O fungo real que inspirou The Last of Us existe na Amazônia
O Ophiocordyceps transforma insetos em verdadeiros veículos para sua reprodução, mas está longe de ameaçar a humanidade.
Fala Ciência|Do R7

Poucas histórias de ficção científica despertaram tanta curiosidade quanto a ideia de um fungo capaz de controlar a mente de seus hospedeiros. O sucesso de The Last of Us levou milhões de pessoas a conhecer um organismo que realmente existe: o Ophiocordyceps, um grupo de fungos parasitas especializado em infectar insetos.
Embora a versão apresentada na cultura pop seja bastante exagerada, a realidade continua impressionante. Em florestas tropicais, incluindo áreas da Amazônia, esses fungos são capazes de alterar profundamente o comportamento de formigas e outros artrópodes. O resultado é um dos exemplos mais fascinantes de manipulação biológica já documentados pela ciência.
Quando o parasita assume o comando
O ciclo começa quando um esporo do fungo entra em contato com o corpo de uma formiga. Após atravessar o exoesqueleto, o microrganismo se desenvolve internamente e passa a utilizar os nutrientes do hospedeiro.
À medida que a infecção avança, algo extraordinário acontece. A formiga abandona comportamentos normais e passa a executar ações que favorecem a reprodução do fungo. Em muitos casos, o inseto:
Esse comportamento é conhecido como “mordida da morte” e cria o ambiente ideal para o desenvolvimento do fungo após a morte do hospedeiro.
O controle não acontece como nos filmes
Durante muito tempo, acreditou-se que o fungo invadia diretamente o cérebro da formiga. No entanto, pesquisas recentes indicam que a história é mais complexa.
Estudos mostram que o Ophiocordyceps produz moléculas capazes de interferir na fisiologia e no sistema nervoso do hospedeiro. Em vez de agir como um “piloto” dentro do cérebro, ele parece alterar processos bioquímicos que influenciam movimentos e comportamentos específicos.
Uma das descobertas mais interessantes surgiu em um estudo divulgado em setembro de 2025, no trabalho “The First of Us: Ophiocordyceps use a novel scramblase-binding peptide to manipulate zombie ants”, liderado por William C. Beckerson e colaboradores. A pesquisa identificou um peptídeo produzido pelo fungo capaz de interagir com proteínas neuronais associadas ao comportamento dos hospedeiros, oferecendo pistas importantes sobre os mecanismos envolvidos nessa manipulação biológica.
A Amazônia é um dos palcos desse fenômeno
As florestas tropicais concentram uma enorme diversidade de espécies de Ophiocordyceps. O clima quente e úmido favorece tanto o fungo quanto seus hospedeiros.
Além disso, novas espécies continuam sendo descobertas. Em agosto de 2025, um estudo publicado na revista Fungal Systematics and Evolution, liderado por Samuel J. Lima-Santos, descreveu uma nova linhagem de fungos zumbis associada a formigas no Brasil, demonstrando que a diversidade desse grupo ainda está longe de ser totalmente conhecida.
Por que ele não transforma humanos em zumbis?
A resposta está na evolução altamente especializada desses fungos. Cada espécie de Ophiocordyceps evoluiu durante milhões de anos para infectar hospedeiros muito específicos. Suas adaptações funcionam em organismos com características fisiológicas completamente diferentes das encontradas em seres humanos. Entre os principais obstáculos estão:
Por isso, não existe evidência científica de que esses fungos possam controlar pessoas da mesma forma que controlam formigas.
Uma história real mais fascinante que a ficção
O Ophiocordyceps mostra como a evolução pode produzir estratégias biológicas extremamente sofisticadas. O que parece roteiro de série de terror é, na verdade, resultado de milhões de anos de adaptação entre parasita e hospedeiro.
Felizmente para nós, o famoso fungo zumbi permanece restrito ao mundo dos insetos. Ainda assim, seu comportamento continua sendo um dos fenômenos mais extraordinários já observados pela biologia, revelando que a natureza frequentemente supera a imaginação humana.















