O flagrante na floresta que mudou o que os biólogos sabiam sobre a inteligência dos grandes macacos
Um estudo revelou como os chimpanzés aprendem observando uns aos outros e mantêm tradições dentro de seus grupos
Fala Ciência|Do R7

Durante muito tempo, a humanidade acreditou que a capacidade de criar e usar ferramentas era uma habilidade exclusivamente nossa. Afinal, transformar objetos comuns em soluções para problemas parecia exigir um tipo de inteligência que nenhuma outra espécie possuía.
Mas a floresta guardava uma surpresa.
À medida que cientistas passaram a observar gorilas e chimpanzés vivendo livremente na natureza, ficou evidente que os grandes macacos são capazes de muito mais do que simplesmente reagir aos desafios do ambiente. Eles aprendem observando, copiam técnicas eficientes, utilizam ferramentas adaptadas para diferentes situações e até transmitem conhecimentos entre gerações.
As descobertas foram tão impactantes que mudaram a forma como os biólogos entendem a evolução da inteligência.
Os chimpanzés que aprendem observando verdadeiros “professores”
Uma das evidências mais impressionantes surgiu em um estudo publicado em 28 de março de 2025 na revista científica Communications Biology, liderado por Oscar Nodé-Langlois.
Os pesquisadores analisaram mais de 2.300 eventos de observação envolvendo chimpanzés selvagens e descobriram que os indivíduos jovens passam grande parte do tempo observando membros mais experientes do grupo para aprender habilidades importantes relacionadas ao uso de ferramentas e à obtenção de alimento (Nodé-Langlois et al., Communications Biology, 28 de março de 2025).
O mais interessante é que os jovens não observam qualquer indivíduo aleatoriamente.
Segundo os pesquisadores, eles tendem a direcionar sua atenção para animais que demonstram maior competência em determinadas tarefas. Em outras palavras, os chimpanzés parecem reconhecer quais indivíduos possuem conhecimentos valiosos e utilizam essa observação como uma forma de aprendizado.
Esse comportamento ajuda a explicar como determinadas técnicas conseguem sobreviver por muitos anos dentro das comunidades.
Entre as habilidades transmitidas socialmente estão:
Os resultados mostram que a aprendizagem dos chimpanzés vai muito além da simples tentativa e erro.
Galho virou uma ferramenta de engenharia

As observações recentes ajudam a compreender episódios que intrigam cientistas há décadas.
Um dos casos mais famosos foi descrito em um estudo publicado na revista PLoS Biology em 2005, liderado por Thomas Breuer.
Durante observações realizadas na República do Congo, pesquisadores registraram uma gorila-fêmea utilizando um galho para avaliar as condições de uma área alagada antes de atravessá-la. O objeto foi usado para testar a profundidade da água e verificar a estabilidade do terreno (Breuer et al., PLoS Biology, 2005).
O comportamento chamou atenção porque demonstrava algo muito além da simples manipulação de objetos.
A gorila estava utilizando uma ferramenta para coletar informações sobre o ambiente, reduzindo riscos antes de tomar uma decisão. Para muitos especialistas, esse tipo de comportamento revela um grau de flexibilidade cognitiva muito maior do que se imaginava anteriormente.
Uma cultura que passa de geração para geração
Essas descobertas deram força a um conceito que vem ganhando espaço na biologia: a cultura animal.
Quando um comportamento é aprendido observando outros indivíduos e depois transmitido para novas gerações, ele deixa de depender exclusivamente da genética.
É exatamente isso que parece acontecer em várias populações de grandes macacos.
Alguns grupos de chimpanzés utilizam determinadas ferramentas que simplesmente não aparecem em comunidades vizinhas, mesmo quando vivem em ambientes semelhantes. Isso sugere que parte dessas diferenças surge da aprendizagem social e da transmissão de conhecimento dentro dos grupos.
Em outras palavras, os chimpanzés não herdam apenas genes. Eles também herdam informações.
Muito mais inteligentes do que imaginávamos
As pesquisas realizadas nas últimas décadas mostram que os grandes macacos possuem uma combinação impressionante de capacidades cognitivas.
Eles conseguem observar, aprender, copiar, adaptar comportamentos e até contribuir para a manutenção de tradições dentro de suas comunidades.
O estudo de Oscar Nodé-Langlois, publicado em 2025, sugere que esse processo de aprendizagem social desempenha um papel central no desenvolvimento das habilidades dos chimpanzés. Já observações clássicas, como a da gorila que utilizou um galho para analisar um terreno alagado, ajudam a mostrar até onde essa inteligência pode chegar.
Cada nova descoberta aproxima ainda mais os grandes macacos dos seres humanos em aspectos que antes pareciam exclusivos da nossa espécie.
E talvez essa seja a maior surpresa de todas: ao estudar gorilas e chimpanzés, os cientistas estão encontrando pistas não apenas sobre a inteligência animal, mas também sobre as próprias origens da inteligência humana.















