Lula e Flávio Bolsonaro desenham caminhos diferentes para o Brasil
Programas eleitorais convergem em temas; diferença está no papel do Estado, nas relações trabalhistas e nas respostas para a violência
2026|Do R7, em Brasília
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Segurança, emprego, custo de vida e educação aparecem entre as prioridades dos programas de governo de Lula e Flávio Bolsonaro para a eleição presidencial de 2026.
A comparação dos documentos, no entanto, mostra que, por trás de uma lista semelhante de problemas, os dois projetos propõem caminhos bastante diferentes para o país.
Lula aposta em um Estado capaz de induzir investimentos, coordenar políticas públicas, reduzir desigualdades e fortalecer a participação social.
Flávio apresenta sua proposta como uma alternativa “liberal, conservadora, reformista”, defendendo um Estado mais eficiente, menos burocrático e menos intervencionista na vida econômica.
Os dois programas mostram diferentes formas de organizar a atuação do poder público: de um lado, um Estado mais presente na indução do desenvolvimento e na proteção social; de outro, uma máquina pública que Flávio promete enxugar, simplificar e concentrar em funções consideradas essenciais.
Segurança pública
A segurança pública é provavelmente o campo em que o contraste entre os dois programas aparece de forma mais direta.
O plano de Flávio coloca o tema no centro da proposta e promete uma política de endurecimento contra organizações criminosas, com a classificação de PCC, CV, milícias e outras facções como organizações narcoterroristas, o bloqueio de ativos ligados ao crime e o reforço da atuação estatal contra quadrilhas.
O documento também propõe a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos e punições para adolescentes a partir dos 14 anos envolvidos em crimes graves.
O programa prevê ainda a criação de um Sistema Nacional de Fronteira, com participação das Forças Armadas, para reforçar o combate à entrada de armas e drogas no país.
Na política prisional, a proposta é construir cinco novos presídios de segurança máxima, criar 500 mil vagas no sistema prisional em quatro anos e zerar o déficit carcerário.
Outras medidas incluem a implantação de um sistema nacional de reconhecimento facial integrado a bancos de dados criminais e a instalação de mais de 1 milhão de câmeras em portos, aeroportos e áreas públicas.
O plano também propõe acabar com a progressão de regime para crimes hediondos e quadruplicar a pena inicial para determinados crimes relacionados a roubo, furto e comercialização de celulares roubados.
O programa de Lula adota uma estratégia diferente. A proposta prevê, uma vez aprovada a PEC da Segurança Pública apresentada pelo Executivo, a criação de um Ministério da Segurança Pública para coordenar políticas nacionais em articulação com estados e municípios dentro do Sistema Único de Segurança Pública, o SUSP.
O texto também defende o fortalecimento da inteligência estatal e do enfrentamento ao crime organizado, mas combina essas ações com políticas de prevenção da violência, policiamento de proximidade, mediação comunitária e justiça restaurativa.
Há ainda a previsão de ampliar o uso de câmeras corporais, com padrões nacionais para utilização, gestão e preservação das imagens.
Economia
A economia é outro terreno em que há um ponto de partida comum e soluções diferentes.
O programa de Lula promete sustentar o crescimento por meio da ampliação dos investimentos, da infraestrutura, da indústria e da transformação ecológica. O texto prevê manter o novo arcabouço fiscal e buscar a redução sustentada dos juros, combinando inflação controlada, responsabilidade fiscal e investimentos produtivos.
Segundo o programa, o resultado fiscal deve vir do crescimento econômico, do controle do aumento do gasto primário, da melhoria da eficiência e da qualidade do gasto público, da justiça tributária e do combate a privilégios e distorções.
A proposta também defende a continuidade de políticas de desenvolvimento produtivo e de investimentos em infraestrutura. O documento cita o papel do Estado na indução da produtividade e no fortalecimento das cadeias produtivas.
Flávio também coloca o equilíbrio fiscal entre as prioridades, mas o caminho apresentado é outro. Seu programa fala em “Tesouraço” nos gastos públicos, reforma do Estado, combate à corrupção e menos impostos. O documento afirma defender regras estáveis e um Estado eficiente, que deixe de “atrapalhar quem trabalha”.
Educação
Os dois programas também tratam a educação como instrumento para melhorar as oportunidades e preparar o país para uma economia mais complexa.
Lula promete continuar a expansão da educação básica, técnica e superior e cumprir as metas do Plano Nacional de Educação de 2026 a 2036.
O programa estabelece como meta elevar para 80% a parcela de crianças alfabetizadas na idade certa e prevê uma estratégia permanente de recomposição e aceleração da aprendizagem.
O texto também coloca a expansão das creches e da educação em tempo integral entre as prioridades do novo mandato.
Na educação profissional e superior, prevê continuar a expansão e a interiorização dos institutos federais, universidades e outras estruturas públicas de ensino.
O programa de Flávio também apresenta educação, saúde, esporte e apoio às famílias como elementos da preparação para o futuro e associa formação à qualificação para o trabalho.
Mas sua agenda educacional é organizada dentro de outra visão, com destaque, no índice do documento, para ensino técnico, primeiro emprego e propostas que relacionam o debate educacional a temas como valores, liberdade e limites à atuação do Estado.
Trabalho
É na relação entre capital e trabalho que a distância entre os dois programas se torna especialmente clara.
Lula propõe ampliar a proteção trabalhista diante do avanço das plataformas digitais, criar regras para definir relações de trabalho, remuneração, condições de trabalho e direitos laborais e previdenciários, além de defender transparência algorítmica.
O programa também promete combater a pejotização considerada fraudulenta, fortalecer a fiscalização e avançar para o fim da escala 6x1 e a redução da jornada para 40 horas semanais, sem redução salarial, nos termos mencionados pelo documento.
O plano de Flávio, por sua vez, lista entre suas propostas a redução do custo do trabalho, o princípio do “negociado sobre o legislado”, a criação de instrumentos ligados ao primeiro emprego e uma posição crítica ao que chama de “República Sindical”.
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