher entre três chapas
São Paulo|Celso Fonseca, do R7
Ultrapassar a catraca de acesso ao clube Paineiras do Morumby, localizado numa rua arborizada da zona sul de São Paulo em que até a temperatura parece mais amena num dia seco e quente de inverno, significa ingressar num imenso espaço de 120 mil metros quadrados em que o que há de pior na cidade é repentinamente subtraído, para se penetrar num mundo regido pelo conforto e civilidade, uma espécie de Show de Truman da vida real.
De um elevador panorâmico, se assiste a um cenário de áreas verdes e bem cuidados equipamentos esportivos que pode parecer trivial a seus frequentadores, mas é surpreendente para paulistanos habituados à paisagem urbana abandonada e feia. Essa é, pelo menos, a sensação inicial de quem percorre algumas das alamedas do clube, conectadas pelo elegante concreto aparente, marca do estilo brutalista de sua construção no início dos anos 60.
O projeto arquitetônico é assinado pelo arquiteto Carlos Millan, um dos mais importantes do País e o mesmo do Jockey Club de São Paulo. Tratado como um gigantesco resort dentro da cidade, o Paineiras tem um orçamento de R$ 65 milhões por ano, superior ao de vários municípios do País. São 24.000 sócios, atendidos por 800 funcionários. O título familiar custa R$ 90 mil - corresponde a um carro de luxo nacional - e mensalidade de R$ 700,00. Quem paga é, obviamente, bem exigente.
À frente do clube está o industrial Sergio Henri Stauffenegger , que acumula também a presidência da Acesc (Associação de Clubes Esportivos e Sócios Culturais de São Paulo), que congrega os principais clubes da cidade.
— Para quem não sabe, os clubes representam 20% do total da área verde de São Paulo.
Diz ele lembrando também do ímpeto ambientalista implantado no Paineiras.
— Fazemos o tratamento de lixo e não gastamos uma gota de água da Sabesp (empresa estadual de abastecimento). A água é toda de reúso.
A continuidade da gestão de Stauffenegger estará em jogo no próximo domingo, 13. Além do candidato que representa a situação, mais dois grupos estão no páreo. Os três formados por sócios veteranos e com uma longa trajetória na política do clube.
O mandato do presidente é de três anos e a reeleição não é permitida. A eleição é direta e os mais de 5.000 sócios titulares têm direito a voto. Quem ganhar terá um orçamento perto de R$ 200 milhões nos próximos três anos. Stauffenegger está otimista em fazer seu sucessor, já que deixa as contas em ordem e um superávit nas finanças. Só reclama do que chama "elemento Facebook", fator que tem tumultuado um pouco a reta final das eleições.
— As pessoas não têm responsabilidade com o que escrevem, são inconsequentes e divulgam desinformações. A fofoca fica sempre maior que o fato. As pessoas se empolgam e publicam coisas rasteiras que só desmotivam pessoas de bem que trabalham de graça pelo clube.
Stauffernegger prefere se lembrar do bom momento do clube que, segundo ele, soube se reinventar quando os condomínios com opções de lazer começaram a se proliferar, mas não o suficiente para roubar os sócios do Paineiras e de outros clubes, que, segundo ele, ampliaram a oferta de serviços e atividades e ainda são uma garantia de segurança.
— A realidade dos clubes de hoje é bem diferente do passado, quando eram clubes de finais de semana. Agora, são frequentados de segunda a domingo, do período da manhã até a noite, oferecendo uma gama enorme de serviços que os condomínios não conseguem oferecer. Temos uma média diária de 2.700 sócios, dos quais 70% têm menos de 40 anos de idade e os dias de maior frequência são terça, quarta, quinta e sábado.
O forte do Paineiras também são esportes de alto rendimento. Mais da metade da seleção de nado sincronizado do Brasil é formada por seus atletas, que ainda ganham alcance nacional em modalidades como a paraolímpica de vôlei sentado.
A aposta de Stauffenegger para sucedê-lo é um médico ortopedista que já foi um integrante da seleção brasileira de judô. Dell' Aquila quer valorizar a marca Paineiras fortalecida pela presença de atletas competitivos. Ele quer transformar os recursos de patrocínios e incentivos governamentais como a lei de formação de atletas em isenções e na redução de taxas para os sócios.

Adolfo do Carmo Neto, economista, é um dos opositores. Ele também promete reduzir as taxas dos dependentes de 18 a 30 anos e tem nos jovens o alvo da campanha.
— O clube atende pouco os sócios dos 20 aos 40 anos.
Daí querer investir em espaços para esportes radicais, baladas, e ampliar as atividades culturais. Não por acaso, a página do Facebook de sua chapa é bem movimentada. Carmo Neto quer mais diálogo.
— Falta um canal de comunicação com o associado. Como no Brasil as decisões são tomadas sem consultas e não são discutidas com os sócios que são os donos do clube, é preciso democratizar.
Primeira mulher a presidir o Paineiras - entre 2006 e 2009 - desde que a eleição se tornou direta - a socióloga Sileni de Arruda Rolla também quer ouvir o que o associado tem a dizer andando muito pelos corredores do clube.
— Provavelmente, só fui eleita porque era uma eleição direta, se ainda fosse indireta (apenas com votos do Conselho), não teria sido eleita porque o clube era dominado por grupos.
Presidente do Movimento das Mulheres da Verdade que reúne 40 entidades de espectro feminista que atuam pela ética, voto consciente e moralidade na política, Sileni adota um discurso similar ao dos concorrentes com a ideia de rever taxas, cobranças e pagamento de fornecedores. Na sua proposta, o que chama a atenção é determinar o fim do privilégio a diretores em eventos e a lugares especiais no estacionamento.
Como se vê, a democracia no Paineiras é um exercício.
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