Justiça Federal vai analisar caso da desocupação de famílias em área da família Caiado
Após pedido do Incra por investigação de terras que podem ser quilombolas em Goiás, processo de fica suspenso
Brasília|Yumi Kuwano, do R7, em Brasília

O processo que determinou a desocupação de famílias na comunidade de Antinha de Baixo (GO) foi remetido à Justiça Federal após o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) argumentar que a área passa por processo de titulação como território quilombola.
Por isso, o instituto solicitou formalmente à AGU (Advocacia-Geral da União) que ingresse na Justiça a favor da comunidade localizada em Santo Antônio do Descoberto, em Goiás, no entorno do Distrito Federal.
Após o pedido, a 1ª Vara Cível da Comarca de Santo Antônio do Descoberto determinou a remessa do processo para a Justiça Federal.
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O objetivo é suspender a liminar de desocupação que provocaria a saída de mais de 1,6 mil pessoas para que três herdeiros assumissem as terras — um deles, a tia do governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil), já falecida, portanto a propriedade ficaria com o filho, o empresário Murilo Caiado.
Agora, a Justiça irá decidir se o argumento é juridicamente suficiente para o caso permanecer em sua competência.
Ameaças
Apesar da decisão favorável aos moradores nesta terça-feira (5), várias famílias perderam suas casas.
Moradores da comunidade relatam que a ação, que começou logo no início da manhã desta segunda (4), teve uso de tratores e forte presença da Polícia Militar de Goiás (PMGO).
Somente 16 famílias, consideradas em situação de vulnerabilidade, não tiveram suas casas demolidas. A operação contou também com a presença do Corpo de Bombeiros (CBMGO) e da Defensoria Pública do Estado de Goiás (DPE-GO).
“Foi feita a desocupação de 32 casas [ontem]. Aí hoje eles colocaram um novo mapa pegando mais 84 casas”, conta um morador, que prefere não ser identificado.
Ele ainda conta que as pessoas envolvidas na desocupação estão indo para a região, mesmo após a suspensão, e alguns moradores chegaram a ser ameaçados.
Em nota, o governo de Goiás afirmou que a Polícia Militar, o Corpo de Bombeiros e demais instituições estaduais atuam com absoluto respeito às decisões judiciais e cabe ao Estado “apenas o cumprimento dessas determinações, em estrita obediência ao que foi estabelecido pelo Poder Judiciário”.
O TJGO (Tribunal de Justiça de Goiás) informou que as 16 famílias identificadas como vulneráveis, com base em critérios objetivos, não serão retiradas agora, e que as famílias vulneráveis serão realocadas para moradias provisórias.
A seleção das famílias em situação de vulnerabilidade foi realizada com base no trabalho técnico da Comissão de Soluções Fundiárias.
“Foram utilizados critérios objetivos relacionados à hipossuficiência, como a inexistência de outro local para moradia e o recebimento (ou não) de benefícios sociais concedidos pelo poder público. A juíza responsável considerou esse levantamento adequado e suficiente para fins de classificação”, dizia o texto.
Imbróglio
O processo envolvendo familiares de Ronaldo Caiado, que alegam ser herdeiros de um trecho das terras, tramita desde a década de 1945. Maria Paulina Boss, tia do governador, ingressou com uma ação e teve decisão favorável.
O processo de desocupação só começaria há 10 anos, mas os moradores conseguiram recursos para evitar as desocupações. Anos depois, o juiz Breno Boss Caiado, filho de Maria Paulina, atuou no processo até 2023, quando se tornou desembargador.
A responsável por dar continuidade ao processo foi a juíza Ailime Martins, indicada por Breno, que assinou a decisão de desocupação da área.
A reportagem entrou em contato com o TJGO e com a Asmego (Associação dos Magistrados do Estado de Goiás) para ouvir o desembargador, mas não conseguiu contato com Breno Caiado.
Segundo a deputada federal Erika Kokay (PT-DF), que atua para evitar a desocupação dos moradores, o processo é cheio de irregularidades.
“Muitos aspectos formais que não foram cumpridos e se existe suspeita de que seja um território quilombola, isso tem que ser suspenso e verificado”, diz.
De acordo com ela, foram realizadas audiências públicas na Câmara Municipal de Santo Antônio do Descoberto, visitas à comunidade e reuniões com a Fundação Palmares para tratar da questão.
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