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Ocupação guarani na Presidência altera rotina da avenida Paulista

Cantos e dança somam apoio a protesto realizado em Brasília

São Paulo|Gustavo Basso, do R7

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Índios atraem olhares curiosos durante ocupação de prédio da Presidência
Índios atraem olhares curiosos durante ocupação de prédio da Presidência

O movimento constante de pedestres e passageiros do metrô entrando e saindo da estação Consolação contrasta com a música cantada no interior do prédio que abriga o escritório da Presidência da República. O edifício, localizado no cruzamento da rua Augusta com a avenida Paulista, um dos mais famosos da capital, foi ocupado por índios guaranis na manhã desta quarta-feira (30).

Em meio a cânticos culturais e religiosos, com letras sobre a migração para além do oceano, onde há uma terra sem mal, conquistas e resistência, os guaranis reclamam da publicação da portaria 683 do Ministério da Justiça. O documento publicado na semana passada anulou a declaração de posse de 532 hectares aos índios na região do Jaraguá, na zona norte de São Paulo. A área havia sido definida em 2015 pelo mesmo ministério, sob orientação da Funai, que levou 13 anos de estudos antropológicos na região.


“O Temer tomou nossa casa, então a gente ocupa a dele”, comenta Thiago Karai Djekupe, líder indígena da aldeia Tekoa Ytu, única do Jaraguá que continua demarcada após a portaria publicada na última segunda-feira.

Em Brasília estão cerca de 40 guaranis do Jaraguá acampados diante do Minisério da Justiça. Eles reforçam os protestos e exigem uma audiência com o ministro Torquato Jardim.


Por volta de 14h, marmitas foram entregues para aliviar a fome dos ocupantes. Elas foram doadas por ONGs e apoiadores da Comissão Guarani Yvyrupa que ajudaram com alimentação e cobertores na ocupação.

Índios protestam no prédio da presidência
Índios protestam no prédio da presidência

O índio Mirinju Yan aproveitou o fluxo de gente na calçada da Paulista para vender colares, pulseiras e outros adornos feitos por ele. "A gente usa como proteção, mas também serve como enfeite", diz, contando que algumas das penas ele trouxe de Roraima, onde vive a mãe, do povo Makuxi. Ele mesmo mora em Brasília, onde é membro do Conselho Indígena do DF e volta para o Jaraguá duas vezes ao ano.


Os 'visitantes' despertaram a atenção de 'brancos' que passavam pelo local fotografando e filmando a movimentação. Outros, no entanto, se mostravam incomodados com o fechamento da agência do Banco do Brasil que fica no primeiro andar do prédio. Ao menos quatro vezes clientes tentaram subir e foram frustrados pelos policiais militares que impedem a entrada dos índios para além do saguão de entrada do edifício.

De acordo com Marcos Tupã, coordenador geral da Comissão Guarani Yvyrupa, os manifestantes só vão sair do local quando o ministro Torquato Jardim atender as pessoas que estão na frente do ministério. Thiago Wera Djakupé é mais incisivo, e afirma que os cerca de 150 guaranis só deixariam o escritório da Presidência "quando a demarcação voltar a valer, quando nosso território estiver seguro".


Durante a tarde, ônibus trazendo mais índios chegou do Jaraguá, e estava programada a chegada de mais gente vinda de Parelheiros e até mesmo um grupo de guaranis kayowá vindos do Mato Grosso do Sul. Werá Rokaju, de 60 anos é pajé da aldeia Krukutu, localizada em Parelheiros, no extremo sul de São Paulo. Ele conta que volta para a aldeia para dormir, mas amanhã, caso a decisão não seja revertida, volta à Paulista.

— Estamos prontos para ficar dois, três, cinco, dez dias se precisar. 

A assessoria de imprensa da Presidência da República afirmou por telefone que apenas o andar térreo do edifício foi ocupado, e não o terceiro andar, onde funciona, de fato, o escritório. Segundo a Presidência, os funcionários continuam com atividades normais, e a Polícia Militar foi chamada para fazer a segurança do local.

Os guaranis programaram para as 17h uma manifestação no vão livre do Masp (Museu de Arte de São Paulo). Além da revogação da portaria que retirou a demarcação de 532 hectares no Jaraguá, os índios pedem a revogação do parecer 001/2017 da AGU (Advocacia Geral da União) — que pode afetar todos os processos de demarcação de terras indígenas — e a saída de Azilene Kaingang do departamento de demarcação de terras da Funai, acusada de agir contra as terras indígenas.

A reportagem do R7 vêm solicitando desde quarta-feira passada um posicionamento do Ministério da Justiça, com uma série de questionamentos sobre o tema, no entanto até o momento obteve resposta apenas que até o momento não uma retorno oficial por parte da Pasta.

A Comissão Guarani Yvyrupa também divulgou um vídeo sobre o ato.

Manifesto o Jaraguá é Guarani!

URGENTE!!! COMPARTILHEM! Hoje, quarta-feira (30), o povo Guarani ocupou a secretaria da Presidência da República, na Avenida Paulista em São Paulo, porque o Governo Temer invadiu no último dia 21/8 a nossa casa, a Terra Indígena Jaraguá. Em Brasília nossos xondaros também estão acampando em frente ao Ministério da Justiça. Exigimos a revogação da Portaria 683 do Ministério da Justiça, que rouba nosso direitos sobre nossas terras tradicionais no Jaraguá. Temos mais de 700 indígenas, a maioria crianças, vivendo em cinco aldeias na Terra Indígena Jaraguá. 600 guaranis serão despejados com essa decisão genocida. Para onde Temer acha que nós vamos? O governo quer nos matar? Essa decisão serve apenas para agradar o Governo Alckmin que quer vender nossas terras e privatizar o parque do Jaraguá, que nós sempre protegemos. Também exigimos a revogação do parecer 001/2017 da AGU, com o qual Temer quer cancelar as demarcações de todos os parentes em todo Brasil, para dar nossas terras para os ruralistas. Fora Temer, da nossa casa! Todos ao ato O Jaraguá é Guarani! hoje às 17h no Vão do Masp! Aguyjevete pra quem luta!

Posted by Comissão Guarani Yvyrupa - CGY on Wednesday, August 30, 2017

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