Como funcionava o esquema de R$ 7,6 bilhões que prendeu deputado e delegado no RJ
PF investiga lavagem de dinheiro por rede de combustíveis; dinheiro seria distribuído entre integrantes de núcleo político
Brasília|Luiza Marinho*, do R7, em Brasília
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A investigação que levou à prisão de Márcio Canella, deputado estadual eleito pelo União Brasil e ex-prefeito de Belford Roxo, e do delegado Marcus Amim, ex-secretário estadual de Polícia Civil do Rio de Janeiro, busca esclarecer como funcionava o caminho do dinheiro em um suposto esquema de lavagem de capitais que movimentou mais de R$ 7,6 bilhões em seis anos.
Segundo as apurações da Polícia Federal, a organização utilizava uma rede de postos de combustíveis, empresas de fachada e pessoas interpostas para ocultar a origem dos recursos e distribuir valores entre integrantes do grupo.
As prisões foram determinadas pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), e ocorreram nesta quinta-feira (15), durante a Operação Unha e Carne 8, deflagrada pela PF.
Como funcionava
O esquema tinha como ponto de partida uma rede com mais de 20 postos de combustíveis, lojas de conveniência e distribuidoras, concentrados principalmente em Niterói, São Gonçalo e na Região dos Lagos.
Embora os estabelecimentos estivessem formalmente registrados em nome de terceiros, a partir da atividade comercial, os recursos passariam por uma estrutura destinada a dificultar a identificação de seus verdadeiros proprietários.
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Entre os mecanismos investigados estão o uso de pessoas interpostas, empresas sem estrutura operacional compatível com as transações e transferências sucessivas entre negócios ligados ao mesmo grupo.
Um dos exemplos citados na investigação é o de Luana Oliveira, que figurava formalmente como sócia de empresas e postos. Segundo os dados levantados, ela declarou renda formal de R$ 1.800 até 2021, mas movimentou mais de R$ 60 milhões em contas pessoais.
Outra estratégia sob apuração envolvia a emissão de notas fiscais sem a correspondente prestação de serviços.
A investigação também identificou transferências sucessivas entre empresas vinculadas ao mesmo grupo familiar. Esse tipo de circulação, conhecido como lavagem por circularidade, pode dificultar o rastreamento da origem dos recursos.
Recursos públicos
A PF também apura o possível desvio de recursos provenientes de contratos públicos municipais. Uma das frentes envolve uma empresa que teria recebido valores de contratos com a Prefeitura de Magé e repassado a maior parte dos recursos a pessoas apontadas como integrantes da estrutura criminosa.
Em Belford Roxo, os investigadores também buscam esclarecer contratos milionários mantidos com empresas ligadas a operadores financeiros do esquema.
O objetivo é esclarecer se recursos públicos foram incorporados ao circuito financeiro investigado e se houve participação de agentes públicos nas operações.
Outras suspeitas
Uma das frentes mais sensíveis da investigação é a suspeita de que parte do dinheiro fosse destinada a agentes políticos, policiais e outros servidores públicos para garantir proteção ao grupo.
Canella é apontado nas apurações como possível articulador político da organização. Anotações apreendidas fariam referência a repasses sob as assinaturas “Canela” ou “Canella”.
No núcleo institucional, Marcus Amim, ex-presidente do Detran-RJ e ex-secretário estadual de Polícia Civil, e o delegado Glaucio Paz, que o sucedeu no departamento, são citados nas apurações sobre pagamentos sistemáticos. Os registros também mencionariam transferências associadas a postos de combustíveis.
A apuração ainda menciona policiais que, segundo os registros investigados, teriam participação oculta nos lucros de postos, além de suspeitas de pagamentos a servidores de órgãos de defesa do consumidor e de fiscalização.
Próximos passos
Uma das prioridades da investigação é a perícia de celulares, computadores, servidores, mídias físicas e arquivos armazenados em nuvem apreendidos durante as buscas. A análise poderá revelar comunicações, registros de pagamentos e possíveis vínculos ainda não identificados.
A PF também deverá interrogar os investigados e ouvir outros agentes públicos e terceiros que possam ter sido cooptados para viabilizar as atividades do grupo ou fornecer informações sigilosas.
O STF também determinou a abertura de procedimentos separados para aprofundar suspeitas relacionadas a outras atividades criminosas no Rio de Janeiro. Entre os pontos a esclarecer estão possíveis conexões com o Comando Vermelho, o TPC (Terceiro Comando Puro), milícias e redes ligadas ao jogo do bicho.
A investigação busca esclarecer se essas ramificações mantinham relações financeiras ou operacionais com a rede de combustíveis e se os recursos movimentados pelo grupo financiavam outras atividades ilícitas.
*Estagiária do R7, sob supervisão de Augusto Fernandes, editor-chefe.
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