Brasil está entre os países que mais trabalham e menos distribuem renda no continente
País ocupa 4º lugar em horas trabalhadas e tem o 2º maior índice de desigualdade da América do Sul
Economia|Giovana Cardoso, do R7, em Brasília
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Entre os países sul-americanos, o Brasil está no grupo dos que mais trabalham e também dos mais desiguais. Os brasileiros acumulam, em média, 1.994 horas de trabalho por ano, a quarta maior jornada do continente, enquanto o país ocupa a segunda posição no ranking regional de desigualdade de renda, segundo dados da Our World in Data.
Especialistas ouvidos pelo R7, contudo, divergem sobre o que esse dado revela em relação à desigualdade social. Enquanto alguns economistas afirmam que não há uma relação direta e comprovada entre jornadas mais longas e maior concentração de renda, outros avaliam que países mais desiguais tendem a reunir trabalhadores em empregos de baixa produtividade e salários menores, o que frequentemente exige mais horas de trabalho para complementar a renda.
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De acordo com os números da Our World in Data, projeto desenvolvido em parceria com a Universidade de Oxford, o Brasil fica atrás da Colômbia (2.471 horas), do Peru (2.143 horas) e do Paraguai (2.123 horas) na jornada anual de trabalho.
A Our World in Data também mostra que o Brasil tem um Índice de Gini — indicador que mede a concentração de renda em uma escala de 0 a 1, na qual números mais altos representam maior desigualdade — de 0,50, menor apenas que o da Colômbia, que registrou 0,54.

O que dizem especialistas?
Na visão do economista Rafael Richter, a relação entre desigualdade e horas trabalhadas não está consolidada na literatura. Ele aponta que existem economias menos desiguais que o Brasil com jornadas médias maiores, como a China.
“Nesse sentido, a desigualdade talvez pese mais dentro de cada país do que na comparação entre países. Trabalhadores de renda mais baixa tendem a trabalhar mais horas para complementar a renda e manter condições básicas de vida”, explica.
Para o especialista, a desigualdade é especialmente prejudicial quando impede que as pessoas desenvolvam plenamente seu potencial. No Brasil, a baixa mobilidade social afeta a capacidade de aumentar a produtividade a longo prazo e a quantidade de renda gerada.
“Os dados vêm apontando que países mais ricos e mais produtivos tendem a trabalhar menos horas. Isso acontece porque ganhos de produtividade permitem gerar mais riqueza em menos tempo de trabalho. Em parte, essa também é a diferença entre o Brasil e alguns vizinhos latino-americanos, que nas últimas décadas conseguiram avanços de produtividade mais consistentes do que os observados na economia brasileira”, conclui.
Por outro lado, o economista Natale Papa entende que os dois aspectos estão relacionados, principalmente pelo fato de países mais igualitários terem a tendência de combinar maior produtividade com melhores salários e jornadas mais eficientes.
“Em países mais desiguais, como o Brasil, muitas pessoas precisam trabalhar mais horas ou ter múltiplas fontes de renda para complementar o orçamento. Ao mesmo tempo, empregos de baixa produtividade normalmente pagam salários menores. Isso cria um ciclo em que grande parte da população trabalha muito, mas com baixa geração de valor e pouca mobilidade social”, afirma.
PEC do fim da escala 6x1
A discussão sobre as condições de trabalho no Brasil ganhou força em meio à votação do fim da escala 6x1 no Congresso Nacional.
Uma PEC (proposta de emenda à Constituição) que reduz a jornada de trabalho e obriga dias de descanso remunerado por semana foi aprovada pela Câmara dos Deputados na semana passada e agora aguarda análise do Senado.
A PEC diminui a carga semanal de trabalho de 44 para 40 horas semanais, sem redução salarial.
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