Logo R7.com
RecordPlus
‌

Brasileira relata vida na Venezuela: da 'bonança' à falta de absorventes

Elianah Jorge trabalha como correspondente internacional em Caracas desde 2009. Em entrevista ao R7, ela fala sobre decadência do país

Internacional|Ana Luísa Vieira, do R7

  • Google News

Adicione como fonte preferencial no Google

Opens in new window
Elianah Jorge se mudou para a Venezuela em 2009
Elianah Jorge se mudou para a Venezuela em 2009

A jornalista brasileira Elianah Jorge se mudou para a Venezuela em 2009. Se, àquela época, alguém profetizasse que em menos de dez anos o país viveria a pior crise econômica, política e social de sua história, ela provavelmente duvidaria.

Elianah, que passou a última década trabalhando como correspondente internacional em Caracas — à exceção de um período de 15 meses entre 2017 e 2018, quando morou na Bolívia —, conheceu uma versão da Venezuela muito diferente daquela que estampa os noticiários da atualidade.

‌

“Na época em que cheguei, você encontrava produtos de todas as partes do mundo nas prateleiras, já que a Venezuela não produzia — e ainda não produz — nada além de petróleo. E muitos venezuelanos ‘esbanjavam’ — vi casos de pessoas que iam fazer compras mensais em Miami. O próprio governo vendia moeda estrangeira a preços preferenciais para beneficiar quem fosse viajar para o exterior”, conta, em entrevista ao R7.

Comida e bonança

‌

A brasileira lembra que, em contraste com os estudos que mostram que 64% dos venezuelanos perderam uma média de 11 quilos em 2017 por falta de alimento, a população do país no início da década tinha um padrão obeso. “O venezuelano comia fartamente, era acostumado à bonança.”

O cenário mudou em 2014, quando o preço do petróleo desabou no mercado internacional e o país — onde a matéria-prima representa praticamente a totalidade das receitas de exportação — entrou em uma crise econômica da qual não vê saída até os dias atuais.

‌
Venezuelanos fazem filas para comprar comida
Venezuelanos fazem filas para comprar comida

“Mesmo em 2013, após a morte do Chávez e a eleição de Maduro, havia se estabelecido um tabelamento de preços e os produtos começaram a escassear. Mas em abril de 2014, já se formavam filas enormes na porta dos comércios, as pessoas dormiam na rua esperando o mercado abrir, tudo passou a faltar”, resume Elianah.

Hiperinflação e orçamento mensal

‌

Hoje em dia, um quilo de peito de frango na Venezuela custa o equivalente a meio salário mínimo — de pouco menos que 40.000 bolívares (moeda venezuelana). “Um pacote de sabão em pó também compromete metade de um salário”, completa Elianah — que recebe em moeda estrangeira, mas viu seu orçamento mensal subir muito por conta da hiperinflação.

Em 2018, o índice fechou em quase 1.700.000%, segundo estudo da Assembleia Nacional (Parlamento venezuelano, controlado pela oposição ao governo de Maduro).

Leia também

“Se eu compro algo agora por 20 dólares (pouco mais de R$ 77,00), sei que daqui uma semana a mesma coisa vai custar 25 ou 30 dólares. No mercado paralelo, a cotação do dólar subiu, nos últimos dez dias, de 8.000 para 12.100 bolívares”, avalia.

A jornalista diz que, na sua casa, tem sempre comida não perecível estocada, mas já viveu dois episódios de desespero devido à escassez de remédios e itens de higiene pessoal.

“Certa vez, saí à procura de absorventes e, depois de passar por dez estabelecimentos, ainda não havia encontrado. No 11º lugar, achei — mas as compras eram limitadas a seis pacotes por pessoa. Eu comprei e liguei para o meu então marido ir ao mesmo lugar comprar uma cota também. Quando cheguei em casa e me vi com 12 pacotes de absorvente, achei que tinha sido um exagero. Mas eu e minha filha conseguimos nos manter com aquela quantidade por um ano”, lembra.

Em outra ocasião, quando a filha contraiu infecção urinária, Elianah sofreu para achar o antibiótico de que a adolescente precisava. 

“A parte bonita, nessas horas, é a onda de solidariedade que vemos crescer: eu não achei na farmácia, mas postei nas redes sociais que precisava do remédio, e várias pessoas surgiram dizendo ‘Eu tenho um comprimido!’ ou ‘Eu tenho dois!’. Mesmo depois que consegui a dose necessária, ainda aparecia gente oferecendo.”

Falta de água e luz

Estados venezuelanos enfrentaram blecaute
Estados venezuelanos enfrentaram blecaute

Dos desafios mais recentes, Elianah cita os cortes de água e de energia elétrica.

Em março, um grande apagão afetou quase todo o país por vários dias, causando a morte de 15 pessoas que estavam internadas em hospitais.

Já no dia 22 de julho, os estados de Caracas, Zulia, Falcão, Amazonas, Monagas e Aragua ficaram sem fornecimento elétrico por várias horas.

“Fora a luz, quando não chega água, a sensação é muito angustiante. Agora há pouco, ouvi no rádio que, dos 30 dias do último mês, apenas em nove houve completo abastecimento de água em Caracas.”

A despeito dos perrengues, a brasileira não pensa em sair do país até que a filha, que tem hoje 16 anos, complete o ensino médio.

“Eu passei pouco mais de um ano na Bolívia com o propósito de que ela conhecesse outra realidade, vivesse uma vida mais estável e segura, mas nós já tínhamos decidido voltar. A família do pai dela e os amigos estão aqui, nós temos a casa em Caracas. Apesar de tudo, quero que ela termine os estudos aqui”, pontua.

O futuro do país

Quando questionada sobre as perspectivas para o futuro da Venezuela, a jornalista tem dificuldade em responder: “Não vejo Nicolás Maduro abandonando o poder. Posso estar enganada — e até espero. Mas eu especularia que, se ele não completa os seis anos desse mandato como presidente, chega bem perto disso. A não ser que leve uma rasteira do próprio chavismo.”

Na opinião da brasileira, a ascensão de Juan Guaidó como líder da oposição teve fôlego curto. “No início deste ano, o venezuelano estava completamente sem esperanças, apagado. Em um primeiro momento, Guaidó apareceu como se fosse para ‘calibrar os pneus’ do povo — as pessoas pediam mudança, houve movimentos nas ruas, mas os percalços na entrada de ajuda humanitária em fevereiro foram um balde de água fria”, relata.

“E houve o levante de 30 de abril, quando ninguém sabia direito se o líder era Juan Guaidó ou Leopoldo López. Depois disso, Guaidó fez uma campanha mais massiva no interior, mas eu passei por seu último ato em Caracas, há duas semanas, e acho que o público não chegava a 500 pessoas. Uma parte dos opositores mais ferrenhos já não se sente mais atraída pelo discurso dele.”

Para Elianah, o chavismo fez algo que sabe bem: ganhou tempo. “Mesmo o período de Juan Guaidó como presidente da Assembleia Nacional está chegando ao fim. Ele continua até 5 janeiro de 2020. E agora há as rodadas de conversas do governo venezuelano com a oposição, mediadas pela Noruega. Há muita especulação, mas a verdade é que gente não sabe onde isso vai parar.”

Siga R7 no Google e fique por dentro de tudo que acontece

Seguir no Google

Últimas

‌

Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com oAviso de Privacidade.