Conflitos no Oriente Médio perdem intensidade na pandemia

Israel trabalha em conjunto Palestina e combates diminuíram em alguns países, mas especialista diz que as causas dos conflitos permanecem

Oficial faz ronda de máscara, na Síria

Oficial faz ronda de máscara, na Síria

YOUSSEF BADAWI/efe/epa/24-03-20

Ao mesmo tempo que a pandemia do novo coronavírus ameaça o Oriente Médio, os países da região, conhecida como um barril de pólvora, desviaram parte da preocupação com a guerra para lidar com a covid-19.

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Ainda que muitos combates prossigam, eles perderam intensidade em regiões como o Iêmen e a Líbia, já que muitas tropas e militantes envolvidos em conflitos estão se recolhendo para se preservar, conforme afirmou o colunista do The Jerusalem Post, Seth J. Frantzman.

Também atolado em problemas por causa do vírus, que já deixou mais de 24 mil infectados e quase 2 mil mortos, o Irã deixou de lado o tom ameaçador em relação a Israel e Estados Unidos.

"A mídia do Irã não teve novos vídeos de propaganda sobre novos foguetes ou drones. No passado, o Irã parecia produzir novos foguetes, drones e outros equipamentos militares todos os meses, e gostava de se gabar de várias manobras militares. Agora isso parece fora da mesa", afirmou Frantzman.

O Observatório Sírio de Direitos Humanos informou em nota, nesta quarta-feira (25), que a trégua ainda prevalece, apesar de troca de tiros em algumas regiões da Síria.

“Prevalece a calma cautelosa em toda a ‘zona de exclusão’ quando o novo cessar-fogo entra em seu 20º dia consecutivo”.

Para Vladimir Feijó, professor de Relações Internacionais do Ibmec de Minas Gerais, a causa dos conflitos, no entanto, ainda permanecerá, apesar da questão sanitária. E isso só se resolverá com uma mudança de postura em outras questões mais enraizadas, como as dificuldades socioeconômicas.

"Imagino que sequer devemos falar de trégua, e sim a entrada de alguns conflitos em fase latente. Os combates podem ter reduzido por questão de precaução, por questão de logística de abastecimento ou por falta de apoio popular momentâneo diante outras preocupações. As lideranças permanecem as mesmas. As dificuldades sócioeconômicas permanecem e se agravarão. Não há elementos fortes o suficiente de análise a sustentar uma perspectiva de paz no futuro próximo, ao menos não uma que seja duradoura". afirma.

Para Frantzman, a pandemia pode gerar fortes crises humanitárias nestes países que já são comprometidos pelos combates.

"Pode ser que os países usem a pandemia como desculpa para reprimir e cometer violações dos direitos humanos. No entanto, sua capacidade de fazer isso será medida em relação às necessidades militares e de segurança em casa. Por exemplo, os EUA já reposicionaram forças no Iraque, pelo menos em parte devido à pandemia", destaca o jornalista.

A situação aproximou inclusive os representantes de Israel e da Palestina. Eles mantêm um escritório de monitoramento conjunto, em local não divulgado, para coordenar o combate à pandemia. Israel enviou 20 toneladas de desinfetante à Cisjordânia, para evitar o contágio do novo coronavírus, além de 400 kits de testes.

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