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Adultos viciados podem criar geração que odeia a internet

Será que nosso estilo de vida dependente da internet pode gerar um futuro desconectado?

Tecnologia e Ciência|Do R7*

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Geração conectada troca barzinho pelo Facebook e e-mail pelo número do telefone fixo
Geração conectada troca barzinho pelo Facebook e e-mail pelo número do telefone fixo

A internet, a cada dia que passa, se infiltra mais e mais nas vidas das pessoas. Checar mapas, postar fotos, ler notícias, paquerar, fazer amigos, assistir filmes, jogar videogame e até escolher um bom lugar para jantar são atividades feitas através da rede mundial de computadores. Redes sociais substituíram barzinhos como lugar para interagir com outras pessoas e pedir o Whatsapp ou e-mail de alguém já é muito mais normal que pedir o número do telefone fixo. Celulares, tablets e computadores estão substituindo coisas que já foram consideradas inovações tecnológicas.

Por um lado, essa presença maciça da tecnologia em nossas vidas é algo bom. Pense como seria seu dia-a-dia sem Facebook ou Google! Por outro, essa dependência pode se tornar algo perigoso — e inclusive influenciar futuras gerações de maneira negativa.


Para o doutor em Linguística Aplicada e Linguagens da Comunicação pela Universidade Católica de Milão (Itália) e professor no Departamento de Comunicação da Universidade Pompeu Fabra (Barcelona), Carlos Scolari, essa dependência é algo natural, que aconteceu inúmeras vezes ao longo da nossa evolução.

O argentino Carlos Scolari afirma que a dependência da tecnologia não é algo novo na história da humanidade
O argentino Carlos Scolari afirma que a dependência da tecnologia não é algo novo na história da humanidade

— Nós, seres humanos, sempre criamos tecnologias e evoluímos junto com elas. Nos integramos a redes de interfaces cada vez mais complexas, e é necessário ter em mente que o homo sapiens sempre conviveu e evoluiu com suas novas tecnologias, não é um fenômeno novo e nem algo que devemos ou podemos criar independência de uma hora para outra.


De fato, o ser humano evoluiu aprendendo a lidar com novas tecnologias, sejam elas ferramentas para construir casas e armas para caçar ou sapatos e papel. Apesar disso, a quantidade de novas informações e a facilidade de se comunicar que temos hoje em dia é algo que afeta mais o comportamento humano que outras inovações que vimos ao longo da história.

Para o analista e chefe de pesquisas da Gartner, Chris Howard, o que causa a dependência é justamente a facilidade em se conectar, unida à natureza humana.


— O que acelera nossa relação com a tecnologia digital hoje é a facilidade de conseguir conteúdo do nosso interesse e de nos aproximar de outras pessoas. Essa rapidez de conexão tem uma explicação biológica: o ser humano tem como instinto se conectar entre si e criar comunidades. Sem essa nossa característica primal, essa tecnologia não estaria tão difundida na sociedade hoje.

O antropólogo, etnógrafo, escritor e professor de antropologia cultural na Universidade de Roma (La Sapienza), Massimo Canevacci, afirma que a dependência do homem na tecnologia cresceu à medida que ela virou uma espécie de prazer.


— Todo mundo gosta de enviar mensagem, de criar aplicativos, de se representar no Facebook, falar e ser notado no Twitter, de sexualizar o próprio corpo virtual. É o prazer que causa essa dependência, que às vezes é um prazer distorto, desviado. O inconsciente humano está virando um user, um produto de valor.

Comportamento

As inovações tecnológicas sempre influenciaram o modo como o homem se comporta. A possibilidade de plantar, por exemplo, fez com que deixássemos de ser nômades e nos fixássemos em lugares por mais tempo, que mais tarde se tornariam tribos, aldeias, vilas e cidades. Para Scolari, todo tipo de rede criada pelo ser humano mudou drasticamente a humanidade. 

— Mercados onde pessoas compravam, vendiam e trocavam informações, os grandes impérios marítimos globais, o telégrafo criado no século 19, as redes de comunicação sonhadas por Marconi há mais de 100 anos, e até mesmo a internet e o Facebook. O ser humano tende a criar redes de informação cada vez mais complexas. E isso está afetando a relação entre o público e o privado, remodelando o comportamento dos usuários em muitos níveis e de múltiplas formas.

O comportamento nas redes sociais é objeto de estudo de diversos pesquisadores. Chris Howard afirma que a personalidade que construímos online refletem quem queremos ser.

— As redes amplificam vozes individuais. Pessoas usam a tecnologia atual para se projetar e deixar de usar somente a comunicação cara-a-cara: elas agora falam para todos! Com a internet, é possível difundir ideias, opiniões, desejos, sentimentos e vivências para pessoas com interesses similares aos seus, mas também provê um alto nível de anonimato e falsa intimidade. Tudo isso seduz os usuários, que se sentem vivos apenas quando são reconhecidos, mesmo que seja apenas pelos seus perfis em redes na internet.

Há ainda o temor de que as hiperconectividade esteja afastando as pessoas.

— Isso gera um paradoxo. Quanto mais popularidade você quer, mais tempo passa online e mais se distancia de pessoas reais. Tem que haver disciplina para balancear a vida digital e a vida real.

De acordo com Canevacci, não foi apenas o comportamento nas redes que mudou nos últimos anos. As pessoas estão mais inseguras e até mesmo a política sofreu mudanças.

— Até a política mundial mudou de estilo, seja no terrorismo ou na maneira de combatê-lo. Algumas pessoas não conseguem ficar um tempinho desconectado e sem responder algumas perguntas banais, como "onde você está?", "com quem?", "o que está fazendo?", ou tirando selfies imaginando que todo mundo queira ver.

O especialista ainda afirma que esse exagero de fotos sendo postadas a todo momento seja algo preocupante.

— Imaginar que a perspectiva decisiva da auto-representação seja reassumível mostrando a língua numa foto é preocupante, como bulimia digital. E foi assim que todo mundo virou fotógrafo e fotografado.

Futuras gerações podem evitar a tecnologia por causa da nossa dependência
Futuras gerações podem evitar a tecnologia por causa da nossa dependência

Geração offline

Você sabe quem são os hipsters? Eles são uma tribo urbana, assim como os punks, os góticos, os hippies e os geeks. Eles são um grupo de pessoas que celebra o saudosismo – ou seja, gostam de usar coisas antigas e retrô. Isso é algo normal para o ser humano, remeter a ações e objetos antigos para se prender às origens, ou apenas para ser diferente e ir contra a cultura mainstream, da massa, que está na moda.

Essa tendência de negar o novo e abraçar o nostálgico pode continuar no futuro. Ao invés de sociedades super conectadas como vemos em filmes de ficção científica, a humanidade pode optar por relações mais pessoais e menos tempo na frente de uma tela. Isso seria originado pelo vício em tecnologia que os usuários desenvolveram nessa década, fazendo os jovens de futuras gerações preferirem viver mais desconectados.

Para Howard, essas gerações vão usar a tecnologia de maneira mais contida, já que não terá como simplesmente negar os avanços tecnológicos obtidos.

— Futuras gerações vão absorver a tecnologia inteligente, que já estará avançada a ponto de facilitar ainda mais a vida da população. Ao mesmo tempo que parte da população vai abraçar o estilo de vida de seus pais e avós, usando tecnologia para tudo e construindo atualizações e versões melhoradas, uma parte dela sempre vai preferir o lado nostálgico. Do mesmo jeito que pessoas hoje usam toca-fitas e walkman, no futuro pessoas vão preferir fazer as coisas do jeito antigo.

Para Canevacci, o futuro da tecnologia vai depender de um fator curioso: sexo.

— Muito do comportamento futuro será determinado pelo sexo, por como a relação entre a pornografia e a erótica vai afetar adultos e principalmente adolescentes. Isso pode afetar drasticamente a família tradicional, que hoje já vê uma quebra radical acontecendo por causa do casamento LGBT. Então o que é digital vai dividir, os pais vão tentar mais que nunca reprimir os filhos e tirá-los da internet, mas será inútil.

De acordo com o especialista, porém, que se a tecnologia for inserida na educação, é impossível que ela saia de cena.

Por outro lado, ensinar a cultura digital nas escolas será fundamental, mostras às crianças como usar a tecnologia num sentido progressivo e sem medo do futuro. Afinal, a tecnologia estará ainda mais enraizada: até as relações de poder político entre nações será mais que nunca determinado pelas descobertas aplicadas da tecno-cultura digital.

Já para Scolari, a tecnologia continuará fazendo parte do cotidiano das pessoas - como sempre aconteceu.

— Não sei do futuro, mas estou certo de que seguiremos fazendo discursos apocalípticos e relatos utópicos em relação à tecnologia. Cada vez que algo novo aparece, esses dois conjuntos discursivos não demoram para aparecer. Então é muito provável que isso continue acontecendo. O que é novo hoje, amanhã será natural e deixará de ser considerado "tecnologia". Como disse Alan Kay, "tecnologia é tudo aquilo que não existia quando você nasceu".

Resta saber o que o futuro nos reserva: se gerações saudosistas negarão a hiper conectividade do mundo e viverão uma vida offline ou se as tecnologias de hoje serão tão normais para eles - como telefones e máquinas fotográficas para nós - que será impossível separá-los do dia a dia.

* Colaborou Gustavo Ruban, estagiário do R7

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