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Planos de revitalização do centro empacam gestão após gestão

São vários anos de tentativas de colocar em prática projetos de reestruturação desta região que, até os anos 60, era uma das mais nobres da cidade

São Paulo|Eugenio Goussinsky, do R7

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Prédios do centro estão em condições precárias
Prédios do centro estão em condições precárias

O incêndio que derrubou o edifício Wilton Paes de Almeida, na madrugada desta terça-feira (1), no centro de São Paulo, levanta novamente o debate em relação à situação de abandono que vive a região. O prédio, assim como a região como um todo, estava em condições precárias, com lixo em locais inadequados e outras questões de falta de infraestrutura.

São vários anos de tentativas das autoridades e de voluntários de colocar em prática projetos de revitalização do centro que, até os anos 60, era uma região nobre e bastante concorrida na cidade. Fala-se de uma reurbanização do bairro desde pelo menos o início dos anos 80, quando a degradação começou a prevalecer.


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Para o engenheiro Giberto Zejger, especializado em estruturas metálicas e em obras em geral, esses seguidos planos não têm surtido efeito devido à dificuldade de implementá-los e à falta de vontade política das autoridades.


— Passo todo o dia nessa região e, como engenheiro, percebo que tudo continua largado. Há muitos prédios em condições precárias. Os planos são paliativos, parece que são feitos como jogada de marketing, vai se falando do plano até parar de dar mídia. Então o projeto é interrompido, porque a solução não é encontrada, a solução é difícil.

Um inquérito que apurava riscos de segurança no edifício havia sido arquivado em março último, e reaberto após o acidente. Esse fenômeno de interrupção parece ser uma constante nos planos da Prefeitura de São Paulo, conforme ressaltou Zejger.


Desde os anos 80, na prefeitura de Jânio Quadros (1986-1988), houve tentativa de revitalizar a região da ponte Santa Ifigênia, próxima de onde ocorreu o desabamento. Depois, em 2005, o prefeito José Serra anunciou o plano Nova Luz, que inclusive foi aprovado pela Câmara Municipal.

O conteúdo, porém, só foi divulgado em 2010, quando Gilberto Kassab havia assumido o posto de prefeito em lugar do antecessor, que se candidatou á presidência do Brasil. O projeto era voltado a revitalizar basicamente a região conhecida como a Cracolândia, que engloba uma grande parte do centro, em que se incluem as avenidas Duque de Caxias, Ipiranga, Rio Branco, Cásper Líbero e a Rua Mauá.


Houve inclusive reformas importantes neste sentido, como a restauração da Pinacoteca Estadual, a criação da Sala São Paulo, dentro da estação Júlio Prestes, e do Museu da Língua Portuguesa, ligado à estação da Luz. O plano consistia também na desapropriação de imóveis (o que sempre foi muito difícil) e na construção de modernos edifícios.

Mas para Zejger, tais iniciativas acabam sendo incompletas, já que a degradação social se mantém, independentemente do que é construído ao seu redor. Para tanto, segundo ele, a parte de arquitetura e engenharia necessita ser acompanhada de uma política social.

— Agora mesmo vejo que estão erguendo prédios novos perto da Cracolândia, mas isso não é suficiente, não adianta resolver sem tocar nessa questão social. A região como um todo precisa ser viável, as pessoas precisam ter condições de andar tranquilas naquelas ruas.

Na prefeitura de Fernando Haddad, este plano não avançou. A gestão, inclusive, iniciou estudo para revitalizar o Vale do Anhangabaú, tendo recebido projeto do escritório dinamarquês Gehl Architects, que incluía a construção de cafés, pista de dança e um espelho d'água. Ele também completou a revitalização da Praça Roosevelt, iniciada na gestão Kassab.

Mas, no geral, Haddad priorizou uma política voltada para a periferia. Zegjer, porém, aponta que o que ocorre na periferia repercute no centro e vice-versa.

— Não há como fugir, enquanto esse plano não for encarado de frente, com sustentação política, inclusive para desapropriações e reduções de impostos para a aquisição de imóveis, vai trazer problema para a periferia e para o centro, logicamente. Tem de ser feito algo efetivo, um plano para começar e terminar, que inclua engenharia, política social, fiscalização e seja politicamente estruturado.

Segundo ele, haveria como se evitar a queda do edifício. E ele acredita que outros correm o mesmo risco devido à falta de fiscalização.

— Se nada for feito vai acontecer de novo. Trabalho com metálica e sei que para um prédio cair é necessária muita falta cuidado. Se a Prefeitura soubesse quanto lixo havia ali acumulado, teria interditado. Faltou fiscalização, inclusive para proteger estruturas metálicas desse prédio, com camada de tinta intumescente. Isso funciona. Não sei se foi feito ou se não se sabia, mas um prédio não cai assim, mesmo metálico.

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