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Como lidar com o trauma financeiro

Um quarto (25%) dos americanos relataram sintomas de estresse pós-traumático decorrentes de dificuldades financeiras

Economia|Do R7

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Trauma envolvem pensamentos negativos e ansiedade
Trauma envolvem pensamentos negativos e ansiedade

Rahkim Sabree é proprietário de uma casa em Hartford, Connecticut, faz investimentos e tem dinheiro na poupança. Mas isso nem sempre é suficiente para que ele se sinta seguro. Por menores que sejam, despesas inesperadas lhe causam preocupação. "Fico muito ansioso quando tenho de gastar dinheiro", disse Sabree, de 33 anos, coach e consultor financeiro. Essa ansiedade muitas vezes o leva a adiar despesas necessárias, como comprar sapatos novos ou fazer reparos domésticos.

Durante a adolescência, Sabree, que é negro, vivia com a família em uma moradia subsidiada e dependia de auxílio do governo para comprar alimentos. "Quando as coisas se tornaram realmente difíceis, ficamos sem eletricidade e água." Mais de uma vez, quase foram despejados. Ele comentou que era constrangedor encontrar um aviso de despejo na porta.


Essas experiências moldaram sua forma de gastar e economizar dinheiro. Segundo Sabree, sentir-se no controle de suas finanças lhe dá uma sensação de paz. Mas, quando esse controle é perdido, a ansiedade se instala. "Parece que alguma coisa está acontecendo comigo, em vez de eu fazer alguma coisa acontecer."

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Experiências como a dele podem levar ao que os psicólogos financeiros chamam de "trauma financeiro" – resposta emocional intensa e duradoura a dificuldades financeiras atuais ou passadas, explicou Alex Melkumian, psicólogo e fundador do Centro de Psicologia Financeira, em Los Angeles. O trauma financeiro pode causar pensamentos negativos, flashbacks e ansiedade – sintomas semelhantes aos do transtorno do estresse pós-traumático, ou TEPT. Ao contrário do estresse cotidiano, o trauma não apresenta altos e baixos, o que acaba prejudicando o relacionamento com o dinheiro, disse Thomas Faupl, terapeuta financeiro de San Francisco.


Ao contrário do TEPT, o trauma financeiro não é um diagnóstico de saúde mental e, por isso, geralmente é negligenciado por consultores financeiros e terapeutas. Faupl observou que muita gente ignora que experiências assustadoras envolvendo dinheiro podem prejudicar sua saúde financeira e psicológica. No entanto, uma pesquisa de 2016 constatou que 25% dos americanos, incluindo 36% da geração Y (os millenials), relataram sintomas de TEPT decorrentes de dificuldades financeiras.

Reconheça os sinais do estresse

Segundo Melkumian, um sinal revelador do trauma financeiro é quando alguém passa a evitar qualquer envolvimento com o dinheiro. Em outras palavras, algumas pessoas traumatizadas podem se recusar a organizar as contas, abrir boletos ou discutir suas finanças.


Deixar de gastar quando seria necessário também é um exemplo desse comportamento evasivo. Por exemplo, Sabree costumava atribuir seu comportamento a seu estilo de vida simples. Mas percebeu que, diversamente de fazer um pé-de-meia, suas escolhas às vezes eram motivadas pelo desejo de evitar um novo contato com a pobreza.

Qualquer experiência dolorosa que envolva dinheiro pode gerar insegurança, afirmou Aja Evans, terapeuta financeira da cidade de Nova York, o que frequentemente leva a pensamentos negativos como "Jamais vou ter dinheiro que chegue" ou "Nunca vou ser bom com dinheiro".

Gastos excessivos também podem ser um indicador de trauma financeiro. Ao gastar em excesso na vida adulta, alguém pode tentar compensar uma sensação de privação na infância. Por exemplo, dilapidar todas as economias em uma viagem de férias, comer fora com muita frequência ou torrar todo o dinheiro em compras on-line.

A empresária de 40 anos Chantel Chapman, que vive em Richmond, na Colúmbia Britânica, costumava ter esse comportamento esbanjador. Contou que, durante quase uma década, comprou presentes e roupas e pagou por jantares que não tinha como honrar, o que a deixou com quase US$ 10 mil em dívidas de cartão de crédito, US$ 10 mil em dívidas fiscais e prejudicou suas economias.

Assim como Sabree, Chapman cresceu sem segurança financeira. Mas, enquanto o trauma financeiro de Sabree o tornou econômico, o de Chapman resultou em gastos excessivos. "Eu tinha uma relação desequilibrada com o dinheiro", disse ela. Chapman explicou que tinha medo de se endividar, mas que o desejo de pertencer a um grupo mais rico fazia com que gastasse além de suas possibilidades. "O trauma me transformou em alguém que tenta constantemente agradar às pessoas. Eu achava que tinha de ter certa aparência para ser aceita."

Identifique os gatilhos

Qualquer pensamento, sentimento ou lembrança associado ao trauma pode desencadear angústia. Por exemplo, se alguém perdeu dinheiro durante a crise financeira de 2008, ver uma queda do mercado de ações pode gerar ansiedade. Ou, se uma pessoa estiver sobrecarregada com dívidas de empréstimos estudantis, o fim da carência dos pagamentos pode ser angustiante. "É como assistir de novo a um filme de terror", comentou Michelle Griffith, consultora sênior de patrimônio do Citi Personal Wealth Management.

Quando as emoções estiverem à flor da pele, Griffith recomenda tomar decisões com base em fatos: "Até mesmo os mercados em baixa se recuperam. E, nos últimos 70 anos, o mercado de ações caiu cinco por cento várias vezes ao ano. Saber que as quedas são temporárias pode ajudar a aliviar a angústia."

Embora ninguém possa prever o futuro, a capacidade de identificar seus gatilhos pode ajudar a pessoa a se cuidar. Até mesmo respirar fundo algumas vezes, sair para caminhar ou conversar com um amigo ajuda a acalmar os nervos, diminuindo a possibilidade de agir impulsivamente, observou Evans.

Estabeleça limites financeiros

Os limites nos ajudam a nos sentirmos seguros nos relacionamentos e também podem manter os comportamentos financeiros sob controle.

Evans recomenda, por exemplo, que as pessoas que gastam demais removam o número do cartão de crédito dos aplicativos e das lojas on-line: "A emoção de fazer uma compra libera dopamina, o que pode prejudicar o autocontrole." Mas, se o cartão de crédito não estiver à mão, é mais difícil gastar em excesso.

As pessoas que evitam o contato com o dinheiro podem decidir correr pequenos riscos, como se esforçar para gastar US$ 10 ou US$ 20 em uma experiência prazerosa. Melkumian chama isso de "esbanjamento obrigatório" e disse que essa é uma maneira de sair da zona de conforto: fazer o oposto do que a emoção negativa está pedindo.

Qualquer comportamento que interrompa o comportamento evasivo também é benéfico. Griffith sugeriu programar transferências automáticas de dinheiro da conta-corrente para a poupança todo mês. Também é possível automatizar o pagamento das contas mensais e destinar uma parte do salário mensal para a aposentadoria.

Busque apoio

A recuperação de um trauma financeiro é uma abordagem dupla. É preciso abordar o aspecto financeiro e também o trauma que o causou, explicou Faupl.

Conversar com um terapeuta especializado em traumas financeiros é o primeiro passo. Com conhecimento de psicologia e finanças, este pode ajudar a entender a relação entre uma experiência dolorosa e problemas financeiros. Faupl disse que, se a família brigava por causa de dinheiro durante a infância, por exemplo, talvez a pessoa evite conversas financeiras difíceis quando for adulta. Ou, se alguém cresceu sem segurança financeira, pode evitar gastar dinheiro mais tarde na vida.

Além da terapia, fazer um curso de educação financeira ou conversar com um consultor de finanças pode contribuir para o sucesso. Experiências como dificuldades econômicas e despesas médicas podem distorcer os sentimentos e comportamentos da pessoa em relação ao dinheiro, fazendo com que sabote seu futuro financeiro.

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