Tecnologia e Ciência Nosso futuro tecnológico chegou: histórias geradas por inteligência artificial ganham o palco

Nosso futuro tecnológico chegou: histórias geradas por inteligência artificial ganham o palco

Palestra performática de artista norte-americana mostra como os humanos tendem a obedecer cegamente à tecnologia

The New York Times
Annie Dorsen em "Prometheus Firebringer", espetáculo inspirado na inteligência artificial em cartaz em NY

Annie Dorsen em "Prometheus Firebringer", espetáculo inspirado na inteligência artificial em cartaz em NY

Sara Krulwich/The New York Times - 14.09.2023

Sentada atrás de uma mesa simples de madeira, a encenadora Annie Dorsen não está vestida para chamar a atenção, nem dramaticamente iluminada. Em "Prometheus Firebringer", sua palestra performática focada em inteligência artificial (IA), em cartaz no Centro Polonsky Shakespeare, no Brooklyn, poderíamos presumir que ela é a parte tediosa.

À direita estão seus colegas de elenco: uma máscara gigante impressa em 3D de uma cabeça humana com telas de vídeo no lugar dos olhos e um bando de máscaras menores – rostos que parecem saídos diretamente de um filme de terror, com a boca preta arreganhada e os olhos assustadores que são janelas brancas leitosas para almas inexistentes. "Tudo isso é feito com IA. Não o que estou dizendo. Mas as outras coisas." Apontando casualmente para elas, acrescenta: "As máscaras. Sua voz. O que elas dizem."

O elemento chamativo dessa produção, apresentada pelo Theater for a New Audience, é a versão especulativa de uma parte perdida da antiga trilogia sobre Prometeu, de Ésquilo, criada mediante o uso de inteligência artificial: o GPT-3.5. Os algoritmos têm sido uma ferramenta no trabalho de Dorsen há mais de uma década, mas sua última peça coincide com a preocupação crescente com o poder da IA – até mesmo por parte de alguns que ajudaram a construí-la – e vários espetáculos atuais e futuros a utilizam e a investigam. (No próximo mês, teremos "Artificial Flavors", dos Civilians, no Teatro 59E59, e "dSimon", de Simon Senn e Tammara Leites, no Festival Crossing the Line.)

À medida que o público se acomoda para assistir a "Prometheus Firebringer", histórias roteirizadas por IA – ou melhor, variações da mesma história breve – são exibidas em uma grande tela eletrônica acima do palco. Gerado antes de cada sessão, o texto da peça a que assisti falava sobre "o deus Zeus e o titã Prometeu", como dizia uma das versões, e um "coro de crianças órfãs".

O que é preciso saber a respeito desse espetáculo é, principalmente, o início familiar da história: Prometeu, semideus astuto, roubou o fogo de Zeus e o deu à agradecida raça humana. A forma como os seres humanos aproveitam a tecnologia à sua disposição é o verdadeiro tema de "Prometheus Firebringer", no qual Dorsen se torna seu coro grego, alertando, comentando e lamentando uma tragédia do século XXI que estamos permitindo que nos acometa.

O espetáculo de 45 minutos, intercalando sua palestra bem iluminada com o fragmento especulativo da trilogia, de som robótico e iluminação sombria, é menos do que fascinante como demonstração prática de IA. O texto do GPT-3.5 na apresentação a que assisti era insosso, um truque de festa tecnológico com máscaras de ventríloquo.

A peça sem humanos é remota e inerte, inerentemente um simulacro de drama, desajeitada e sem clareza. A certa altura, me perguntei se a voz que saía da grande máscara dissera o nome Prometeu por engano, como um amador que diz o nome do personagem antes de ler a linha de diálogo.

Mas a palestra de Dorsen é vigorosamente benéfica como exame de nossa obediência à tecnologia: nossa tendência cultural de aceitá-la de joelhos, refletindo a fé de que ela não é apenas superior aos humanos, mas também inevitavelmente dominante sobre nós.

Como se os senhores da tecnologia estivessem no comando do que todos nos tornamos, independentemente de como o resto de nós se sente em relação a isso ou do que perdemos. "Uma lição da tragédia, portanto, é que conspiramos com nosso destino", diz Dorsen.

Essas palavras são verdadeiras, mas não são dela. Em um monólogo costurado inteiramente a partir de fragmentos emprestados de reflexões de outros pensadores, a frase é do livro de 2019 do filósofo Simon Critchley, Tragedy, the Greeks, and Us. É uma das muitas fontes citadas durante o espetáculo, com o nome dos autores e os títulos projetados atrás de Dorsen enquanto ela fala.

Essa é uma forma de provocação, que pode gerar a objeção de que ela está vasculhando a internet, engolindo e regurgitando esse material, emburrecendo-o e plagiando-o. Mas Dorsen está fazendo, ainda que de forma extrema, o que os artistas sempre fizeram: reunindo, coletando amostras e sintetizando para criar algo totalmente novo.

Susan Sontag, em Diante da Dor dos Outros (2003), é a fonte de Dorsen quando diz que, "mesmo na era dos cibermodelos, a mente ainda é como os antigos a imaginavam, um espaço interior – como um teatro – no qual imaginamos, e são essas imagens que nos permitem lembrar".

Devaneio teatral

Atualmente, incorporando essa noção no Here, em Manhattan, está em cartaz uma peça que parece um contraponto caloroso e pulsante a tudo que se relaciona à IA: "Autodefesa Psíquica", de Normandy Sherwood, vividamente alucinante e ricamente teatral. Os materiais promocionais a descrevem como parte de um "protetor de tela de ação ao vivo", mas é muito mais um devaneio.

Quase sem palavras, é um espetáculo com uma paisagem onírica primitiva, ambientado em um proscênio onde uma cortina se abre para revelar outra e outra e outra, uma sinfonia exuberante de texturas, padrões e cores. Atores dançam dentro de borlas gigantes, como se tivessem acabado de chegar do castelo de "A Bela e a Fera". Surgem miniaturas do cenário do proscênio e marionetes cômicas irrompem de dentro delas.

Brincalhão, bobo, provocador, bizarro, esse é um trabalho tão comoventemente humano, tão profundo na infinita estranheza da mente humana, que sua criatividade rebelde parece fora do alcance do artificial. Pelo menos espero que esteja.

A profundidade desse alcance é a preocupação de "Bioadapted", peça de Tjasa Ferme com concepção visual elegante e cuidadosamente montada, mas com excesso de elementos, no Culture Lab LIC em Long Island City, no Queens.

Assim como Dorsen, Ferme incorpora a IA na montagem de maneiras que, deliberadamente ou não, demonstram sua incompetência; uma música country, gerada com algumas sugestões do público, foi sem dúvida a mais irritante que já ouvi no gênero. Mas "Bioadapted", construída a partir de texto documental e dramático, pode fazer com que pensemos concretamente nas maneiras como a IA pode distorcer nossa percepção da realidade, vigiar nosso interior mais profundo e tomar o que nos pertence.

Tanto "Bioadapted" quanto "Prometheus Firebringer" pedem ao público que considere o que Dorsen chama de "a questão ética fundamental: saber se este é o mundo que queremos" – citando uma frase do filósofo francês Bernard Stiegler em The Age of Disruption: Technology and Madness in Computational Capitalism (2019).

Dorsen e Ferme estão nos incitando a abandonar nossa passividade, conter os excessos da IA e criar a sociedade que queremos, em vez de nos submetermos a um futuro tecnológico sombrio que presumimos ser inevitável. "Enquanto houver tempo, é tempo de cuidar", afirma Dorsen, citando o escritor sueco Axel Andersson. E ele está certo.

c. 2023 The New York Times Company

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