São Paulo PMs suspeitos de matar jovem a pauladas vão a júri popular em SP

PMs suspeitos de matar jovem a pauladas vão a júri popular em SP

Familiares se dizem confiantes na Justiça: "tenho fotos do rastro de sangue até a viatura e testemunhas que dizem ter visto ele apanhando", diz irmão

Gabriel Paiva, de 16 anos, teria sido morto por PMs, em SP

Gabriel Paiva, de 16 anos, teria sido morto por PMs, em SP

Arquivo pessoal

Os policiais militares Thiago Quintino Meche e Jefferson Alves de Souza, do 22º Batalhão da Polícia Militar vão a juri popular às 12h30 desta quinta-feira, suspeitos de matar a pauladas Gabriel Paiva, de 16 anos, na Vila Missionária, zona sul de São Paulo, em abril de 2017. A previsão é de que o julgamento seja concluído até sexta-feira (18) pela juíza Debora Faitarone, da 1ª Vara do Júri de São Paulo.

Leia mais: Quis chorar quando vi os PMs, diz testemunha de morto a pauladas

A família de Gabriel está a caminho do Fórum Criminal da Barra Funda, em São Paulo, para acompanhar o julgamento. O irmão de Gabriel, Alex Augusto Paiva dos Santos, 27 anos, afirmou ao R7 que restou para os familiares esperar o dia do juri popular. "Lutamos, corremos para a delegacia, mas chegou um momento que não podíamos fazer mais nada."

Alex disse ainda que está confiante de que os policiais suspeitos de matarem o irmão a pauladas serão condenados. "Temos muitas provas e testemunhas", diz. "Tirei foto da poça de sangue que ficou onde ele foi morto, tem um rastro de sangue que segue até a viatura, testemunhas que dizem que viram ele apanhando mais até entrar na viatura, os pertences dele foram jogados no rio."

Segundo o irmão, "é impossível ter todo esse cenário para um menino que apenas caiu no chão". A prima de Gabriel, Tatiane Godoy, de 32 anos, diz que a família inteira quer Justiça. "É o mínimo que a gente pode ter. Não existe pena ou prisão que possa reparar essa perda. Foi muito cruel e injusta."

Leia mais: "Ele era uma criança muito boa", diz mãe de jovem morto depois de apanhar de policial

Tatiane afirma que o garoto foi covardemente espancado e diz que quer ficar frente a frente com os policiais suspeitos. "Essa sentença também é nossa, mas a nossa pena é eterna. Estamos há algumas semanas na expectativa e na ansiedade. Não é ódio, mas a palavra que define é tristeza de saber que alguém foi capaz de fazer isso com outra."

O outro irmão de Gabriel, Roger Luiz Paiva dos Santos, 23 anos, também afirmou que será um dia difícil. "É uma perda nossa, queremos que a Justiça seja feita e que eles paguem pelo que fizeram." Pelo menos dez familiares devem acompanhar o juri popular nesta quinta-feira.  

O advogado e membro do Condepe (Conselho Estadual de Direitos da Pessoa Humana), Ariel de Castro Alves, acompanhou o caso e afirma que tem expectativa de que os policiais militares sejam condenados. "Foi um dos casos mais graves e chocantes de violência policial dos últimos anos."

Alves afirma que o adolescente foi espancado cruelmente pelos policiais militares sem esboçar reação. "O motivo foi fútil, já que os policiais compareceram para dispersar um grupo de jovens que estavam reunidos numa rua da comunidade. Os demais jovens saíram correndo e o Gabriel não. Após isso ele foi espancado brutalmente", disse o advogado. "A punição precisa ser exemplar, inclusive para inibir outros policiais de cometeremos os mesmos crimes contra jovens nos bairros periféricos."

Os dois soldados, Jefferson e Thiago, estão presos preventivamente no Presídio Militar Romão Gomes, na zona norte, desde 19 de maio de 2017. Além deles, outros dois policiais militares são investigados por possível participação no crime.

Defesas dos policiais

De acordo com o advogado de defesa do policial militar Thiago Quintino Meche, Celso Vendramini, um policial teria agredido Gabriel e outro estaria próximo do jovem e não teria tocado no jovem. "No começo, a testemunha disse que o PM que estava próximo seria o Thiago. Depois, ela voltou atrás. Apareceram outras duas testemunha afirmando que não era o Thiago ao lado do Jefferson", disse. 

Segundo Vendramini, Thiago estava na rua de cima, cuidando do carro da polícia. "O Thiago não tem nada a ver com isso. É uma vergonha ele estar preso", afirmou o advogado. 

O advogado de Jefferson Alves de Souza, Caio Santos Cavalcanti, afirmou que no julgamento apontará a existência de contradições no depoimento das testemunhas. "A principal testemunha afirma que não reconhece o Jefferson. Ele só chegou no local para socorrer a vítima dos traumas. Quando o Jefferson chegou ao local, Gabriel já estava caído. Não sabemos o que houve."

Sobre as afirmações de familiares e moradores da região de que Jefferson costumava agir de forma violenta, Cavalcanti negou a acusação. "Ele já tinha um bom tempo de polícia e tinha um bom comportamento."