Perito criminal diz que disparos efetuados contra os presos “foram para matar mesmo”
Apesar das marcas de tiros nas paredes, não foram encontradas cápsulas, segundo ele
São Paulo|Vanessa Beltrão, do R7

O perito Criminal Osvaldo Negrini Neto falou por mais de duas horas, nesta segunda-feira (15), sobre a situação que ele encontrou dentro do Complexo Penitenciário do Carandiru após a invasão da tropa de choque da Polícia Militar, em 1992. O profissional foi responsável pela perícia na Casa de Detenção de São Paulo.
Sobre os disparos e as manchas de sangue encontradas no pavilhão nove — local onde aconteceu a invasão policial que terminou com 111 detentos mortos —, a testemunha foi categórica.
— Não foram disparos feitos nas pernas das vítimas, foram para matar mesmo.
Ele contou que ainda no dia 2 de outubro, data do massacre, conseguiu ter acesso ao Carandiru à noite, mas as condições de trabalho não eram das melhores. O local estava sem energia e a primeira vistoria teve de ser feita com um holofote emprestado pela Polícia Militar. O perito, que estava acompanhado de um fotógrafo, conseguiu registrar os corpos empilhados no segundo pavimento, entrou em algumas celas e também no pátio.
— Um rio de sangue tinha transbordado ali.
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Cena do crime alterada
Os trabalhos só puderam avançar dias depois, quando retornou ao complexo penitenciário para terminar a perícia. Porém, apesar de ter dado ordem para interdição do local, o Casa de Detenção de SP havia sido lavada e os corpos já tinham sido removidos.
Para Negrini, o fato de terem alterado a cena representava “que não queriam a perícia”. Segundo a testemunha, o local havia sido limpado pelos próprios sobreviventes que estavam seguindo ordens da Polícia Militar. Mesmo assim o perito confeccionou o laudo.
Em seu depoimento, voltou a afirmar vários aspectos dessa perícia. Ele disse que, na época, não o cenário dos acontecimentos tinha mudado e que a opção foi observar as paredes.
— A história estava descrita nas paredes.
De acordo com Negrini, as machas de sangue e os buracos nos colchões indicavam que presos haviam sido mortos em suas celas e que o atirador teria disparado a partir da soleira da porta. Ele também afirmou que mesmo com as perfurações, nenhuma cápsula de munição foi encontrada.
— Apesar de tantos buracos de bala, não foram encontrados cápsulas para individualizar atiradores. A preservação do local, no mínimo, falhou.
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Confronto não existiu
No laudo, Negrini deixou claro que, pelos vestígios encontrados, não houve disparo contra o atirador, o que desmonta a ideia de que o número de mortes teria sido provocado por um confronto entre PMs e presos.
— Nenhum vestígio identifica isso.
Ainda segundo a testemunha, no dia do massacre, foram apresentadas por policiais armas que seriam dos detentos, a maioria artesanais, como espadas e serrote, e também armas de fogo.
Porém, a maior parte desses instrumentos estava seca, o que demonstrava que não poderiam ter sido usados em um local com poças de sangue.
Mais cedo, o diretor da divisão de segurança e disciplina do Carandiru na época, Moacir dos Santos, já havia dito em seu depoimento que não acreditava que as armas de fogo apresentadas pelos PMs fossem dos detentos.
— Eu acho improvável que fosse dos presos. Se eles tivessem, teriam usado.













