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R7 Brasília

Tirar alimentos e energia da Selic é ‘maquiar’ inflação e ‘tapar sol com peneira’, veem especialistas

Sugestão para alterar cálculo da taxa básica de juros foi feita por Alckmin nessa segunda; vice-presidente usou EUA como exemplo

Brasília|Ana Isabel Mansur, do R7, em Brasília


Especialistas ouvidos pelo R7 avaliam que desconsiderar o custo dos alimentos e da energia nos cálculos da taxa básica de juros, a Selic, não diminuiria a inflação do país — que alcançou, em fevereiro, o maior índice desde março de 2022 (entenda mais abaixo). A sugestão foi feita pelo vice-presidente Geraldo Alckmin nessa segunda-feira (24), dias após o Banco Central elevar a Selic para 14,25%, o maior nível desde 2016. Alckmin, que também é ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, é o presidente em exercício até o fim do mês, quando Luiz Inácio Lula da Silva retorna de viagem à Ásia.

Na avaliação de economistas e consultores, as alterações serviriam apenas para “tapar o sol com a peneira” e “maquiar” os dados a fim de levar a uma queda artificial dos preços.


O economista Hugo Garbe destaca que aderir à sugestão de Alckmin seria mudar as regras para ganhar o jogo. “É só uma forma de maquiagem. A inflação está alta, já superou a meta. Então, seria a forma que eles encontraram para reduzir a estatística, mas a inflação na economia real continuaria alta”, observa.

O advogado especialista em direito empresarial Marcelo Godke, pondera que a inflação considera a variação de preços de diversos fatores, como moradia, vestimento, educação e transporte. No entanto, o sócio do Godke Advogados avalia que a comparação com os EUA deve ser feita de forma cautelosa.


“A depender da situação, em tese, alimentos e energia poderiam ser excluídos [do cálculo da inflação]. Mas, quando a gente faz uma comparação direta com o que acontece nos Estados Unidos, a gente tem que tomar muito cuidado, porque na cesta que compõe o padrão de consumo ou de necessidade do brasileiro, os alimentos e a energia compõem um fator muito mais importante do que nos Estados Unidos”, observa, ao afirmar que desconsiderar os fatores do cálculo seria “manipular indevidamente” os resultados.

“Honestamente, nos Estados Unidos, tem gente que critica a exclusão de alimento e energia da inflação, não é algo feito sem crítica, porque pode não refletir a realidade da vida americana. E no Brasil vai ser pior ainda”, continua Godke, ao criticar a elevação das despesas públicas.


“O grande problema é o gasto governamental que está desenfreado hoje em dia, e a inflação vai se manter alta, independentemente de alimento e energia. Se eu manipulo o índice de inflação e não subo a taxa Selic para cobrir a inflação e conter o surto inflacionário que vai acontecer, eu vou ter inflação do mesmo jeito, apesar de não aparecer no índice. Então, tem que tomar muito cuidado e isso tem que ser feito de maneira muito pensada. Se essa é uma pretensão do vice-presidente, ele deveria explicar como será feita essa exclusão, porque a há mais de um índice de inflação, pode ser de todo e qualquer índice”, completa.

Déficit público

O coordenador do MBA em digital banking e gestão pública da Trevisan Escola de Negócios, Acilio Marinello, avalia que a sugestão de Alckmin expõe o governo ao demonstrar falhas na administração das despesas públicas.


“Em linhas gerais, mostra que o governo não está conseguindo articular dentro das Casas [Câmara e Senado] para aprovar as medidas necessárias, mas, principalmente, nas ações práticas na redução dos cortes das despesas”, comenta Marinello, que também é sócio-fundador da consultoria Essentia.

“As ações que estão sendo propostas pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que é o trâmite de toda a reforma tributária e dos ajustes no cálculo do Imposto de Renda, de reduzir a carga para as pessoas que ganham menos e começar a tributar os mais ricos, não tratam do problema real, que é o déficit público”, completa.

Realidades diferentes

O consultor acredita que, enquanto as despesas não forem reduzidas, a pressão sobre a inflação não vai ceder. Marinello aponta, ainda, que a comparação com os EUA usada por Alckmin não se adequa à realidade brasileira.

“São economias, dinâmicas e malhas energéticas completamente diferentes. O vice-presidente não mencionou que o custo da energia é caro para o brasileiro não por fatores externos, mas por uma malha de distribuição ineficiente e obsoleta”, destaca, ao mencionar que o custo da geração de energia no Brasil, em si, não é elevado.

“A distribuição é caríssima porque o sistema é ineficiente, antigo, vive tendo problemas de queda, os equipamentos são antigos. Então, a operação é cara por isso, não tem nada a ver com o conceito da cultura americana”, acrescenta.

Sobre desconsiderar a inflação dos alimentos no cálculo da Selic, Marinello observa que a justificativa de Alckmin não é de toda sem sentido. No entanto, o consultor volta ao argumento de “remediar o problema principal”.

“Tirar essas duas variáveis [energia e alimentos da Selic] é querer tapar o sol com a peneira. São gastos que toda a população sente, principalmente os mais pobres. Então, querer tirar isso para camuflar uma inflação irreal para que o Banco Central ceda e abaixe a taxa básica de juros para movimentar a economia não é o caminho. O caminho é o governo gastar menos. Os esforços deveriam ser para articular politicamente para reduzir os gastos públicos. Isso, sim, vai ajudar a abaixar a inflação e a taxa básica de juros”, completa o consultor.

Declarações de Alckmin

Em evento nessa segunda, o vice-presidente sugeriu que o BC altere a forma de calcular a Selic. Na avaliação dele, o índice elevado encarece o custo de capital, o que interfere na economia.

“Alimento é muito clima. Se eu tenho uma seca muito forte, uma alteração climática muito grande, vai subir o preço de alimento. E não adianta eu aumentar os juros que não vai fazer chover. Então, eu só vou prejudicar a economia”, declarou, ao citar os Estados Unidos.

“Então, eles [EUA] excluem do cálculo [inflação dos alimentos e energia]. Eu acho que é uma medida inteligente, e a gente realmente [pode] aumentar os juros naquilo que pode ter mais efetividade na redução da inflação”, afirmou Alckmin, ao defender que a redução da inflação é “essencial”.

“A inflação não é neutra socialmente, ela não é neutra, ela atinge muito mais o assalariado, que tem reajuste, normalmente, uma vez por ano e vê todo mês, todo dia, o seu salário perder o poder aquisitivo. Então, entendo, sim, que é uma medida que deve ser estudada pelo Banco Central brasileiro”, completou.

Inflação e Selic

O IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), que mede a inflação no Brasil, ficou em 1,31% em fevereiro, como mostrou o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), puxado, principalmente, pelo custo da energia. É o maior resultado desde março de 2022, quando o índice alcançou 1,62%. O dado foi, ainda, o mais elevado para o mês de fevereiro desde 2003.

A inflação acumulada em 12 meses está em 5,06% — índice acima de 3%, teto estabelecido pelo Banco Central, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos. A Selic é o principal meio usado pelo BC para alcançar a meta de inflação.

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