Economia Famílias comprometem 29,9% da renda com dívidas, menor índice desde antes da pandemia

Famílias comprometem 29,9% da renda com dívidas, menor índice desde antes da pandemia

Pesquisa da Confederação do Comércio mostra que, em março, a parcela de atrasos por mais de 90 dias foi a maior em um ano

  • Economia | Agência Brasil

Pesquisa de endividamento da CNC mostra estabilidade no endividamento

Pesquisa de endividamento da CNC mostra estabilidade no endividamento

José Cruz / Agência Brasil

O percentual da renda das famílias brasileiras que é comprometido com dívidas ficou em 29,9% em março, segundo apuração da Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor), apurada mensalmente pela CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo), e divulgado nesta terça-feira (4).

Isso significa que, a cada R$ 1.000 recebidos, em média, pelo consumidor em março, R$ 299 foram direcionados para o pagamento de dívidas. Esse é o menor patamar desde fevereiro de 2020, mês imediatamente anterior ao início da pandemia da Covid-19.

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Outros dados do levantamento também são positivos: no primeiro trimestre de 2023, o endividamento das famílias ficou estável, e março terminou com 78,3% das famílias endividadas, resultado igual ao registrado em fevereiro. Além disso, o nível de inadimplência caiu pela quarta vez consecutiva, em 0,4 p.p. (ponto percentual) em março, e atingiu 29,4% das famílias do país.

Superendividamento

Do total de famílias que relataram ter dívidas a vencer (nas modalidades cheque pré-datado, cartão de crédito, cheque especial, carnê de loja, crédito consignado, empréstimo pessoal, prestação de carro e de casa), 17,1% consideravam-se muito endividadas, indicador que também se manteve inalterado na passagem mensal, após duas altas consecutivas.

“O endividamento dos consumidores vem apontando moderação desde outubro, cresceu entre janeiro e fevereiro, com orçamentos apertados pelas despesas típicas do início do ano, e encerrou o trimestre em estabilidade”, explicou, em nota, Izis Ferreira, economista da CNC responsável pela Peic.

Segundo a especialista, a melhora da renda disponível, com a evolução positiva do mercado de trabalho e a desaceleração da inflação, atenuaram os indicadores de inadimplência, que fechou o trimestre em 29,7% das famílias. “Apesar disso, quem tem dívidas atrasadas há mais tempo continua com dificuldades de sair da inadimplência, por causa dos juros elevados”, disse Izis.

A Peic mostrou que a proporção de consumidores sem condições de pagar dívidas atrasadas de meses anteriores chegou a 11,5% do total em março, com ligeira queda de 0,1 p.p. em relação a fevereiro, mas indicou o maior nível desde novembro de 2020, no comparativo entre as médias trimestrais.

A redução da contratação de dívidas em março se deu entre os consumidores nas duas primeiras faixas de renda, a de até três salários mínimos e a de três a cinco salários mínimos. Nas faixas de maior renda, entre cinco e dez salários, e acima de dez salários mínimos, a proporção de endividados cresceu. De acordo com Izis Ferreira, isso é reflexo do maior consumo de serviços pelos mais ricos.

O indicador de dívidas atrasadas também diminuiu na margem para os dois grupos considerados mais pobres, enquanto avançou entre os com renda entre cinco e dez salários mínimos.

“O Bolsa Família com valores maiores e as contratações formais de pessoas com menor nível de escolaridade têm auxiliado as famílias de menor renda no pagamento de dívidas”, disse a economista.

Apesar disso, na comparação anual, a Peic demonstrou que o volume de famílias com dívidas atrasadas aumentou em todas as faixas de rendimento.

O percentual de consumidores com dívidas atrasadas de meses anteriores também encerrou o trimestre em queda entre os mais pobres, mas avançou 1,1 p.p. no ano. O índice cresceu na comparação anual apenas nas duas primeiras faixas de renda, de até cinco salários mínimos.

“Entre as famílias de menor renda, a redução da proporção dos endividados também foi acompanhada da queda do comprometimento da renda dessas famílias com dívidas. Os consumidores que recebem até três salários mínimos fecharam o trimestre dedicando 30,9% da sua renda para pagar dívidas, o menor percentual desde junho de 2021. A cada R$ 1.000, eles gastaram R$ 309 para pagar dívidas com instituições financeiras”, disse a CNC.

No caso dos mais ricos, a parcela média da renda comprometida com dívidas aumentou: foram 0,4 p.p. entre aqueles que recebem de cinco a dez salários mínimos, resultando em 29,4% da renda, e 0,3 p.p. entre os com mais de dez salários mínimos, com 27% dos ganhos comprometidos.

Inadimplentes

Mesmo com feirões e mutirões de renegociação, de cada cem consumidores com dívidas atrasadas, 45 chegaram a março com atrasos no pagamento de contas superiores a 90 dias.

“Quem tem dívidas atrasadas, acumuladas de meses anteriores, tem maior dificuldade de pagá-las, pois, com os juros mais altos, o valor da dívida aumenta mais ao longo do tempo”, explicou Izis Ferreira.

Para a economista, a alta da proporção de consumidores com dívidas atrasadas por mais de três meses mantém aceso o alerta para a necessidade de renegociações e do monitoramento do sucesso das dívidas renegociadas pelas instituições financeiras. Ela afirma que as concessões de crédito aos consumidores estão desacelerando, mas ainda permanecem elevadas, e há uma deterioração da qualidade dos recursos contratados. 

Segundo a CNC, as concessões de crédito, neste momento, estão concentradas e avançando no crédito rotativo de curto ou curtíssimo prazo, como o cheque especial e o cartão de crédito, modalidades que apresentam os juros mais elevados do mercado.

Os dados desse levantamento foram apresentados por Izis ao secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Gabriel Galípolo, em 23 de março. O objetivo é auxiliar no desenvolvimento do programa Desenrola, que visa reduzir o endividamento e a inadimplência das famílias que ganham até dois salários mínimos.

“A Peic é, hoje, um dos principais indicadores da saúde econômica do Brasil, pois identifica quais são os principais gargalos para a melhoria das condições financeiras da população brasileira”, avalia o presidente da CNC, José Roberto Tadros.

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