“Para cair prédio tem que ter muito erro”, diz sindicato
Ministério Público avalia que problema dos acidentes em obras está na fiscalização
São Paulo|Thiago de Araújo, do R7

O desabamento do prédio de cinco andares e 30 apartamentos na noite de segunda-feira (2) em Guarulhos, na Grande São Paulo, poderia ter sido evitado se houvesse fiscalização e denúncias sobre possíveis irregularidades. A opinião é do MP (Ministério Público) e do Sintracon-SP (Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Construção Civil de São Paulo). A ocorrência não foi a primeira, e nem será a última, segundo os dois órgãos.
Em entrevista ao R7, Antônio de Sousa Ramalho, presidente do Sintracon-SP, disse ter acompanhado por quase cinco horas os trabalhos no local do desabamento. Lá ele afirma ter conversado com operários, ex-funcionários da obra e parentes de envolvidos. Para Ramalho, se a obra apresentava problemas, como supostas rachaduras nas estruturas de sustentação do imóvel, elas deveriam ter sido reparadas. Contudo, ele acredita em falha de engenharia.
— Sendo curto e grosso, tudo isso é falta de responsabilidade de engenharia, da construtora. Cair um prédio é a coisa mais difícil do mundo. Para isso acontecer, tem que ter muito erro. E os acidentes do trabalho? Você pode fazer obras com acidente zero. Mas, para tanto, é preciso investir na conscientização [...] Então, eu vejo empresas do século 21 com as coisas mais modernas e uma irresponsabilidade total com a forma de tocar a obra.
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A opinião vai de encontro com o ponto de vista levantado pelo promotor Maurício Ribeiro Lopes. Ao R7, o representante do MP destacou que o problema está na fiscalização e não é uma exclusividade de Guarulhos ou de São Paulo. Tal situação traz um clima de insegurança, o qual é de difícil combate pela “inexistência” do poder público nessas obras.
— Como cai esse prédio em Guarulhos? Cai porque não existe nenhum tipo de fiscalização sobre a obra. Pode ser que a obra esteja regular, mas você não sabe da regularidade da empresa, no seu todo, dos métodos construtivos, por exemplo. Não existe uma fiscalização, uma vigilância, um acompanhamento. A gente está sujeito a essas coisas o tempo todo.
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Na manhã desta terça-feira (3), a Prefeitura de Guarulhos disse que a obra estava regular. O alvará de construção foi emitido em 23 de novembro do ano passado para a construção de “um condomínio residencial de 30 apartamentos e 2 salões comerciais, totalizando 3.706 metros quadrados”. Um pedido de substituição do projeto, acrescentando um mezanino em um dos salões comerciais, foi feito no dia 14 de maio deste ano, e um novo alvará foi emitido no dia 6 de novembro.
Ramalho explicou que as informações junto aos operários ainda são muito desencontradas e que a maioria, pelo que o sindicato apurou, trabalhava de maneira informal. O advogado Maurício Monteagudo Flausino, representante da construtora Salema Comércio, Construções e Projetos Ltda., responsável pelo prédio, disse que apenas oito trabalhadores eram funcionários da Salema, enquanto os demais (entre 13 e 17) eram de empreiteiras subcontratadas para áreas específicas da obra.
— Perguntei para alguns para quem eles trabalhavam, e eles me responderam que trabalhavam na obra. Perguntei e eles disseram trabalhar para uma pessoa, mas não deram o nome. E a carteira [de trabalho]? Aí eles disseram que não estava assinada, que entregaram e não devolveram pra eles. Até que se prove o contrário, eles estão dizendo que têm carteira, mas não estava assinada ou não devolveram. Pode ser que agora eles possam apresentar os registros para verificarmos os recolhimentos. É uma coisa para se apurar.
Envolvidos especulam sobre possíveis causas
O presidente do Sintracon-SP afirmou ainda acreditar em erro de engenharia para o desabamento do prédio. Ele aproveitou esse novo acidente na área da construção civil para alertar sobre as práticas do mercado atual, as quais penalizam, segundo ele, principalmente os operários.
— Minha avó falava que a “pressa é inimiga da perfeição”. A construção civil trabalha sob regime de tarefa, e não por hora como um escritório. Por empreitada, ele tem que fazer tudo correndo, então ele acaba fazendo malfeito e corre o risco de se acidentar. Todo acidente em obra acontece por imperícia de quem toca a obra. O que vejo nisso tudo é: se aplicarmos as normas como elas são previstas, nós podemos fazer qualquer coisa sem acidentes. É que infelizmente as pessoas não olham muito essa coisa de acidentes, não.
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O advogado Maurício Monteagudo Flausino acredita ser muito cedo para especulações em torno das causas do acidente, mas garante que as normas de segurança eram respeitadas não só pela Salema, mas também pelas empresas subcontratadas por ela para os acabamentos no prédio. Ele aproveitou para negar uma versão especulada no local do acidente, dando conta que a explosão de um botijão de gás poderia ter causado o desabamento.
— O pessoal inventa até história. Falaram que até botijão explodiu. Os policiais retiraram um botijão do local e foi comprovado que não ocorreu esse tipo de situação. Talvez o solo mexeu ou alguma situação geológica que a gente não tem certeza (sic). Aquela região realmente pode sofrer alguma coisa, tanto que outros prédios foram construídos ali por perto. Temos todo o material, todo o estudo do que foi feito. Antes desse prédio ser erguido foram levantadas todas as hipóteses.
As investigações da polícia já começaram, mas os peritos do Instituto de Criminalística só terão acesso ao local tão logo terminem os trabalhos do Corpo de Bombeiros.
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