Eleições 2022

Eleições 2022 A dois meses do prazo final para registro, candidatos à Presidência estão definidos

A dois meses do prazo final para registro, candidatos à Presidência estão definidos

Diferentemente de outros pleitos, a polarização entre Bolsonaro e Lula delineou de forma antecipada a disputa

  • Eleições 2022 | Sarah Teófilo, do R7, em Brasília

Presidente Jair Bolsonaro e ex-presidente Lula, pré-candidatos à Presidência

Presidente Jair Bolsonaro e ex-presidente Lula, pré-candidatos à Presidência

Alan Santos/PR/Montagem - Arquivo

O prazo final para que os partidos políticos e as federações peçam o registro de seus candidatos à Presidência da República se encerra em 15 de agosto. A pouco menos de dois meses da data-limite, os nomes que devem disputar os votos dos brasileiros em outubro já estão definidos.

Analistas políticos afirmam que pouco deve mudar até lá, e que a composição agora é em torno dos candidatos a vice-presidente e das alianças estaduais, que não estão seguindo a lógica dos alinhamentos nacionais.

Os nomes começaram a ser discutidos ainda em abril do ano passado, depois que uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) anulou as condenações contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e ele recuperou os direitos políticos. Desde então, o processo eleitoral já é discutido, com a possibilidade de o presidente Jair Bolsonaro (PL) e ele se enfrentarem pela primeira vez nas urnas.

De lá para cá, os outros partidos políticos que não estão alinhados com nenhum dos dois nomes começaram a falar sobre a chamada "terceira via", que viria como uma alternativa à polarização.

No ano passado, mais de dez nomes eram vistos como possíveis para encabeçar a disputa e aglutinar mais legendas, entre eles o do ex-ministro da Justiça e Segurança Pública e ex-juiz federal Sergio Moro; o do ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta; os dos ex-governadores de São Paulo e Rio Grande do Sul, João Doria e Eduardo Leite, ambos do PSDB; o do senador Alessandro Vieira (PSDB-SE), na época do Cidadania, e até o apresentador José Luiz Datena (PSC-SP).

Todos foram caindo e, no fim, o nome que se firmou foi o da senadora Simone Tebet (MDB-MS). Após muita conversa e a um custo político alto para o PSDB, como a saída de João Doria da vida pública, a Executiva Nacional da legenda decidiu apoiar Tebet. A decisão envolveu arranjos locais, como o apoio do MDB à candidatura do governador de SP, Rodrigo Garcia (PSDB). O Cidadania, que está junto com o PSDB em uma federação, também apoiará a candidatura de Tebet.

Nos estados, no entanto, a senadora está longe de ser uma unanimidade, nem entre emedebistas, tampouco entre tucanos. Vice-presidente do MDB, o senador Confúcio Moura (RO) admite que não será possível unificar a legenda, mas acredita que 90% do partido estará com a senadora na eleição. Moura afirmou que em alguns estados o MDB é compromissado com outros candidatos e citou os casos do ex-presidente do Senado Eunício Oliveira e do senador Renan Calheiros (AL), ambos críticos da candidatura de Tebet.

“O MDB sempre foi um partido muito difícil de ter unidade. O próprio [Henrique] Meirelles, por exemplo, grande parte do partido não o apoiou. Mas eu espero que mesmo assim, com essa divergência, a gente tenha a maioria do partido. Isso é importante, porque o partido tem capilaridade”, afirmou ao R7.

Integrante da Executiva Nacional do PSDB, o senador Izalci Lucas (DF) explicou que Tebet deve ter apoio nos palanques estaduais dos tucanos à medida que crescer nas pesquisas.

"Lembro que, em 2018, Geraldo Alckmin teve apoio de um monte de partido, mas depois foi caindo e no fim tinha pouca gente com ele. É preciso ter condição para que haja apoio integral. A federação vai trabalhar isso. O próprio MDB era para ser o primeiro que deveria buscar um grande entendimento. Mas se ela não crescer nada, dificilmente terá apoio do próprio partido dela. Se ela se mostrar viável, a adesão é quase que natural", assegurou.

Mesmo com todas as discussões em torno de uma chamada "terceira via", quem ocupa a terceira posição nas pesquisas é Ciro Gomes (PDT). Esta é a quarta tentativa de Ciro, que segue isolado na disputa, sem alianças partidárias, e com o apoio apenas de sua legenda. Em 2018, ele terminou o primeiro turno em terceira posição, e as pesquisas o mostram no mesmo lugar neste ano.

Em encontro do PDT nesta semana, o deputado federal André Figueiredo (CE), vice-presidente da Executiva Nacional, reforçou o argumento de que parte significativa do eleitorado não quer os dois candidatos que estão na dianteira nas pesquisas. "Aí dizem que o Ciro não tem chance; aí vem a imprensa e diz: 'ah, mas a terceira via é a Simone Tebet'. Simone Tebet é a terceira via com 2%? E a única via que temos para evitar a polarização, que é o Ciro, não é visto como um caminho alternativo?", questionou.

Cenário definido

O analista político André César ressalta que, quando Lula recuperou os direitos políticos, em abril do ano passado, já foi possível ter uma perspectiva de como seria a disputa presidencial. No fim de 2021, havia uma lista extensa de nomes que tentavam encabeçar a chamada terceira via, mas todos sem competitividade. Por fim, sem espaço junto ao eleitorado, nenhum deles se materializou com força política, segundo o pesquisador.

"Começou a afunilar e chegou num ponto que não tem como avançar mais. O ajuste geral está feito. O que falta é o ajuste fino, a questão dos estados", explica. Segundo o analista, a eleição presidencial de 2018 foi diferente, quando o cenário se decidiu mais tarde. Neste, conforme explicou, a polarização já era esperada. César diz que mesmo em um partido que lançou candidata, como o MDB, a sigla se vê dividida entre Bolsonaro e Lula, com diversos apoiadores alinhados com algum dos dois nomes. "Vai chegar na eleição rachado", diz.

Melillo Dinis, também analista político, explica que a polarização deste ano gerou uma tendência de se ter a definição do eleitor mais cedo. "Esse excesso de disputa tem antecipado a decisão do eleitor. É muito pouco provável que uma terceira via consiga romper a barreira da polarização", afirma.

Dinis afirma que, em 2018, as candidaturas não estavam tão definidas e ainda havia a hipótese de Lula disputar. "Havia uma incerteza, e Bolsonaro não era essa potência. Ele foi crescer no fim de junho. Nós só fomos ter um acirramento depois de agosto daquele ano, porque havia muita negociação", lembra.

O analista diz que é preciso olhar para o fenômeno de eleitor e "rejeitor". "O eleitor de 2022 vai escolher o menor pior para evitar aquele que ele odeia. Essa polarização obrigou os nomes a se antecipar", avalia.

Cientista político e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) de São Paulo, Marco Antônio Carvalho Teixeira diz que essa disputa e a de 2018 diferem de eleições anteriores porque no passado os quadros eram mais estáveis, com uma definição muito clara entre PT e PSDB, e as grandes alianças eram sempre em torno dos dois, sem divisões internas.

"O que temos agora é o Bolsonaro na figura de um outsider, acima dos partidos, e isso embola o jogo em vários lugares", afirma. Os alinhamentos nacionais, segundo o professor, não vão necessariamente ditar os alinhamentos regionais.

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