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Nova investigação dos EUA pode aumentar pressão sobre exportações do Brasil

Estados Unidos vão fazer apuração sobre o Brasil e mais 59 países para avaliar entrada de produtos feitos com trabalho forçado

Brasília|Mariana Saraiva, do R7, em Brasília

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Os EUA iniciam investigação sobre o Brasil e outros 59 países a respeito de produtos feitos com trabalho forçado.
  • A presença do Brasil na apuração pode aumentar a insegurança comercial e afetar decisões de compra de empresas americanas.
  • A investigação não impõe punições imediatas, mas gera risco reputacional e pode levar a exigências maiores de rastreabilidade.
  • Setores como agropecuária e mineração estão mais vulneráveis a consequências caso a investigação avance para medidas concretas.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

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Apuração dos EUA pode ampliar fiscalização sobre produtos brasileiros Daniel Torok/Official White House Photo - 26.10.2025

Especialistas em comércio internacional avaliam que a nova investigação aberta pelos Estados Unidos sobre possíveis produtos feitos com “trabalho forçado” pode gerar aumento da insegurança comercial para exportadores brasileiros, pressão sobre cadeias produtivas e até risco de sanções no futuro.

Embora a medida ainda não imponha punições imediatas, analistas alertam que o simples fato de o Brasil aparecer na apuração já pode afetar decisões de compra de empresas americanas e ampliar o escrutínio internacional sobre determinados setores da economia.


A investigação foi anunciada na quinta-feira (12) pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês). O governo americano decidiu abrir um procedimento comercial contra a União Europeia e outros 59 países, entre eles o Brasil, para avaliar se esses mercados permitem a entrada de produtos produzidos com trabalho forçado, o que poderia representar concorrência desleal para empresas dos EUA.

Para especialistas, o impacto mais imediato para o Brasil não deve ser uma tarifa automática, mas o aumento da insegurança no ambiente comercial.


O internacionalista João Alfredo Nyegray afirma que o principal efeito inicial tende a ser a perda de previsibilidade para exportadores brasileiros. Segundo ele, “a investigação não impõe automaticamente uma penalidade, mas cria um procedimento formal que pode servir de base para novas medidas restritivas”.

O risco é relevante porque os Estados Unidos são um dos principais parceiros comerciais do Brasil. Em 2025, o comércio bilateral de bens chegou a cerca de US$ 82,8 bilhões, com quase US$ 37,7 bilhões em importações americanas de produtos brasileiros, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.


Nesse contexto, Nyegray alerta que “qualquer elevação de risco regulatório pode afetar decisões de compra, contratos, seguros e a disposição de importadores americanos em manter fornecedores brasileiros expostos a escrutínio adicional”.

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Pressão sobre cadeias produtivas

Outro ponto sensível é o impacto reputacional da investigação. A menção a produtos feitos com trabalho forçado pode gerar pressão internacional sobre cadeias produtivas brasileiras, mesmo antes de qualquer sanção.


De acordo com Nyegray, “o rótulo passa a circular em relatórios, audiências e cobertura internacional, ampliando o risco reputacional para o país”. Na prática, isso pode levar empresas estrangeiras a exigir mais rastreabilidade e auditorias nas cadeias de produção.

Ele ressalta que o Brasil possui instrumentos de combate ao trabalho análogo à escravidão, como a chamada “lista suja”, mas isso não elimina as preocupações do mercado internacional. “Para investidores e compradores internacionais, a existência de fiscalização doméstica não encerra o assunto. Ela pode até reforçar a percepção de que existem focos reais de risco em determinadas cadeias produtivas”, afirma.

O advogado especialista em direito internacional Daniel Toledo também vê um impacto direto na imagem do país. Para ele, “mesmo antes de qualquer sanção, o simples fato de o Brasil aparecer numa investigação ligada a trabalho forçado já cria desgaste reputacional”.

Segundo Toledo, isso tende a gerar novas exigências por parte de empresas estrangeiras. “Grandes compradores internacionais estão cada vez mais atentos a compliance, rastreabilidade e due diligence em direitos humanos”, explica.

Risco de tarifas e restrições

Embora a investigação ainda esteja em fase inicial, especialistas destacam que a legislação americana permite a adoção de medidas comerciais concretas caso Washington conclua que há práticas prejudiciais ao comércio dos EUA.

“As medidas possíveis incluem suspensão de concessões comerciais, imposição de tarifas, restrições à importação e até taxas sobre serviços do país investigado”, explica Nyegray.

Na mesma linha, Toledo reforça que o risco de sanções existe, embora não seja automático. Ele acrescenta que esses processos também funcionam como instrumento de pressão política e econômica. “Muitas vezes a investigação serve para forçar ajustes regulatórios ou concessões comerciais antes mesmo da aplicação de sanções”, diz.

Setores mais vulneráveis

Caso a investigação avance para medidas concretas, alguns setores da economia brasileira podem ser mais afetados.

Segundo Nyegray, áreas com cadeias produtivas longas ou historicamente associadas a riscos trabalhistas tendem a sofrer maior fiscalização. “Agropecuária, agroindústria, madeira, mineração, têxteis e calçados aparecem como setores mais vulneráveis ao escrutínio regulatório e reputacional”, afirma.

Toledo acrescenta que setores com forte presença no mercado americano também podem sentir os efeitos rapidamente. “Entre os mais expostos estariam cadeias do agronegócio, produtos florestais, siderurgia e alguns segmentos industriais que dependem fortemente do comércio exterior”, explica.

Estratégia global de Washington

Apesar da inclusão do Brasil na investigação, especialistas destacam que o país não é o único alvo. A lista inclui dezenas de parceiros comerciais relevantes, como União Europeia, China, Japão, Canadá, Reino Unido e Índia.

Para Nyegray, essa amplitude indica uma estratégia mais ampla da política comercial americana. “A investigação não singulariza o Brasil. Trata-se de uma ofensiva sistêmica para exportar o padrão regulatório dos Estados Unidos e reconstruir instrumentos de pressão comercial”, afirma.

Toledo concorda e destaca que o alcance global pode reduzir parte da pressão direta sobre o Brasil. “Quando os Estados Unidos ampliam esse tipo de investigação para dezenas de parceiros comerciais ao mesmo tempo, o caso passa a fazer parte de uma estratégia comercial mais ampla de Washington”, diz.

Espaço para negociação

A investigação ainda terá várias etapas antes de uma decisão final. O processo prevê consultas com os países investigados, envio de comentários e audiências públicas previstas para o próximo mês.

Segundo Nyegray, isso abre uma janela de negociação. “Existe espaço para que o Brasil apresente evidências de fiscalização interna e argumentos técnicos para tentar reduzir o risco de medidas mais duras”, afirma.

Toledo também avalia que o caminho inicial tende a ser diplomático. “Normalmente o governo brasileiro atua em duas frentes: uma técnica, com argumentos econômicos e jurídicos, e outra diplomática, tentando evitar que a investigação evolua para uma guerra comercial”, diz.

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