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Última favela no centro festeja Copa com "pancadas" em Ronaldo e partidas de "Cala Boca, Galvão"

Ato organizado pelo Comitê Popular da Copa aproveita abertura do torneio para criticar Fifa

São Paulo|Diego Junqueira, do R7

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Crianças da comunidade do Moinho disputam partida do "Cala Boca, Galvão", jogo criado a partir do tradicional "Boca do Palhaço"
Crianças da comunidade do Moinho disputam partida do "Cala Boca, Galvão", jogo criado a partir do tradicional "Boca do Palhaço"

“Divirtam-se e critiquem a Fifa”. Foi dessa forma que a comunidade do Moinho, única favela que ainda resiste no centro de São Paulo (SP), festejou o início da Copa do Mundo no Brasil, com a partida entre Brasil e Croácia, na última quinta-feira (12).

O recado de Priscilla Cavalieri, do Comitê Popular da Copa (crítico à organização do Mundial), tinha tom de protesto. Mas o ato no Moinho era uma festa junina um tanto diferente: com música, dança e crianças brincando, mas carregada de críticas à Fifa.


A 23 km dali, enquanto autoridades brasileiras e estrangeiras assistiam à festa oficial no Itaquerão, as crianças do Moinho se divertiam jogando o “Tomba Fifa”, um boliche em que os pinos representam os figurões do Mundial.

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Os pequenos pulavam de alegria quando derrubavam Ricardo Teixeira (ex-presidente CBF), Ronaldo (membro do COL), Joseph Blatter (presidente da Fifa), José Maria Marín (presidente da CBF), Joana Havelange (COL), entre outros.

No “Tiro ao Alvo”, a pontuação máxima era para quem acertasse a “Odebrecht” — empreiteira que foi responsável pela obra do estádio do Corinthians. Também tinha a tradicional “Boca do Palhaço”, mas repaginada como “Cala Boca, Galvão”. E até Ronaldo caiu na farra, mas sendo espancado em praça pública.


Representante do Moinho e parceira do Comitê Popular da Copa, Alessandra Moja afirma que a festa pelo jogo do Brasil estava em segundo plano nesta quinta.

— É mais um ato político que uma brincadeira.


Larissa Viana, do Comitê Popular da Copa, explicou que a ideia não era fazer um protesto de rua no dia da abertura.

— O governo gastou R$ 2 bilhões em segurança para a Copa. Nosso objetivo não era entrar em confronto com esse aparato do Estado, mas mostrar que existe uma outra forma de construir o futebol, de forma popular, horizontal, e não de cima para baixo, como faz a Fifa.

E o futebol?

Em dia de estreia do Brasil na Copa, não poderia faltar futebol. Mas em vez do gramado verde impecável, a bola rolava em chão de terra batida.

E a medida que se aproximava o horário do jogo do Brasil, o campinho da comunidade ficava mais cheio, tomado por moradores e membros de movimentos sociais, como o Passe Livre e o Movimento Popular da Rua — alguns deles voltavam da zona de leste de São Paulo onde, horas antes, tinham participado do protesto ao lado dos metroviários, marcado pelo confronto com a Polícia Militar, que blindava o acesso ao Itaquerão.

Viola do Moinho (como prefere ser chamado), de 40 anos, apoia o ato político na frente de sua casa. Morador da comunidade há 12 anos, ele opina que a Copa veio na hora errada para o Brasil, porque o País tem muitos problemas ainda para resolver e, para isso, precisa dessa grana investida no Mundial.

— A minha vida toda foi favela e cortiço. Eu não tenho um endereço. Quando vou comprar uma TV, se não tiver o dinheiro todo eu não consigo comprar, porque eles não me dão o crédito.

Com as mãos sujas de tintas azul, verde e amarela, que passava no rosto dos filhos Cauã e Cauê, Viola afirma que, apesar de criticar a realização da Copa, não deixará de torcer pelo Brasil.

— Eu sou brasileiro cara, não tem jeito. Vamos torcer.

Respeitando o desejo da comunidade, que pediu para assistir à partida, o ato continuou durante o jogo com músicas e projeções.

Larissa explica que a luta vai continuar por muito tempo depois que a Copa da Fifa deixar o Brasil.

— Vamos continuar lutando pelas indenizações para quem teve de abandonar sua casa, pelos direitos dos ambulantes venderem antes, durante e depois da Copa, e também pelo futebol de várzea.

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