‘Muitas vezes os alunos aprendem até dentro da escola a praticar o bullying’, diz pedagogo
Prática é danosa tanto para as vítimas quanto aos praticantes, detalha estudo
Educação|Do R7, com RECORD NEWS
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O mês de janeiro costuma ser o fim das férias escolares, mas também é o momento no qual ocorre a campanha Janeiro Branco, que conscientiza a sociedade em relação à saúde mental. Ambos os temas se conectam, uma vez que de acordo com dados do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, casos de violência escolar aumentaram 250% em 10 anos. Conforme o estudo, 40,5% dos alunos entrevistados relataram sofrer bullying em 2019, um aumento de quase 10 pontos percentuais em relação a 2009.
A prática não só traz prejuízos a curto praz, mas também a longo prazo. Como explica o pedagogo e criador do programa ‘Escola Sem Bullying’, Benjamin Horta: “Caso não haja uma intervenção adequada, essas consequências elas se estendem à fase adulta e também elas se aplicam ao praticante”. Ele levanta uma pesquisa desenvolvida por Dan Olweus, grande estudioso sobre bullying, que revelou que alunos praticantes tem quatro vezes mais chances de possuírem ao menos três passagens pela polícia até os 24 anos.
Antes de compreender os impactos e as maneiras de lutar contra o bullying, entretanto, é necessário compreender do que se trata a prática. De acordo com Horta, “um aluno sofre bullying quando é exposto repetidamente a um comportamento negativo de um ou mais colegas e esse aluno não consegue se defender devido a um desequilíbrio de poder social ou físico”. Mas o que pode incentivar o início do hábito? Na análise do pedagogo, o contexto em que o praticante vive pode influenciar o comportamento.

“Temos alunos que possuem uma família disfuncional e que por algum motivo encontram na violência uma forma de aliviar esse sofrimento, mas temos também outros que aprendem dentro da própria cultura a diminuir o outro [...] muitas vezes os alunos aprendem até mesmo dentro da própria escola a praticar o bullying, porque se temos um comportamento que gera alguma vantagem, o que os alunos no entorno entendem é que esse é um comportamento válido”, detalha o especialista durante o Hora News desta segunda (26).
Horta afirma que embora o comportamento possa deixar o praticante mais popular, ele não costuma ser querido pelos colegas. “Eles encontram uma maneira de obter validação e de criar uma bolha onde aquele grupo específico persegue outros”, diz. Horta argumenta, entretanto, que muitos alunos nem gostam de cometer e menciona casos de alguns que só o faziam por crer que era a única maneira de se relacionar com os colegas que viviam dentro dessas bolhas.
Ainda assim, o comportamento fere os outros estudantes e o pedagogo expõe alguns dos sinais apresentados por quem sofre bullying, como: mudanças comportamentais, falta de autoestima, queda no rendimento escolar, isolamento e até mudanças na rotina. “Talvez alguém que tivesse o costume de chegar da aula e fosse jogar online ou interagir com seus irmãos possa começar a agir diferentemente, para chamar atenção em relação ao problema”.
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A maneira a qual os professores devem agir para impedir que a prática continue nas salas de aula envolve cuidado e uma abordagem estratégica. Ele indica que as ações pontuais que envolvem o combate à prática, como o Dia Nacional de Combate ao Bullying (07/04) e o Dia Mundial de Combate ao Bullying (20/10), não servem se o assunto cai em esquecimento logo depois. Uma das medidas mais importantes para lutar efetivamente é envolver toda a comunidade escolar em medidas de proteção, incluindo pais, professores e zeladores.
Segundo Horta, tal disposição é necessária para fazer com que os alunos entendam que “quando eles sofrem da prática, estão tendo um direito fundamental violado. O direito à integridade física, psíquica e emocional”. Assim, outros que antes ficavam calados ao presenciar os atos começariam a se levantar e denunciá-los. Porém, também é importante direcionar a atenção à ajuda das vítimas e para isso, o especialista também tem algumas recomendações.
“Eu costumo dizer que o bullying é um comportamento que, como ele envolve desequilíbrio de poder, ele envolve medo. Então quem está sofrendo está, infelizmente, em uma posição de muito medo [...] é fundamental que em primeiro lugar a gente os tranquilize [...] dizer: obrigado por ter me contado, agora nós vamos poder resolver isso juntos”, tal esforço possibilitaria então ajudar a vítima a vencer o medo, superá-lo e denunciar.

Assim que o responsável possuir informações suficientes sobre o ato, Horta recomenda que ele identifique, na lei federal 13.185 de 2015, a formas de bullying praticada e então procure imediatamente a escola. “Não espere uma semana, não mesmo, procure imediatamente porque estamos lidando com a dor e o sofrimento de uma criança ou adolescente”. Ele diferencia o conflito do bullying já que neste é preciso haver uma converse com a vítima e o praticante. Caso necessário, o pedagogo diz que também vale procurar o Conselho Tutelar, o Ministério Público e a Delegacia da Infância e Juventude.
Ao ser questionado sobre o que pode ser feito para reduzir os casos, o entrevistado diz que falar mais abertamente sobre o assunto no dia a dia seria um primeiro passo. Outro fator importante é a conscientização dos pais e a participação deles no processo de acolhimento. Por último, a escola possuir políticas institucionais bem estabelecidas que deem autoridade ao professor.
Ele finaliza com a medida que talvez seja a mais importante, na opinião dele: “A possibilidade de realizarmos rodas de conversa, de turma em turma, para ouvirmos e abordarmos temas relacionados ao bullying, convivência, solidão. É nesse momento que muitos conseguem encontrar uma voz”.
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