Armas na televisão e nas ruas: regime iraniano mobiliza população contra os EUA
Aumento de quiosques públicos de armas e instruções sobre uso refletem a preparação do povo para conflitos
Internacional|Matthew Chance, da CNN Internacional
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Conforme a noite cai sobre a vasta capital do Irã e os picos nevados das montanhas Alborz desaparecem na escuridão, milhares de iranianos têm tomado as ruas rotineiramente para comícios apoiados pelo Estado com o objetivo de mobilizar apoiadores contra os Estados Unidos.
Perto da Praça Tajrish, um bairro nobre de Teerã, os inevitáveis cantos de “Morte à América” ecoam sobre um mar de bandeiras iranianas, enquanto vendedores ambulantes oferecem chá e recordações, como bonés de beisebol e emblemas patrióticos, para a multidão entusiasmada.
“Estou totalmente pronta para sacrificar minha vida pelo meu país e pelo meu povo”, diz uma jovem chamada Tiana, usando óculos com as cores da bandeira iraniana, acima dos cantos ensurdecedores.
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“Todo o povo, todo o exército, todos os comandantes que temos, eles também estão prontos para sacrificar suas vidas e prontos para lutar com todo o coração e alma”, acrescentou ela, descartando a mais recente ameaça do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de retomar a ação militar.
“Para o Irã, o tempo está correndo, e é melhor eles se mexerem, rápido, ou não sobrará nada deles”, publicou Trump em sua plataforma Truth Social no domingo (17), aumentando ainda mais as tensões enquanto as negociações de paz estagnadas minam um cessar-fogo frágil.
Um homem idoso que carregava um cartaz improvisado ofereceu-se para traduzir sua placa, escrita à mão em farsi. “A tecnologia nuclear e de mísseis é tão importante quanto as nossas fronteiras, e por isso vamos protegê-las”, dizia o texto.
“Precisamos de energia nuclear, energia limpa, não de uma bomba”, diz ele, em referência à recusa do Irã em encerrar seu controverso programa nuclear, o que Trump estabeleceu como condição para acabar com a guerra.
“Trump sabe que não temos uma bomba, mas está nos atacando de qualquer maneira”, acrescentou ele.
À medida que aumentam os boatos e os temores crescentes de ataques iminentes dos EUA e de Israel, há uma sensação cada vez maior de inevitabilidade entre muitos iranianos sobre a retomada das hostilidades.
“Sabemos que esta guerra não acabou. Sabemos que Trump não vai realmente negociar”, diz Fatima, que contou ter crescido em Londres e Dubai.
“Ele só vai dizer, tipo, ‘você faz o que eu mando ou eu te mato.’ E então ele vai nos atacar mesmo se fizermos o que ele diz”, acrescentou ela.
Os comícios, ou “encontros noturnos”, vêm ocorrendo por todo o país todas as noites há quase três meses, essencialmente desde o início da guerra.
Mas os últimos dias testemunharam o surgimento sinistro de quiosques públicos de armas, em que civis recebem lições básicas sobre o uso de armamentos — um sinal de como o endurecimento das autoridades iranianas está preparando o povo para mais conflitos.
Em um quiosque na Praça Vanak, vimos uma mulher vestida com um chador preto aprendendo a manusear um fuzil AK-47, com um homem mascarado em trajes militares mostrando a ela como montar e desmontar a arma.
A poucos metros de distância, uma menina brincava com uma Kalashnikov descarregada, apontando a arma para o ar antes de puxar o gatilho e devolver o armamento para seu instrutor sorridente.
O chamado geral às armas também está sendo reiterado na televisão estatal, com vários canais transmitindo seus apresentadores brandindo fuzis.
O apresentador Hossein Hosseini, no canal estatal Ofogh, disparou seu fuzil ao vivo na televisão contra o teto do estúdio após receber uma instrução de um membro mascarado do IRGC (Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica).
Separadamente, uma apresentadora do Canal 3, Mobina Nasiri, dirigiu-se aos telespectadores enquanto segurava um fuzil com as duas mãos.
“Eles me enviaram uma arma da Praça Vanak para que eu também, como todos vocês, possa aprender a usá-la”, anunciou ela.
Mas nem todos os iranianos estão ansiosos por uma luta.
Bem na esquina do comício, na Praça Tajrish, em um parque tranquilo perto do Museu do Cinema do Irã, moradores liam em uma banca de livros ao ar livre e tomavam chá, enquanto casais passeavam de mãos dadas.
“Não à guerra”, disse um jovem ao passar.
Sentada em um banco de parque com o marido, uma mulher, professora universitária que pediu para não ser identificada, contou como ambos queriam desesperadamente que o Irã mudasse.
“Só queremos viver em um país normal, onde nossos filhos possam ter um futuro”, sussurrou ela em inglês.
“Queremos paz”, disse uma jovem, sugerindo ainda mais a diversidade de opiniões no Irã.
Mas, com o clima na República Islâmica cada vez mais tenso, e o país potencialmente à beira de uma retomada da guerra, quase todas as mensagens, exceto as oficiais da linha dura, parecem estar sendo abafadas.
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