O mistério do “Efeito Placebo”: Como o seu cérebro engana o corpo para produzir o próprio remédio
A expectativa de melhora pode ativar mecanismos biológicos reais dentro do cérebro
Fala Ciência|Do R7

Você recebe um tratamento sem princípio ativo e, ainda assim, sente menos dor. Parece um truque da mente, mas a ciência mostra que o fenômeno é muito mais complexo. O chamado efeito placebo continua sendo um dos assuntos mais intrigantes da medicina porque revela algo surpreendente: a expectativa pode provocar mudanças reais no organismo.
Durante décadas, muitas pessoas acreditaram que o placebo era apenas uma ilusão psicológica. Hoje, pesquisadores sabem que o cérebro é capaz de desencadear respostas biológicas mensuráveis quando acredita que um tratamento funcionará. Em alguns casos, essas alterações podem influenciar a forma como o corpo percebe dor, ansiedade, fadiga e outros sintomas.
A grande questão é: como isso acontece?
O mecanismo invisível por trás do efeito placebo
O efeito placebo acontece quando uma pessoa apresenta melhora após receber um tratamento sem ação farmacológica específica para aquela condição. Entretanto, essa resposta não surge por acaso.
De acordo com uma revisão narrativa publicada em 9 de setembro de 2025 na revista científica Cureus, liderada por Giorgos Tzigkounakis, o efeito placebo envolve uma complexa interação entre fatores psicológicos e mecanismos neurobiológicos. Os autores descrevem que a expectativa positiva pode ativar sistemas cerebrais ligados à dor, à recompensa e ao processamento emocional.
Entre os mecanismos identificados está a liberação de endorfinas, substâncias produzidas naturalmente pelo organismo que ajudam a reduzir a percepção da dor. Além disso, ocorre ativação de vias associadas à dopamina, neurotransmissor relacionado à motivação, ao prazer e à sensação de recompensa.
Essas alterações podem gerar efeitos perceptíveis no organismo, especialmente em condições relacionadas à dor, ansiedade e fadiga.
Entre os principais mecanismos observados pelos pesquisadores estão:
Por isso, atualmente o placebo é considerado um fenômeno neurobiológico legítimo e não apenas uma questão de imaginação.
As cirurgias placebo que desafiaram a medicina
Poucas áreas demonstraram o poder da expectativa de forma tão impressionante quanto os estudos de cirurgia placebo.
Um dos trabalhos mais conhecidos foi publicado em 11 de julho de 2002 no New England Journal of Medicine, sob liderança de J. Bruce Moseley. O estudo avaliou pacientes com osteoartrite do joelho que foram divididos entre cirurgia real e cirurgia simulada.
Nos procedimentos placebo, os participantes recebiam anestesia e pequenas incisões semelhantes às de uma cirurgia verdadeira, mas a intervenção terapêutica principal não era realizada. Ainda assim, muitos pacientes relataram melhora comparável à observada no grupo submetido à cirurgia completa.
Os resultados surpreenderam a comunidade científica e ajudaram a demonstrar que fatores como expectativa, contexto clínico e confiança no tratamento podem influenciar significativamente a experiência dos sintomas.
O achado que mudou a forma de enxergar o placebo

O interesse pelo efeito placebo continua crescendo. Em 5 de julho de 2025, um estudo publicado na revista Scientific Reports, liderado por Fredrik Borg, investigou os chamados placebos de rótulo aberto em pacientes com dor musculoesquelética crônica.
Nesse modelo, os participantes sabem desde o início que estão recebendo um placebo. Mesmo assim, os pesquisadores observaram benefícios clínicos em parte dos voluntários, sugerindo que a resposta placebo não depende necessariamente de enganar o paciente para ocorrer.
Pouco depois, em 15 de agosto de 2025, outro trabalho publicado na Scientific Reports, conduzido por Johannes C. Fendel, analisou resultados de diversos estudos envolvendo placebos de rótulo aberto.
A revisão encontrou evidências de efeitos positivos em diferentes condições clínicas, indicando que fatores como expectativa, contexto terapêutico e interação com profissionais de saúde podem desempenhar um papel importante na resposta do organismo aos tratamentos.
O placebo não substitui tratamentos médicos
Apesar de fascinante, o efeito placebo possui limites bem definidos.
Ele não elimina infecções bacterianas, não destrói tumores e não corrige lesões estruturais importantes. Portanto, não substitui tratamentos médicos comprovados cientificamente.
Ainda assim, compreender esse fenômeno ajuda a revelar o quanto mente e corpo estão conectados. A forma como uma pessoa percebe um tratamento, sua confiança nos profissionais de saúde e suas expectativas em relação à recuperação podem influenciar significativamente a experiência dos sintomas.
O mistério do placebo está longe de ser totalmente resolvido. No entanto, uma conclusão já parece clara: o cérebro possui recursos extraordinários capazes de modular a dor, o desconforto e a sensação de bem-estar de maneiras que a ciência continua explorando.















