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Linfoma que matou Netinho tem terapia CAR‑T promissora, porém custa até quatro milhões de reais

Tratamento ainda incipiente no Brasil pode reduzir tumores, mas enfrenta alto preço e barreiras de

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Créditos/Reprodução Internet Vanity Brasil

O linfoma não Hodgkin que vitimou o cantor Netinho tem, hoje, uma alternativa terapêutica inovadora – a terapia CAR‑T – que apresenta eficácia acima de 80 % em pacientes que já esgotaram as opções convencionais, porém exige investimento entre R$ 2 milhões e R$ 4 milhões por caso.

Diagnosticado em março de 2025, Netinho entrou em remissão ainda naquele ano, mas viu o câncer reaparecer em 2026 de forma mais agressiva, conforme relatou. O recidivo acabou levando à sua morte na terça‑feira, 13 de outubro de 2026, reforçando a gravidade do quadro quando o tumor resiste ao tratamento padrão.

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O linfoma não Hodgkin engloba mais de quarenta subtipos de neoplasias do sistema linfático, segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca). A Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia (Abrale) estima que as taxas de cura variem entre 60 % e 70 %, dependendo do subtipo e da extensão da doença no organismo.

Para o hematologista Guilherme Duffles, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e do grupo Oncologia D’Or, o intervalo de remissão influencia o prognóstico: pacientes que recaem logo após o término do primeiro tratamento tendem a evoluir pior do que aqueles que permanecem longos períodos sem sinais da doença. “Quem recai logo depois de terminar o primeiro tratamento costuma evoluir pior do que quem passa muito tempo sem sinais do câncer”, explicou.

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A terapia CAR‑T difere da quimioterapia tradicional, que destrói células de rápida multiplicação, atingindo também tecidos saudáveis. Em vez de atacar de fora, a CAR‑T treina o próprio sistema imunológico para reconhecer e eliminar as células cancerígenas. O processo inicia-se com a coleta dos linfócitos T do paciente, que são levados a um laboratório para receberem um receptor artificial – o CAR – capaz de identificar proteínas na superfície tumoral. Após a expansão em cultura, as células modificadas são reinfundidas ao paciente, onde passam a caçar o tumor.

O oncologista Stephen Stefani, do grupo Oncoclínicas e da Americas Health Foundation, descreve o mecanismo como a criação de um “soldado imunológico reforçado”: as células são retiradas, reprogramadas para reconhecer o tumor e devolvidas ao organismo já preparadas para o combate.

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A CAR‑T já recebeu aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para alguns tipos de câncer do sangue, como leucemias, linfomas e mieloma múltiplo, e costuma ser indicada a pacientes cujo tumor recidivou ou deixou de responder às terapias convencionais. Em casos selecionados, a terapia pode gerar remissões prolongadas e, em alguns, a completa erradicação do tumor.

Um exemplo recente foi o do ator neozelandês Sam Neill, que faleceu em julho após ser diagnosticado em 2023 com linfoma não Hodgkin avançado. Após a quimioterapia perder eficácia, ele recebeu a terapia celular e, dias antes de morrer, a família informou que os exames não mostravam mais sinais da doença.

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Apesar do potencial, a CAR‑T traz riscos nos primeiros dias pós‑infusão, como inflamações intensas e alterações neurológicas temporárias, exigindo acompanhamento por equipes especializadas. Não há registro público de que Netinho tenha sido avaliado para esse tratamento.

O custo elevado é apenas um dos obstáculos. Um estudo publicado na revista Frontiers in Hematology aponta que o Brasil ainda carece de modelos de financiamento específicos, de centros habilitados e, frequentemente, precisa enviar as células a laboratórios estrangeiros para a fabricação do produto. Conforme Stephen Stefani, parte dos pacientes piora ou morre antes de conseguir acesso, e muitos recorrem à Justiça, o que amplia a desigualdade ao favorecer quem tem condições de litigar.

Para reduzir o preço, pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), em parceria com o Instituto Butantan, divulgaram, em junho, dados preliminares de um ensaio clínico com uma versão nacional da CAR‑T produzida no Hemocentro de Ribeirão Preto. Entre os pacientes com linfoma não Hodgkin, 87,5 % apresentaram redução significativa ou desaparecimento do tumor. O estudo ainda aguarda confirmação nas próximas fases e registro na Anvisa para possível incorporação ao Sistema Único de Saúde (SUS).

No Hospital Israelita Albert Einstein, outro ensaio demonstrou resultados semelhantes: a terapia desenvolvida internamente gerou resposta em 81 % dos pacientes com leucemias e linfomas avançados, e 72 % alcançaram remissão completa. O projeto foi financiado pelo Ministério da Saúde por meio do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do SUS (Proadi‑SUS) e marcou a primeira produção da terapia dentro de um hospital brasileiro.

Para que a CAR‑T chegue ao SUS, ainda são necessários o registro dos produtos na Anvisa, a avaliação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) e a definição de um modelo de financiamento sustentável. Também será preciso ampliar o número de centros habilitados a produzir ou aplicar o tratamento e capacitar equipes especializadas em diferentes regiões do país.

Stephen Stefani ressalta que a produção nacional pode reduzir custos e diminuir a dependência de laboratórios estrangeiros, mas, isoladamente, não resolve o problema de acesso. Enquanto a política pública não organizar a oferta, a terapia continuará sendo uma opção disponível apenas para uma minoria de brasileiros com linfoma recidivado.

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