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‘Banco de Queijo’ secreto da Itália torna o Parmigiano Reggiano em ouro financeiro

Gargalos financeiros existentes devido ao método de produção longo levaram à prática, que é aperfeiçoada por gerações

Internacional|Antonia Mortensen e Juan Pablo O'Connell, da CNN Internacional

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Em Emília-Romanha, armazéns com controle climático guardam rodas de Parmigiano Reggiano que se valorizam com o tempo.
  • O Credem Bank aceita queijo como garantia para financiamento, ajudando produtores a cobrir custos antes da venda.
  • A cadeia de suprimentos é baseada em cooperativas, que garantem estabilidade financeira a pequenos produtores enfrentando custos crescentes.
  • A demanda internacional por Parmigiano Reggiano cresce, mas a Itália enfrenta queda nas vendas devido ao aumento de preços.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Parmigiano Reggiano é um dos alimentos mais rigidamente regulamentados do mundo CNN/CNN Newsource - 02.05.2026

No coração da Emília-Romanha, no norte da Itália, vastos armazéns com controle climático escondem um dos ativos mais valiosos do país. Prateleiras imponentes guardam centenas de milhares de rodas de Parmigiano Reggiano envelhecendo lentamente, silenciosamente e se tornando mais valiosas a cada mês que passa.

Para os de fora, parece uma catedral de queijo. Para os produtores de laticínios da Itália, é uma tábua de salvação. O Parmigiano Reggiano é um dos alimentos mais rigidamente regulamentados do mundo. Ele só pode ser produzido em uma pequena área designada, usando três ingredientes — leite, sal e coalho — e deve envelhecer por pelo menos 12 meses antes de poder ser vendido. Muitas rodas amadurecem por 24, 36 ou até 40 meses.

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Essa longa espera cria um gargalo financeiro. Os agricultores devem ser pagos a cada 30 dias. Os custos com equipe, alimentação e energia se acumulam diariamente. Mas a receita não chega por um ano ou mais. Por mais de um século, o Credem Bank intervém para preencher essa lacuna — aceitando queijo como garantia.

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Giancarlo Ravanetti, responsável pelo armazém de queijo do banco, explica: “Na Itália, cerca de 4 milhões de rodas de Parmigiano Reggiano são produzidas, e nós mantemos 500 mil… E permitimos que os clientes usem as rodas como garantia para obter financiamento.” O armazém lida com “cerca de 2,3 milhões de rodas por ano”, acrescenta. Dentro desses cofres, o valor é impressionante: “Cerca de 325 milhões de euros (R$ 1,9 bilhão, na cotação atual) em Parmigiano Reggiano.”

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Ambiente controlado

Quando uma roda de Parmigiano Reggiano chega ao armazém, ela entra em um sistema rigorosamente controlado e aperfeiçoado ao longo de gerações. Cada roda é escaneada e registrada em um sistema digital, uma espécie de passaporte que registra sua data de produção, laticínio de origem e status atual. Só então pode entrar oficialmente no cofre.

As rodas são colocadas em longas prateleiras de madeira. Temperatura, umidade e fluxo de ar são cuidadosamente controlados. Os funcionários do armazém percorrem os corredores diariamente, verificando rachaduras, inchaço ou problemas de umidade. Qualquer irregularidade é sinalizada.

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Selo de qualidade

Armazém de Parmigiano Reggiano do Credem Bank CNN/CNN Newsource - 02.05.2026

Aos 12 meses, o Consórcio Parmigiano Reggiano realiza o tradicional teste de batida — golpeando cada roda com um martelo e ouvindo possíveis defeitos internos. Apenas as rodas que produzem um som limpo e uniforme recebem o selo marcado a fogo. O armazém lida com milhões de rodas por ano, movimentando-as para laticínios, processadores, exportadores e empresas que compram as rodas para ralar ou realizar o envelhecimento prolongado.

Uma vez registradas e em maturação, as rodas podem ser usadas como garantia. O armazém se torna um cofre seguro que garante ao banco que as rodas existem, estão em boas condições e correspondem ao registro de garantia. Ravanetti observa que esse sistema opera há mais de um século e o banco nunca perdeu um único euro nesses empréstimos.

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O Consórcio supervisiona todo o ecossistema, que reúne cerca de 300 produtores e mais de 2.000 produtores de laticínios. O porta-voz Fabrizio Raimondi descreve o processo como uma organização que representa “aproximadamente 50 mil pessoas” e um setor com “faturamento superior a 4 bilhões de euros (R$ 23 bilhões, na cotação atual)”.

Sua equipe de especialistas aplica regras rígidas de produção, promove a marca globalmente, combate falsificações e certifica cada roda. “Esses selos podem assegurar ao consumidor que este é o verdadeiro e que a qualidade é boa”, diz Raimondi.

A cadeia de suprimentos do Parmigiano Reggiano é construída sobre cooperativas, uma estrutura que Paolo Ganzerli, da Granterre, diz ser ao mesmo tempo uma força e uma vulnerabilidade.

A Granterre, um dos maiores grupos de laticínios da Itália, é tecnicamente uma sociedade anônima, mas pertence a cooperativas de produtores de leite e queijo. Isso significa que a empresa deve apoiar centenas de pequenos agricultores que dependem de pagamentos estáveis pelo leite para sobreviver.

Ganzerli explica que os laticínios devem pagar os agricultores imediatamente, embora o queijo produzido só gere receita após pelo menos um ano. “Sem esse sistema de alavancagem, o mundo do Parmigiano Reggiano não pode existir”, afirma.

Pressões de custo

Vacas da raça Holstein são fotografadas na fazenda de gado Minelli em Motteggiana, Itália Miguel Medina/ AFP/ etty Images/CNN Newsource - 02.05.2026

Ganzerli descreve um sistema de produção que é, ao mesmo tempo, artesanal e extremamente caro. O Parmigiano Reggiano só pode ser feito em uma pequena área geográfica, e as vacas devem ser alimentadas com forragem produzida localmente.

Diferentes microclimas — de pastagens montanhosas a fazendas em vales — influenciam as características do leite. Mas o custo de produção desse leite disparou nos últimos anos, impulsionado pela inflação e pela instabilidade global.

Como Ganzerli coloca: “O custo para produzir a alimentação das vacas, o custo de tudo, aumentou muito… Energia, transporte, logística — tudo está mais caro agora.”

Mesmo grandes empresas como a Granterre sentem a pressão, diz ele, porque cada aumento nos preços de energia ou alimentação repercute em toda a cadeia de suprimentos.

Em 2025, a Denominação de Origem Protegida cruzou um marco histórico: as exportações superaram metade das vendas totais pela primeira vez, atingindo 50,5% de todo o Parmigiano Reggiano vendido no mundo.

A demanda internacional cresceu 2,7%, mesmo com a forte contração do mercado italiano. A França teve leve queda (–0,3%, 14.800 toneladas), a Alemanha permaneceu estável (+0,1%, 10.400 toneladas), a Espanha cresceu (+2,5%, 1.850 toneladas), a Suécia disparou (+8,8%, 2.500 toneladas) e o Reino Unido subiu fortemente (+7,8%, 8.400 toneladas).

Fora da Europa, os Estados Unidos cresceram 2,3% (16.800 toneladas), o Canadá 8,3% (3.900 toneladas), com Japão e Oriente Médio apresentando crescimento menor, mas contínuo.

Os Estados Unidos são o maior mercado externo para o Parmigiano Reggiano — mas também o mais volátil. No final de 2025, novas tarifas elevaram a carga total para 25%, com possibilidade de novos aumentos.

Combinado ao aumento dos custos de transporte, inflação e tensões geopolíticas, o mercado americano se tornou cada vez mais imprevisível.

Raimondi observa: “Há incerteza regulatória, e muitos operadores estão esperando antes de fazer novos pedidos.” O início de 2026 confirmou essa tendência, com importadores dos EUA pausando compras para avaliar o impacto das tarifas e das pressões econômicas.

A Itália, por sua vez, registrou uma queda de 10% nos volumes vendidos em 2025. Os preços mais altos levaram os italianos a comprar Parmigiano Reggiano com menos frequência e em porções menores, embora o número de lares consumidores tenha permanecido estável.

Os preços subiram acentuadamente: rodas de 12 meses chegaram a 13,22 euros/kg (R$ 73/kg, cotação atual), um aumento de 20,6%. Rodas de 24 meses a 15,59 euros/kg (R$ 86/kg, cotação atual), gerando um acréscimo de 24,8%. A produção subiu para 4,19 milhões de rodas (+2,7%).

Superalimento

Um queijeiro trabalha em uma fábrica de Parmigiano Reggiano na Fazenda Dall'Aglio Marco Bertorello/ AFP/Getty Images/CNN Newsource - 02.05.2026

Ganzerli observa que o Parmigiano Reggiano é naturalmente sem lactose, rico em proteína e livre de aditivos — qualidades que ajudaram a impulsioná-lo como um “superalimento”. Mas ele também alerta que, se os preços subirem demais, os consumidores podem migrar para queijos mais baratos, como o Grana Padano.

Os produtores normalmente recebem de 60% a 80% do valor de uma roda antecipadamente quando usam o queijo como garantia. A tecnologia blockchain agora permite que as rodas sejam dadas como garantia mesmo quando armazenadas nas próprias instalações dos produtores, dobrando a capacidade de empréstimo do Credem. O Consórcio também está investindo em turismo, com o objetivo de aumentar visitas dedicadas ao Parmigiano de 85 mil para 300 mil até 2029.

Indústria bilionária

O Parmigiano Reggiano é uma indústria de 4 bilhões de eutos (R$ 23 bilhões, na cotação atual) sustentada por cerca de 300 laticínios certificados. Sua sobrevivência depende de um equilíbrio delicado entre tradição, regulamentação e inovação financeira.

Dentro dos vastos corredores do banco de queijo, as rodas permanecem silenciosas, transformando-se lentamente em uma das exportações mais valiosas da Itália. Cada uma representa meses de trabalho, gerações de conhecimento e um sistema financeiro construído com base na paciência.

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