Crianças e adolescentes poderão usar canetas emagrecedoras? Veja o que já se sabe
Aumento do peso em menores e o uso indiscriminado desses medicamentos por adultos acendem o alerta
Saúde|Filipe Pereira*, do R7

Com a popularização do uso das canetas de combate ao diabetes para o emagrecimento, novos estudos buscam analisar a eficácia e aplicabilidade do método em menores de 18 anos.
Apesar de uma aprovação da semaglutida e estudos com a tirzepatida para esse público nos Estados Unidos, no Brasil, de acordo com a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), a prescrição continua restrita apenas a algumas substâncias e em casos nos quais o IMC (Índice de Massa Corporal) do paciente acima dos 12 anos seja de mais dois escores-z (o que equivale ao IMC de 30 kg/m² no adulto).
Mesmo com a possibilidade do tratamento, nenhuma das sociedades médicas dos setores da endocrinologia ou da cirurgia bariátrica ainda endossa o uso das canetas nesses pacientes, explica Flavio Kawamoto, cirurgião e coordenador do Instituto de Obesidade e Diabete do Hospital Moriah.
O médico destaca que a falta de mais dados sobre a segurança do tratamento e de eficácia ao longo prazo gera preocupação a essas associações. Por se tratar de um público com seus sistemas endócrinos ainda em desenvolvimento, ele pontua que a atenção deve ser maior.
“Há pressão realmente nessa ampliação do uso das canetas. É uma situação que a gente precisa particularizar muito bem, a indicação, a necessidade e a opção de tratamento. A gente precisa ter todos esses dados, não só a segurança, mas também para optar pelo melhor tratamento e ter realmente certeza da eficiência disso nesse grupo de pacientes”, avalia.
No entanto, se tais critérios forem atendidos, as canetas poderiam ser uma nova opção para o tratamento contra a obesidade infantil, que afeta cerca de 12,9% das crianças de 5 a 9 anos e 7% dos adolescentes de 12 a 17 anos, segundo dados do Ministério da Saúde e da Opas (Organização Pan-Americana da Saúde).
O levantamento de 2019 demonstra uma realidade que faz com que esses jovens sofram problemas que vão além do aspecto físico, principalmente os que não passam por acompanhamento com um profissional.
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Diferente dos adultos, que possuem vários métodos para o combate à doença, como as canetas e a cirurgia bariátrica, para crianças e adolescentes a lista de processos é menor devido aos riscos e fase de desenvolvimento desses jovens.
O médico Flávio Kawamoto aponta que alternativas mais invasivas, como as cirúrgicas, são raridades em pessoas menores de 16 anos, sendo recomendadas apenas em casos específicos. Desta forma, outros tratamentos são os mais recomendados para a faixa etária, como a reeducação alimentar, acompanhamento com psicólogo e prática de atividades físicas.
“Normalmente as crianças que são candidatas da cirurgia bariátrica nessa idade geralmente têm alguma alteração genética relacionada ao controle de peso, fome, saciedade e que leva a um ganho de peso extremo. São crianças com um excesso de peso muito grande, uma obesidade muito severa que acabam não tendo realmente opção, fazendo a cirurgia por falta realmente de opção de terapia ou mesmo de controle”, explica o médico.
Para solucionar o problema crescente ou tentar diminuí-lo, o especialista destaca medidas como as feitas por países europeus, com campanhas de conscientização focadas nesse público. Já no caso da aprovação ampla das canetas, ele ressalta que, apesar de ver a possibilidade com otimismo, elas não seriam utilizadas como único tratamento, mas sim em conjunto com os processos já recomendados.
“Pode ser uma alternativa? Pode, mas de qualquer maneira, como a cirurgia pode ser uma opção, tem muita coisa para fazer antes, né? Tem aí campanhas, tem conscientização, psicologia, tem muita parte para ser trabalhada antes de pensar em alguma coisa que seja mais de medicação ou de cirurgia”, lista o médico.
Crianças obesas serão adultos obesos. Então, você tratando desde o início, criando uma criança que tenha consciência da alimentação, da atividade física, possivelmente ela terá uma vida adulta, menos problemática, não é 100%, mas talvez a gente consiga mudar um pouquinho dos números.
A ‘fórmula mágica’ preocupante também em adultos

Assim como a obesidade infantil, outro fator que alerta os especialistas é a explosão das canetas emagrecedoras e como elas são amplamente divulgadas nas redes tanto para os jovens como para adultos.
Os alardes não são em vão, uma vez que estudos já demostram que, após a interrupção dos medicamentos, inicialmente criados para o combate ao diabetes, pacientes registram o reganho de peso.
Segundo um estudo apresentado na Obesity Week 2025, no início de novembro, em Atlanta, nos Estados Unidos, de 1,2 milhão de pessoas, 58% dos usuários das canetas emagrecedoras, como Ozempic, Wegovy e Mounjaro, recuperaram o peso perdido em até um ano após interromper o uso da medicação.
Para todo o grupo, o ganho de peso aumentou com o tempo desde a interrupção das injeções, com evolução de um ganho do peso corporal total de 4,5% aos três meses para quase 6% aos seis meses. Após um ano sem o medicamento, o ganho foi para 7,5%, com os pacientes que tomaram as injeções por pouco mais de oito meses.
Um exemplo é o da apresentadora americana Oprah Winfrey, que revelou o reganho de 9 kg dos 23 kg perdidos após um ano sem usar as canetas emagrecedoras. Em entrevista, ela revelou que buscou se desafiar com a decisão, mesmo com aviso de conhecidos.
A situação da apresentadora, assim como a de milhares de pessoas que também fazem o uso dos medicamentos para a redução de peso, escancara um ponto-chave em toda essa discussão: ver o sobrepeso e a obesidade para além dos números na balança.
Muitos pacientes acabam ignorando traumas e outras condições psíquicas que servem como gatilho para o ganho de peso, sendo necessário o acompanhamento com um especialista ao lado dos gastroenterologistas e nutricionistas que acompanham os casos.
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Porém, o desabafo de Oprah vai na contramão de muitos influenciadores digitais que compartilham suas rotinas e apenas os bons resultados após o uso de medicações do tipo e motivam diversas pessoas a buscarem esse método.
Além da ilusão que muitos desses influenciadores criam de um método fácil para a perda de peso, outro ponto preocupante é como essa divulgação é feita, sem a apresentação de riscos e efeitos colaterais. Tais anúncios podem incentivar a compra das canetas sem prescrição médica, mesmo com o encaminhamento sendo necessário desde novembro de 2025.
“Isso pode ser perigoso, porque, não só em relação a esses acessos de forma clandestina, que se faz por venda de medicações sem liberação e sem receita, mas porque abre a brecha de você poder estar dando informação falsa e as pessoas começarem a achar que aquilo é a solução de tudo”, aponta Kawamoto.
O médico ainda aponta a parcela de responsabilidade desses criadores de conteúdo que podem criar exemplos negativos na ampla divulgação do método. Além disso, ele ressalta a importância da conscientização de que as canetas, assim como outros processos, como a bariátrica, fazem parte de um processo de tratamento.
“A gente precisa combater isso, mostrar que o tratamento passa por muitas fases e que não é isso e que você precisa de uma forma quando você não tem outra opção. Quando você já testou dietas, educação alimentar, atividade física, mudança de estilo de vida, e a partir do momento em que começa a sentir um pouco da necessidade de você ter um auxílio, aí poderia realmente utilizar dessas medicações”, finaliza.
*Sob a supervisão de Arnaldo Pagano, editor do R7
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