Opinião: a camiseta da Febem e a comoção míope
Violência contra menores infratores na Fundação Casa comprova que a preocupação das redes sociais não é com o problema
São Paulo|Celso Fonseca, do R7

A antiga Febem, Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor, sempre expôs, além da ironia embutida no seu nome original, uma vergonha para São Paulo. Denúncias de violência, rebeliões e torturas se tornaram cotidianas e a ferida se alargava com o passar dos anos encharcada pelo sangue dos menores infratores, desajustados e oprimidos.
Em 2006, fez-se a luz. A Febem foi rebatizada de Fundação Casa e uma nova gestão, sob a égide do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) deveria apagar o passado de terror, dissipar o cheiro de colchões incendiados e corpos amontoados. Bobagem.
Numa reportagem publicada ontem, o R7 apontou novas denúncias da OEA (Organização dos Estados Americanos) com o registro de torturas de adolescentes e jovens infratores em duas unidades da Fundação Casa em São Paulo.
Há relatos de agressões sistemáticas, sevícias, numa crueldade que se alastra por outras unidades e métodos de brutalidade que se assemelham aos adotados pelos americanos no Iraque. Ou seja, a guerra nunca acabou, as trincheiras continuam lá.
Febem ou Fundação Casa permanecem como eufemismo para uma situação que se perpetua, da revolta e dos abusos que incluem até um cabo de vassoura, se vocês entendem.

As denúncias do R7 chegam num momento em que as redes sociais se debulham numa ruidosa comoção. A grife A Mulher do Padre (AMP) incluiu numa coleção que remete a marcas antigas uma camiseta da antiga Febem (Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor).
A gritaria foi porque, e é verdade, não há nada de nostálgico na Febem que justifique ostentar seu símbolo de azul desbotado numa festinha de gente bacana e descolada.
Mas também é verdade que a indignação em torno de uma camiseta poderia ser melhor canalizada contra a atual Fundação Casa, seus desmandos, nada mais são que uma extensão da velha Febem, em toda sua decadência.
Uma herança maldita que se mantém. Uma roupa remendada que governos seguidos teimam em esconder no armário. Portanto neste Carnaval evite fazer uma camiseta da Fundação Casa. Você pode desabar de vergonha em pleno asfalto.
A Fundação Casa repete os erros do passado e seus métodos precisam ser combatidos para as feridas finalmente estancarem. Uma camiseta não vai resolver.















