Logo R7.com
RecordPlus

Apesar de R$ 200 bilhões para obras, infraestrutura vai piorar no Brasil

Produção e demanda vai aumentar 40% nos próximos 20 anos, mas pouco vai mudar na forma como transportamos as mercadorias

Economia|Diego Junqueira, do R7

  • Google News

Adicione como fonte preferencial no Google

Opens in new window
Brasil vai continuar dependente de caminhões por no mínimo mais 20 anos
Brasil vai continuar dependente de caminhões por no mínimo mais 20 anos

Os quase R$ 200 bilhões previstos pelo governo brasileiro para investir em rodovias, ferrovias e hidrovias são insuficientes para melhorar o transporte de cargas no país no curto prazo. Pelo contrário: até 2025, a infraestrutura vai piorar no Brasil.

O diagnóstico é de um dos principais especialistas em transporte e logística do Brasil, Paulo Resende, coordenador do Núcleo de Logística, Infraestrutura e Supply Chain da Fundação Dom Cabral (FDC).


— Mesmo se as obras previstas ficarem prontas, elas são absolutamente insuficientes para a necessidade brasileira. O cenário em 2025 chega a ficar pior. Nós precisamos mais e no longo prazo.

Leia também

A Fundação Dom Cabral lançou nesta quinta-feira (21) a Plataforma de Infraestrutura em Logística de Transportes, que pretende se tornar a primeira base de dados em tempo real do Brasil cruzando informações sobre investimentos em logística e os esperados impactos sobre o transporte de cargas e mercadorias.


Para prever a situação brasileira em 2025, a ferramenta levantou as principais obras do país e considerou que todas elas serão entregues no prazo determinado. Mesmo com esse cenário “otimista”, a equipe de Resende concluiu que as estradas vão piorar, os modais ferroviário e hidroviário ganharão pouca participação e os custos logísticos, de modo geral, vão aumentar.

“O transporte de cargas só melhora no Brasil se a economia não crescer”, ironiza Resende.


Um olho no hoje e outro no amanhã

A previsão de investir R$ 200 bilhões em infraestrutura foi anunciada pelo governo federal em junho de 2015, durante o lançamento da segunda fase do Plano de Investimento em Logística (PIL).


A expectativa era investir R$ 69,2 bilhões até 2018 e R$ 129,2 bilhões a partir de 2019, sendo R$ 86,4 bilhões para ferrovias, R$ 66,1 bilhões para rodovias, R$ 37,4 bilhões para portos e hidrovias e R$ 8,5 bilhões no setor aeroportuário.

O problema, explica Resende, é que a demanda vai aumentar 40% nas próximas duas décadas, mas pouco vai mudar a forma como atualmente transportamos as mercadorias.

Se atualmente 52,7% das cargas viajam em cima de caminhões, em 2025 e 2035 vai continuar acima de 50% — e com um agravante: o estudo da FDC mostra que mais da metade das estradas brasileiras estarão em condições inaceitáveis nos próximos 20 anos.

Já a participação das ferrovias vai passar de 27,2% para pouco mais de 30%, enquanto o transporte por hidrovias e cabotagem vai reduzir um pouco, mas continuar entre 16% e 17%.

A resposta mais repetida para mudar esse cenário é elevar os investimentos em ferrovias e hidrovias. No entanto, diz Resende, o Brasil vai continuar dependente das rodovias no mínimo por mais 20 anos, o que exige investimentos contínuos em estradas no curto prazo, assim como a diversificação dos modais no longo prazo.

— A produção brasileira está caminhando para o interior, principalmente com o granel agrícola e a mineração, mas o transporte está concentrado próximo ao litoral, então o que vemos é um vazio de ferrovias. E os eventos recentes mostram que não se pode desrespeitar o modal rodoviário. Não podemos romper esse fluxo, sob risco de danos à economia. Mas precisamos ter um olho no curto prazo (rodovias) e outro no longo prazo (ferrovias e hidrovias).

Para o professor, a diversificação é a saída para diminuir a pressão de custos. O cenário ideal é transportar por estradas as cargas de alto valor agregado e baixo peso e, pela via férrea, mercadorias pesadas e de baixo valor.

Se isso não acontecer, caminhoneiros e transportadoras continuarão vendo suas margens de lucro reduzidas, com impactos sobre o preço do frete.

— É preciso parar de apresentar o Brasil como paraíso de investimentos, mas como paraíso da demanda, e com um purgatório de coisas para fazer.

Últimas


Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com oAviso de Privacidade.