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Fim da dissertação? Saiba o que é tabu e o que pode mudar no vestibular da Fuvest

Novas propostas enviadas à reitoria da USP incluem mais questões interdisciplinares, prova menor e chance de mudar de curso

Educação|Vivian Masutti, do R7

Estudantes poderão ver novo processo da Fuvest já em 2024
Estudantes poderão ver novo processo da Fuvest já em 2024 Estudantes poderão ver novo processo da Fuvest já em 2024

Um documento interno produzido pela Fuvest (Fundação Universitária para o Vestibular), responsável pelo processo seletivo para o ingresso na USP (Universidade de São Paulo), mostra que a mais importante instituição de ensino superior do país pretende fazer mudanças significativas no exame, tornando-o ainda mais interdisciplinar e conectado com a modernidade.

Com o título “Propostas para Alterações do Vestibular de Ingresso na Universidade de São Paulo”, o projeto sugere modificações tanto na estrutura da prova quanto no conteúdo, e as medidas podem começar a valer já a partir do ano que vem.

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O número de questões que envolvem mais de uma disciplina aumentaria (o que poderia deixar a prova mais curta), a redação passaria a considerar outros gêneros além da dissertação, seriam incluídos livros de não ficção entre as obras obrigatórias e haveria uma reestruturação no preenchimento das vagas dos cursos menos concorridos e com menor nota de corte.

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“Nosso currículo estava muito desatualizado e pedimos à banca que fizesse esse estudo. Os estudantes também foram ouvidos”, conta Gustavo Monaco, diretor-executivo da Fuvest. Ele diz que o procedimento é comum e que as sugestões foram encaminhadas ao Conselho de Graduação da USP e serão discutidas com a reitoria.

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Junto e misturado

O exame, que não sofria grandes mudanças desde os anos 1990 e 2000, tem investido na interdisciplinaridade, principalmente nos últimos cinco anos, com questões que exigem conhecimento, reflexão e análise crítica.

A ideia é selecionar alunos com mente criativa, que contestem as possibilidades estabelecidas. E isso impacta diretamente no que é ensinado nas escolas e nos cursinhos preparatórios, além de ter relação com as discussões sobre a implantação do novo ensino médio.

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“A sociedade está muito mais rápida e as transformações hoje em dia são mais intensas do que foram no passado”, fala Monaco.

Ele afirma, contudo, que os candidatos não serão pegos de surpresa. Se aprovadas, as mudanças serão graduais e amplamente divulgadas. As condições para o vestibular de 2024, que será aplicado em dezembro deste ano, continuam as mesmas.

Dissertação tabu

O diretor-executivo da Fuvest cita o modelo de redação da Unicamp (Universidade Estadual Paulista), que já pediu de cartas a roteiros de podcast aos vestibulandos, como uma boa forma de avaliar leitura e escrita. Mas não acredita que a Fuvest mudará o gênero exigido.

“O conselho nunca cogitou mudar a dissertação. Eu apostaria que eles não mudariam. Há 50 anos usamos esse modelo.”

Para o professor Paulo Jubilut, dono de um dos maiores canais de educação do YouTube, com quase 3 milhões de inscritos e criador da plataforma de educação online Aprova Total, se a Fuvest resolvesse ousar, a mudança na redação seria bem-vinda.

“A dissertação é um gênero artificial, usado somente para fins avaliativos, enquanto os demais gêneros textuais circulam verdadeiramente em sociedade e estão mais próximos da realidade que o estudante encontra na vida dentro e fora da universidade. Assim, a universidade poderia favorecer o aluno que não usa um modelo pronto, muito divulgado nas redes sociais.”

Maioria de autores homens

Uma eventual mudança nas obras literárias exigidas também implicaria mexer no modelo historiográfico cobrado pela fundação: são escolhidos livros que simbolizam as diversas escolas literárias de língua portuguesa, como o arcadismo, o romantismo, o realismo, o simbolismo e o modernismo.

“Temos duas propostas. Uma é incluir autores mais recentes e mais contemporâneos e a outra é passar a cobrar textos menos literários”, afirma Monaco. Nesse caso, o documento cita como exemplo obras de não ficção, como Vigiar e Punir, de Michel Foucault, O que É Ideologia?, de Marilena Chaui, e Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda.

Essas sugestões poderiam, inclusive, aumentar o número de obras escritas por mulheres, já que elas não estiveram tão presentes nas escolas mais antigas, quando o ofício da escrita era majoritariamente masculino. Para se ter uma ideia, há duas autoras entre os nove livros que serão exigidos nos vestibulares de 2024 e 2025. Em 2026, apenas uma foi selecionada.

“Existe uma preocupação voltada para isso. Enquanto o modelo for historiográfico, essa tendência desproporcional poderia se manter. Daí a sugestão que demos”, diz o diretor.

Para o professor Jubilut, as obras selecionadas têm pouca diversidade em relação a autores e estilos contemporâneos. “Essa tendência pode mudar caso a proposta para inserir livros obrigatórios de não ficção seja aprovada. É uma oportunidade também de sugerir leituras que podem se conectar mais à realidade dos nossos jovens no Brasil”, diz.

Mas ressalta que um grande problema é o modelo a partir do qual a maioria das escolas ainda funciona, no qual os conteúdos são ensinados de forma fragmentada, sem conexão entre as áreas. “Quando o assunto é cobrado no vestibular de forma interdisciplinar, a sensação que o aluno tem é de nunca ter visto aquilo na vida.”

Segunda fase

Além disso, o documento sugere que as questões de inglês voltem a ser incluídas, após muitas décadas, na segunda fase na prova, junto com português, literatura e redação. Sociologia, filosofia e artes também seriam disciplinas cobradas.

A nova ideia de preenchimento de vagas pretende possibilitar ao aluno mudar sua escolha de curso no decorrer do processo. Assim, mais estudantes poderiam ser convocados para a segunda fase dos cursos menos concorridos.

Desafios da inclusão

A proposta apresentada pela Fuvest à reitoria da USP acontece no ano que teve o vestibular mais inclusivo da história: em 2023, 54,1% dos estudantes aprovados vieram de escolas públicas. Isso significa que das 10.662 vagas preenchidas, 5.714 são de alunos que cursaram todo o ensino médio na rede pública, sendo que 2.020 estudantes são também do grupo de pretos, pardos e indígenas (PPI).

Contudo, esses ingressantes ainda são apenas 4% dos aprovados entre os 50% de vagas de cursos de ampla concorrência, o que prova que a desigualdade persiste.

As cotas foram adotadas de forma escalonada desde o vestibular de 2018, até atingir 50% das vagas reservadas para candidatos oriundos de escolas públicas.

Veja mais: Saiba quais são os processos seletivos oferecidos pela Fuvest além da graduação

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