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O animal que consegue dormir com metade do cérebro ainda funcionando

Em algumas espécies, o sono pode acontecer em apenas um hemisfério do cérebro por vez.

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Alguns animais conseguem dormir sem desligar totalmente o cérebro e isso é fascinante. (Imagem: Fala Ciência via Gemini) Fala Ciência

Para a maioria de nós, dormir significa reduzir a percepção do ambiente, relaxar o corpo e deixar o cérebro entrar em um estado de repouso mais amplo. Só que, na natureza, nem sempre é seguro “desligar” desse jeito. Alguns animais encontraram uma solução impressionante para esse dilema: descansar sem apagar completamente. Em espécies como golfinhos, certas focas e algumas aves, o cérebro pode entrar em sono de forma parcial, com um hemisfério dormindo enquanto o outro permanece mais atento ao que acontece ao redor.

Esse mecanismo é conhecido como sono uni-hemisférico de ondas lentas. Em vez de os dois lados do cérebro repousarem ao mesmo tempo, como ocorre no padrão mais comum entre os mamíferos terrestres, esses animais alternam o descanso entre os hemisférios. Assim, conseguem preservar parte da vigilância enquanto ainda recuperam funções cerebrais importantes. É uma adaptação elegante para um problema vital: como dormir sem se tornar presa fácil ou perder funções essenciais de sobrevivência.


Descansar sem perder totalmente a vigilância

No caso humano, o sono costuma vir acompanhado de uma queda importante na atenção ao ambiente. Para muitos animais, porém, isso pode representar um risco grande demais. Pense em um golfinho: ele vive em um ambiente onde precisa subir à superfície para respirar, manter algum controle corporal durante a natação e ainda permanecer atento a ameaças. Se todo o cérebro mergulhasse em sono profundo ao mesmo tempo, o custo poderia ser alto.


É por isso que o sono uni-hemisférico faz tanto sentido nesses contextos. Enquanto um lado do cérebro apresenta padrões típicos de sono de ondas lentas, o outro continua relativamente ativo, sustentando parte da vigilância e do controle motor. Em algumas espécies, essa divisão também aparece nos olhos: um permanece aberto enquanto o outro se fecha, acompanhando o hemisfério que continua mais alerta. Na prática, é como se o animal repousasse sem abandonar completamente o mundo ao redor.

Um cérebro em revezamento


Embora a ideia pareça estranha à primeira vista, esses animais não estão “meio acordados” de forma aleatória. O que existe é um revezamento funcional entre os hemisférios cerebrais. Um lado entra em um estado de descanso mais profundo, com atividade neural compatível com o sono, enquanto o outro continua operando em um nível suficiente para manter funções importantes.

Essa organização pode trazer vantagens diferentes conforme a espécie:


  • nos cetáceos, ajuda a manter a respiração e a orientação na água
  • em aves, pode favorecer a vigilância contra predadores e o descanso em contextos desafiadores
  • em mamíferos marinhos, permite repouso sem perda total do controle corporal

Em outras palavras, o sono continua exercendo seu papel fisiológico, mas de uma forma muito mais flexível do que imaginamos quando pensamos no padrão humano.

Uma solução moldada pela seleção natural

Do ponto de vista evolutivo, o sono sempre carrega um paradoxo. Ele é indispensável para o funcionamento do sistema nervoso, para a consolidação de memórias e para o equilíbrio do organismo. Ao mesmo tempo, dormir reduz a capacidade de reagir rapidamente ao ambiente. Em cenários onde predadores, deslocamento constante ou necessidade de controlar a respiração impõem desafios extras, uma estratégia mais parcial de sono pode oferecer enorme vantagem.

Nos golfinhos e outros mamíferos aquáticos, isso se torna especialmente importante porque a respiração precisa continuar sob controle durante o descanso. Já em algumas aves, sobretudo as que vivem em áreas expostas ou precisam lidar com rotinas intensas de deslocamento, manter um lado do cérebro mais vigilante pode aumentar as chances de sobrevivência.

O que a ciência recente mostra sobre esse tipo de sono

Uma revisão publicada em 2026 na revista Brain and Behavior, assinada por Tom Deboer, discute justamente como o sono pode ocorrer de forma mais localizada no cérebro e destaca o sono uni-hemisférico como um exemplo marcante dessa flexibilidade biológica. No artigo Global and Regional Vigilance: Are There Two Types of Local Sleep?, o autor explora como, em animais como os golfinhos, um hemisfério pode permanecer mais vigilante enquanto o outro descansa, mostrando que o sono não precisa acontecer como um bloqueio uniforme de todo o cérebro.

O sono pode ser muito mais criativo do que parece

Costumamos imaginar o sono como um estado simples: ou o cérebro está acordado, ou está dormindo. Só que a biologia raramente trabalha com divisões tão rígidas. O sono uni-hemisférico mostra que, em determinadas espécies, o descanso pode ser organizado de maneira estratégica, quase como um sistema de turnos dentro do próprio cérebro.

Isso não significa que esses animais “não precisem dormir de verdade”, nem que sejam superiores por causa disso. O mais interessante é perceber que o sono é um processo adaptável, moldado pelas pressões do ambiente e pelas necessidades de cada organismo.

No fim das contas, animais que dormem com metade do cérebro revelam algo fascinante sobre a evolução: descansar nem sempre significa desaparecer do mundo por algumas horas. Em alguns casos, significa apenas encontrar uma maneira engenhosa de continuar vivo enquanto o cérebro se recupera. E talvez seja justamente isso que torna esse fenômeno tão impressionante.

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