Réus por homicídio, PMs voltam às ruas e prendem testemunha
Rapaz que diz ter visto vítima sendo colocada viva em viatura é acusado de roubar GPS de carro
São Paulo|Alvaro Magalhães, do R7

Dois policiais militares presos em flagrante em dezembro de 2012 sob a acusação de assassinar Maycon Rodrigues Moraes, de 17 anos, na Vila Medeiros, zona norte de São Paulo, voltaram a patrulhar a mesma região no final do ano passado e prenderam uma das testemunhas-chave do processo a que respondem.
Vinicius Rosado, de 20 anos, foi detido em 19 de dezembro, sob a acusação de roubar um aparelho GPS de um motorista. De acordo com o registro da prisão em flagrante, lavrada no 19º DP (Vila Maria), os policiais responsáveis pela ocorrência foram o tenente Alisson Souza e o soldado Humberto Batista.
Os PMs declararam à Polícia Civil que Rosado foi abordado quando estava com Horus Fantini, também detido, em um Voyage cinza. Os policiais afirmaram que tinham informações a respeito de uma ocorrência de roubo envolvendo um veículo do tipo. Após pararem a dupla, encontraram o GPS no porta-luvas do carro. A vítima do roubo foi localizada e reconheceu o aparelho.
N. R., 17 anos, mulher de Rosado, critica a prisão.
— Eu não sei exatamente o que aconteceu porque ainda não tive contato com o Vinícius. Mas sei que os policiais ficaram rodando com ele por horas, passaram por três delegacias. Meu sogro teve de ficar seguindo a viatura o tempo todo.
Testemunha diz ter visto detido vivo
Em 9 de dezembro de 2012, Rosado, que tinha a ficha criminal limpa, afirmou à Polícia Civil ter visto Moraes vivo, consciente e gesticulando muito, na parte traseira da viatura em que estavam o tenente Souza e o soldado Batista.
Na versão da polícia, Moraes estaria baleado, após reagir a prisão no mesmo confronto em que Walterley da Silva Jr, de 18 anos, também foi ferido.
Rosado disse que, após a viatura partir, levou Marcelo, irmão de Moraes (agredido na ocasião) ao Hospital Municipal Vereador José Storopolli. Mesmo tendo perdido tempo pedindo carona, chegou antes dos policiais ao local. Em seguida, os PMs apareceram com Moraes agonizando.
Com base no depoimento de Rosado e de outras testemunhas, o delegado Charlie Wang concluiu que Moraes não havia sido vítima de um confronto no local em que foi detido, como afirmaram os militares, mas assassinado, provavelmente a caminho do hospital, e deu voz de prisão aos policiais envolvidos.

O caso teve grande repercussão e provocou a revolta de moradores do bairro. Duas pessoas foram mortas durante um ataques a ônibus. E, um mês após o caso, a Secretaria de Estado da Segurança Pública proibiu policiais militares de socorrerem vítimas de confronto.
Em março do ano passado, a Justiça determinou que o tenente, o soldado e outros quatro PMs acusados aguardassem o julgamento em liberdade. Na época, antes de voltarem às ruas, eles passaram um período em procedimentos internos.
Em 2012, Souza e Batista já haviam participado, juntos, de outras três ocorrências registradas como morte de suspeito em confronto.
Mãe de Moraes quer transferência
O retorno dos policiais às ruas, no mesmo bairro onde Moraes foi morto e onde vivem parentes dele e testemunhas do caso, assustou Andrea Rodrigues, mãe do rapaz.
— Eu cruzei com eles na rua — diz ela — Não me conformo que eles estejam livre e, principalmente, trabalhando por aqui.
Andrea diz que foi pessoalmente se queixar com os superiores dos PM:
— Fui à Corregedoria da PM e, depois, no 5º Batalhão. Fiquei indignada quando falaram que nada foi provado ainda. Os dois podem ficar por aí e eu tenho que pagar o salário deles.
Prisão ocorreu em função da atividade dos PMs, diz advogado
Para Celso Vendramini, advogado dos policiais, a prisão da testemunha ocorreu em função da atividade dos PMs:
— Se o rapaz foi pego com produto de roubo, tinha de ser preso. Os policiais nem me falaram desse assunto. Talvez nem o tenham reconhecido.
Vendramini afirma que não há a necessidade da transferência dos policiais de área.
— As testemunhas não repetiram, em juízo, as declarações de deram à Polícia Civil. Elas entraram em contradição. Tanto que o juiz entendeu que os policiais poderiam aguardar o processo em liberdade.
O advogado afirma que os PMs não são ameaça à família:
— Eles são exemplares. Se fossem uma ameaça, não teriam sido soltos.
Não houve necessidade de transferência, diz PM
Questionada, a Polícia Militar afirma que não detectou qualquer irregularidade na prisão de Vinicius Pinto Rosado.
Segundo a PM, o tenente e o soldado voltaram à atividade operacional no segundo semestre do ano passado.
“Apesar de serem réus em processo crime, por enquanto, não há qualquer impedimento legal ou medida cautelar que os impeçam de trabalhar na área operacional”, afirma nota da corporação.
Ainda conforma a nota, os militares não foram transferidos da região porque “não se verificou a necessidade dessa medida cautelar e ela, de igual forma, não foi requisitada pelo Poder Judiciário”.
Segundo a PM, outros três policiais envolvidos no caso foram transferidos de batalhão.
A corporação enfatizou que o fato de Rosado ser preso em flagrante não altera sua condição de testemunha no caso que envolve os policiais.
Assista à reportagem da TV Record feita na época da morte de Moraes:















