Para mãe, pressão na escola afetou menina que fugiu do Enem
“Nós ficamos procurando onde foi que erramos”, diz Lúcia Takahashi
São Paulo|Gustavo Basso, do R7

Mariana Vakahara, a estudante de 19 anos que desistiu na última hora de fazer a prova do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) e fugiu para Campos do Jordão (SP) no último domingo (5), enfrentou pressão e competição na escola, afirma a mãe, Lúcia Takahashi. Mariana fez o Ensino Médio no colégio Objetivo Integrado, que reúne os alunos com melhores notas e utiliza as boas participações no Enem e vestibulares em publicidades.
Para ser aluno da turma de elite do colégio paulista, o aluno precisa ter boas notas e passar por uma seleção. Segundo uma aluna do 3º ano que preferiu não se identificar, cerca de 10% dos estudantes são convidados para a turma.
“Minha filha mais velha, que já está na faculdade, entrou nessa turma separada e meses depois pediu para sair, porque não aguentou, há muita pressão, muita cobrança. Eles expõem a nota dos alunos para todo mundo”, conta Lúcia.
Questionado pelo R7 sobre o caso, o Colégio Objetivo Integrado disse que "entende que esta é uma avaliação pessoal dos familiares e respeita esta posição". A nota diz também que o colégio "não irá comentar sobre o assunto, mas lembra que a aluna concluiu seus estudos no Integrado há dois anos."
Para ela, a pressão para ser aprovada no Enem ou no vestibular acabou aguçando o isolamento da filha.
“Ela sempre foi muito fechada, mas de uns anos para cá ela se isolou muito dos amigos, e ficando apenas com a família. A gente sabe que não é normal, mas não tinha noção do tamanho do sofrimento que ela enfrentava”, conta a mãe. "Agora ficamos nos perguntando o que poderiamos ter feito de diferente, onde que erramos".
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Lúcia e o irmão encontraram Mariana próximo a Campos do Jordão, a cerca de 190 km da capital, na manhã de segunda-feira (6). Ela havia desaparecido após ser deixada pela mãe para fazer o Enem na região da Vila Mariana, em São Paulo.
“A encontramos caminhando já de volta para São Paulo, no meio da estrada, a uns 20 km de Campos do Jordão. Ela não estava bem”, conta a mãe. Veio dela mesma o palpite sobre onde estaria a menina de 19 anos. “Nós vamos muito para lá, e a Mariana dizia que um dia iria se mudar para a cidade”, diz. A família se encaminhou à cidade enquanto a polícia tentava identificar a compra de passagens.
Cobrança por resultado
O pai de Mariana, Eduardo Vakahara, é médico, profissão que a estudante buscava seguir até o ano passado. “Meu marido era até um pouco contrário a ela seguir a medicina; ele diz que é muito sacrifício, muito desgaste”, diz Lúcia. Para ela, a incerteza sobre qual carreira seguir, associado ao perfeccionismo da filha, colaboraram para a desistência de fazer a prova.
Ela conta ainda que ter feito o Ensino Médio no Objetivo Integrado lhe garantiu uma bolsa de estudos no cursinho de mesmo nome.
A estudante do 3º ano do Ensino Médio do colégio explica como funciona a cobrança a que a mãe de Mariana se refere.
“As coordenadoras têm uma meta de nunca deixar a nota dos alunos no Enem cair em relação ao ano anterior. Ao longo dos três anos do Ensino Médio, são 16 simulados do Enem, sendo oito no terceiro ano, quando o ranking dos alunos é exposto para todo mundo”.
Segundo ela, no primeiro ano do Ensino Médio, são duas salas com cerca de 45 alunos. Entre o primeiro e o segundo ano, uma dessas salas é cortada, restando apenas os com primeiros do ranking. Os alunos que caem de rendimento são chamados pelas coordenadoras do curso para uma conversa.
“É uma conversa meio tensa. Eles perguntam o que acontece, dizem que precisamos [alunos] ajudarmos elas a nos ajudarem. Mas também perguntam o que precisamos. Se depois de algumas conversas o aluno não reage, não melhora, ele é convidado a sair”, conta.
Para a estudante de 17 anos que tenta ingressar em direito na USP, lida com tranquilidade com a pressão. “As metas que nós nos estabelecemos são muito altas, então a cobrança parte também de nós mesmos”. Ela conta que quando entrou, houve poucas desistências, mas que este ano, muitos alunos calouros desistiram do Ensino Médio na turma de elite.
Respostas ao Stress
Para o psicólogo e professor da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica) Antonio Carlos Amador, não é possível responsabilizar a escola ou a família por uma ação como a tomada por Mariana, que depois de mandar uma mensagem à mãe avisando que estaria dentro da escola para o exame, pegou um ônibus para o interior de São Paulo.,
“Quando diante de uma situação de stress, nós podemos ter três respostas: ataque, fuga, ou fluxo. Há pessoas que atacam o problema, outras que fogem dele, e outras que dizem ‘ok, o que vou fazer para resolver o problema?’”, explica.
“Aí podemos perguntar: ‘por que só aconteceu com ela?’. Cada pessoa internaliza as expectativas da família, da escola, do entorno, e cada pessoa lida com isso de forma diferente. Uma pessoa que já tender a ser naturalmente ansiosa vai responder de forma mais intensa”, diz Amador.
Ele conta que a ansiedade é uma experiência de tensão diante de um perigo real ou imaginário, que prejudica muitos alunos que prestam Enem ou vestibular. “O que mais acontece é o aluno chegar e travar, dar branco, por causa dessa ansiedade. As escolas trabalham o conteúdo, mas poderiam também trabalhar a ansiedade com conversas a partir de um mês antes da prova”, defende o psicólogo.
Ele ressalta que não conhece Mariana Vakahara, portanto não pode avaliar a pressão exercida pela família, mas que a ansiedade é um processo desenvolvido ao longo da vida, sem poder ser atribuída uma causa a ela.














