Educação Estudante de medicina da USP vende doce para ir a Harvard

Estudante de medicina da USP vende doce para ir a Harvard

Aprovado para integrar grupo de pesquisa em Boston, Raony França, de 21 anos, também faz vaquinha online para conseguir os R$ 80 mil da viagem

Filho de dona de casa, estudante vende doce para ir à Harvard

Raony é estudante de medicina

Raony é estudante de medicina

Arquivo Pessoal

Filho de dona de casa e vendedor de loja de calçados, Raony Ferreira França é estudante de medicina da Universidade de São Paulo (USP) e vende palha italiana – doce feito com brigadeiro e biscoito triturado – para custear a sua ida para a Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Até o momento, conseguiu juntar 62,5% - o total do montante é de R$ 80 mil.

Cachoeirinha é um bairro localizado na zona norte da capital paulista e, de acordo com o Mapa da Desigualdade, realizado pela Rede Nossa São Paulo e divulgado nesta terça-feira (5), arrecadou no último ano R$ 26 milhões com o Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU). Apesar da alta arrecadação, a região possui 22,50% dos domicílios sendo favelas. O tempo de atendimento para vaga em creche é de 92,04 dias e sua população preta e parda é de 43,26%. É nesse cenário que Raony cresceu a maior parte de sua vida.

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Raony estudou o ensino médio na Escola Técnica Estadual de São Paulo (ETESP). No 2° ano, sentiu um vácuo na educação oferecida pela rede pública - tal sentimento é comprovado por pesquisas. Um levantamento feito pela Central Connecticut State University, nos Estados Unidos, aponta que o Brasil ficou em 1° lugar em relação ao número proporcional de alunos em escola e ao PIB destinado à educação, mas ficou na 55° posição, entre 61 países, sobre qualidade de ensino.

Por causa da lacuna educacional pública, se inscreveu em um programa de bolsas do curso Etapa. Na ocasião, ganhou apenas desconto na mensalidade. Começou, então, a vender palha italiana, a fim de ajudar os pais no pagamento do cursinho pré-vestibular. No ano seguinte, o resultado de um ano de esforço: Raony ganhou bolsa 100%.

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A preparação para o vestibular e a finalização do 3° ano seguia a todo vapor, assim como as certezas acadêmicas. “Eu sabia claramente qual era o meu sonho. Sempre foi a medicina”, conta. O primeiro vestibular para o curso ocorreu no fim do ano na Universidade Estadual Paulista (Unesp), e a resposta foi dada ainda na primeira fase: não foi aprovado – a recusa da instituição fez com o jovem chorasse por dois dias consecutivos.

“Não é hora de parar”, lembra de uma das frases de seus pais, os principais motivadores. Por eles, Raony não desistiu e tentou vaga em outras instituições de ensino. E o resultado, desta vez cinco vezes positivo, chegou semanas depois, quando ele “passou para medicina na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), PUC-Campinas e USP”. “Foi uma das melhores sensações da vida”, conta. O fator intercâmbio foi decisivo na escolha da faculdade, que culminou pela USP.

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Nos dois primeiros anos da vida acadêmica, Raony levava quatro horas, ida e volta, para realizar o trajeto Cachoeirinha-Butantã. “Era bem cansativo. Inclusive, chegou a afetar a minha produtividade”, admite. Nesse momento, conseguiu um auxílio da assistência social para arcar com os custos de moradia e, assim, ter uma casa próxima à USP. A outra parcela do aluguel é paga com os doces que vende a R$ 4 a unidade.

Na USP - universidade que está entre as 10 melhores do mundo em pesquisa acadêmica segundo ranking produzido pelo Centro de Estudos em Ciência e Tecnologia da Universidade de Leiden, na Holanda –, ele se dedica 100%. Raony é vice-presidente da Associação Brasileira de Ligas Acadêmicas de Cirurgia e vice-presidente da Associação dos Estudantes de Medicina do Estado de São Paulo, além de ser diretor de relações externas da Associação dos Estudantes de Medicina do Brasil, segundo a Biblioteca Virtual da Fapesp.

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No mês de outubro, o jovem anunciou que foi aprovado para integrar uma equipe de pesquisa no Center for Interdisciplinary Cardiovascular Sciences (Centro de Ciências Cardiovasculares Interdisciplinares, em português), em Boston, capital de Massachusetts, nos Estados Unidos. Raony se deparou, novamente, com o obstáculo financeiro. O jovem não possui renda familiar que o sustente em uma das cidades mais caras do país e, por isso, fez uma vaquinha online. Na plataforma, escreve: “Ajude um futuro médico a ir para Harvard”.

Raony com a família na avenida Paulista, em SP

Raony com a família na avenida Paulista, em SP

Arquivo Pessoal

O montante total, que cobre despesas com alimentação, moradia, transporte, seguro saúde, viagem e afins, é de R$ 80 mil. Até o momento, o jovem diz que faltam cerca de R$ 30 mil. “Eu fico apreensivo pensando se vou conseguir o dinheiro”, admite, acrescentando que tem fé e que irá conseguir, “pois já enfrentou desafios piores”. Além da vaquinha e da venda de doces na universidade, Raony recebe a companhia da irmã e dos pais aos domingos na avenida Paulista, onde tenta arrecadar mais grana com as palhas italianas.

A vaquinha de Raony está disponível neste link.

No próximo domingo (10), ocorre o segundo dia de provas do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio). Os candidatos farão 45 questões de matemática e 45 de ciências. “Um dia antes do vestibular eu procuro dar uma relaxada. Não ficava estudando que nem doido”, conta Raony. “Eu tento descansar para estar bem disposto durante a prova.” O mais importante, segundo o futuro médico, “é não desistir dos sonhos”.