Autoridades do Egito dizem que tiros só mataram jovem manifestante porque ela era muito magra
Mulher de 31 anos levou tiros de balas de chumbo em janeiro; país vive uma ditadura
Internacional|Do R7

A nova ditadura do Egito, sob o comando do presidente presidente Abdel Fattah al-Sisi explicou, no último sábado (21), que a morte da poeta e ativista Shaimaa el-Sabbagh, atingida por tiros de uma espingarda de chumbo, foi causada pelo fato dela ser muito magra. As informações são do jornal The New York Times, em artigo de David D. Kirkpatrick.
Shaimma morreu em 24 de janeiro, véspera do aniversário da Primavera Árabe no país. Ela participava de uma marcha que chegou à praça Tahir, no Cairo, e iria deixar uma coroa de flores no local, em homenagem às vítimas da onda de manifestações que tirou do poder o ex-presidente Hosni Mubarak.
Antes mesmo de chegarem à praça, os manifestantes foram recebidos com tiros de espingarda de chumbo e bombas de gás lacrimogêneo. Segundo o porta-voz do serviço médico legal egípcio, Hisham Abdel Hamid, trata-se de um caso raro, mas Shaimma não teria morrido, segundo ele afirmou, se não fosse tão magra.
— O corpo dela era só pele e osso, como se diz. Ela era muito fina. Ela não tinha qualquer percentual de gordura. Assim, as pequenas balas penetraram com muita facilidade, e quatro ou cinco delas foram capazes de penetrar no coração e nos pulmões, e foi por isso que ela morreu.
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A imagem da moça, de 31 anos, sendo carregada por um dos manifestantes acabou se tornando um símbolo da violência policial e militar que vem ocorrendo no país desde 2013, quando al-Sisi, em um golpe militar, recolocou o Egito sob o regime de ditadura.
Mas Hamid preferiu atribuir a culpa à falta de peso da manifestante. Segundo ele, se ela fosse mais encorpada, teria sobrevivido. Como exemplo, ele citou um outro manifestante, menos magro, segundo ele, que recebeu a mesma quantidade de tiros e não morreu.
— Shaimaa el-Sabbagh, de acordo com a ciência, não deveria ter morrido.
Segundo ele, a maior parte dos tiros foram nas costas, mas dois atingiram o lado esquerdo do rosto, a uma distância de cerca de oito metros.
— Foi desejo o Senhor, era hora dela.
A explicação foi motivo de deboche para a Human Rights Watch. A ativista Sarah Leah Whitson colocou o foco no governo.
— Esses tipos de afirmações ridículas apenas adicionam uma grossa camada de absurdo para o histórico sem fim de assassinatos e impunidade do governo.
Mas a repercussão das imagens obrigou o presidente al-Sisi a exigir uma investigação. Um promotor encaminhou o policial para o tribunal criminal, uma ação rara contra a força de segurança do país.
Em outro caso semelhante, promotores denunciaram um policial por espancamento que resultou em morte, o que o enquadrou no crime de homicídio culposo.
Mas a pena é a mesma recebida por manifestantes, como os desta passeata, que organizam reivindicações públicas sem a autorização do governo, conforme a rígida legislação imposta em 2013.










